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O dilema entre conservar e explorar. Foto: Moisés Silva Lima/Flickr.

O dilema entre conservar e explorar. Foto: Moisés Silva Lima/Flickr.

Após passar por Cascavel, em direção ao extremo oeste do estado, Flávio Zanette, professor da Universidade Federal do Paraná, observa araucárias no Parque Nacional de Iguaçu. Ali, em cerca de 15% do parque, está uma das mais extensas áreas da Floresta Ombrófila Mista, nome técnico da mata onde os pinheiros são encontrados. O engenheiro florestal descreve a cena e sentencia: “Em 50 ou 60 anos, todas essas araucárias vão desaparecer”.

Nesta quinta-feira, o professor Zanette tem mais uma oportunidade de apresentar sua visão sobre o pinheiro-do-paraná, espécie que pesquisa há 32 anos. “Estudo a araucária, sem perder a floresta de vista”, comenta. Ele é um dos convidados do Simpósio de Direito Ambiental da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Paraná (OAB-PR), que começou nesta terça-feira e termina na amanhã (29).

Ele antecipa o que vai dizer em Curitiba. Zanette tem uma posição diferente tanto dos defensores da exploração comercial de pinhais nativos, quanto dos ambientalistas, que rejeitam qualquer iniciativa que significa o corte das árvores. Para o professor, que desde os anos 80 estuda a araucária, a sobrevivência da espécie depende de manejo.

“É necessário derrubar algumas árvores para permitir a regeneração”, afirma. O engenheiro agrônomo explica que as araucárias se espalhavam ocupando áreas abertas, nas bordas das florestas. Mas agora, essas bordas estão ocupadas pela pecuária ou agricultura. A saída é derrubar aquelas que já atingiram o apogeu, para permitir o crescimento das novas.

Ele admite o uso comercial apenas daquelas isoladas em pastos dentro de propriedades rurais, para que os recursos possam ser usados para replantio. Dentro das florestas, não discute. Ele lembra dos estragos provocados em planos de manejo, como a abertura de estradas e os impactos em plantas vizinhas. “Só se deve permitir esse manejo em uma floresta pública, unicamente para pesquisa”, diz com firmeza.

É uma posição diferente daqueles que defendem o manejo com alternativa econômica, uma proposta defendida por pesquisadores da Unicentro, que trabalham com a Universidade de Rottenburg, Alemanha. Eles propõem um projeto piloto com 40 proprietários rurais, para avaliar a viabilidade do manejo madeireiro das araucárias.

“Assim como se faz com caça científica de baleias, matando em função da carne, querem derrubar as araucárias”, adverte o diretor-executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS), Clóvis Borges, que se opõe ao corte.

Pinhas e araucárias. Para animais, a araucária é um recurso fundamental, pois frutifica no inverno quando outros frutos são raros. Foto: Douglas Scortegagna/Flickr.

Pinhas e araucárias. Para animais, a araucária é um recurso fundamental, pois frutifica no inverno quando outros frutos são raros. Foto: Douglas Scortegagna/Flickr.

De acordo com Borges, as áreas naturais foram devastadas nos anos 1960 justamente devido a planos de manejo que não foram respeitados. Atualmente, apenas 1% de toda área onde ocorriam as araucárias ainda estão em estágio avançado de preservação. No Paraná, esse percentual é ainda menor, 0,8%.

As propostas de manejo madeireiro de araucárias por enquanto são barradas pelo Ministério Público do Estado do Paraná, que estabeleceu um acordo para evitar que esses projetos sejam licenciados.

Para o biólogo João de Deus Medeiros, chefe do Departamento de Botânica da Universidade Federal de Santa Catarina, a proposta de planos de manejo experimentais são um artifício para legalizar a exploração madeireira dos pinheiros. Segundo ele, esses planos de manejo precisariam primeiro provar serem sustentáveis.

“O mesmo modelo foi adotado ao longo de 50 anos e não se sustentou”, afirma e destaca que as serrarias desapareceram a partir das décadas de 1960 e 1970, quando ainda não havia restrições para a exploração. “O declínio da atividade se deu em virtude do esgotamento do recurso”.

Para João de Deus, a defesa da exploração do que sobrou de araucárias é uma visão imediatista. Ele duvida inclusive da possibilidade de plantio da espécie, devido a opção dos produtores pelo pinho e pelo eucalipto.

As florestas com araucária se estendiam por mais de 20 milhões de hectares, desde o Rio Grande do Sul a Minas Gerais, onde as áreas de clima mais ameno no Sul do país e na Serra da Mantiqueira permitiram que a espécie continuasse a sobreviver. Na classificação oficial, está dentro do Bioma Mata Atlântica.

Essa classificação é um motivo de indignação do professor Zanette, que lembra da ocorrência de araucárias em áreas abertas no Sul do país (outro motivo de indignação é o descaso com que pesquisas sobre a espécies são tratadas pelo CNPq, afinal um projeto recente foi recusado sob a argumentação de que teria “foco localizado e interesse restrito para a ciência).

Para animais, a araucária é um recurso fundamental, pois frutifica no inverno quando outros frutos são raros. “É uma árvore frutífera”, afirma Zanette. Talvez aí esteja a melhor maneira de ver a situação, olhar a araucária, sem perder de vista a floresta, e de olho também nos frutos e no valor dela em pé.

 

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