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O famoso comedouro de aves da Trilha dos Tucanos. Crianças de todas as idades, como a da foto, saem deste passeio com um sorriso de orelha a orelha. Fotos: Fabio Olmos

O famoso comedouro de aves da Trilha dos Tucanos. Crianças de qualquer idade, como a da foto, saem deste passeio com um sorrisão. Foto: Fabio Olmos

Vivemos uma era onde experiências são mais valiosas que compras. E o turismo de vida selvagem, aquele que te oferece momentos Animal Planet, BBC, National Geographic ou Discovery Channel, vende experiências supremas.

Estar próximo e interagir com bichos vivos proporciona aqueles momentos PQP que atraem visitantes a UCs das ilhas Antípodes ao Zimbabwe, gerando cadeias de negócios, integrando comunidades isoladas à economia global e criando empregos.

Na pior das hipóteses, bichos são conservados porque são mais valiosos vivos do que mortos. Na melhor, há o salto civilizatório e eles passam a ser companheiros de nossa jornada neste planeta, com os mesmos direitos à existência.

A necessidade humana de proximidade e interação gerou negócios antes improváveis como visitar gorilas em Uganda, passar o dia com onças no Pantanal, observar baleias, caminhar com pinguins e mergulhar com tubarões.

Os tubarões chamam a atenção porque um dos padrões da indústria são excursões onde os simpáticos bichinhos são alimentados pelos dive-masters e fazem a alegria dos turistas. Um resultado é que os tubas são totalmente protegidos em países como as Bahamas pois são um motor da economia.

Existem outros empresários de bichos que criaram negócios similares, que beneficiam todos os envolvidos. Aqui em São Paulo, um dos locais mais agradáveis para observar aves é a Trilha dos Tucanos, em Tapiraí. Além de uma bela floresta, sistema de trilhas, hospedagem e restaurante, o que atrai birders e fotógrafos ao lugar são os comedouros que atraem montes de aves silvestres que se tornaram habituadas às pessoas.

Tucanos também é um dos melhores lugares que conheço para, como diz o povo da educação ambiental, sensibilizar as pessoas. Ter um grupo de saíras e catirumbavas comendo banana na mão de uma criança por cinco minutos vale mais que seis meses catando latas para reciclagem ou fazendo papel na escola.

Comedouros sim, gaiolas não. Unidades de conservação poderiam dar o exemplo.

Comedouros sim, gaiolas não. Unidades de conservação poderiam dar o exemplo. Foto: Fabio Olmos

Tucanos não é única a ter comedouros para aves, que são comuns em reservas e propriedades privadas em todo o Brasil e fazem a alegria de passarinhos e seus amigos. O que chama a atenção é que, com pouquíssimas exceções, comedouros de aves são explicitamente banidos das unidades de conservação manejadas pelo Estado.

Sempre que pergunto a razão, ouço que é “é proibido pela lei” e explicações do tipo “altera o comportamento”, o que não explica coisa alguma. Construir um centro de visitantes, ter veículos nas estradas de serviço, iluminação noturna ou abrir um aceiro também altera o comportamento da fauna, mas fazemos isso em uma UC porque os benefícios são entendidos como maiores do que os malefícios.

Qualquer um que já gastou algum tempo olhando a reação das pessoas – especialmente crianças – visitando um comedouro de aves decente já percebeu como estes podem ser uma ferramenta poderosa para conquistar corações e mentes contra atividades que são as verdadeiras desgraças, como a caça e a tradição de ter aves em gaiola.

Os que turistam em UCs pelo mundo também já descobriram que somos uma Coréia do Norte com relação a práticas comuns e correntes. Para não ir longe, nos Estados Unidos – onde parques nacionais são considerados “America’s Best Idea” – todo centro de visitantes de qualquer UC tem comedouros para que todos, inclusive aqueles com limitação de mobilidade, possam ter um gostinho da fauna alada.

Dá trabalho? Claro, a higiene é fundamental. Altera o comportamento? Lógico. Isso é ruim? Não. O importante é que altera o comportamento das pessoas. Ninguém é convencido de algo por conta de sua racionalidade. Somos convencidos pelas nossas emoções, e aí está a chave da razão de as experiências que oferecem contato próximo com o mundo natural serem transformadoras.

Além disso, há toda uma série de programas de monitoramento pelo mundo afora que utilizam comedouros e plataformas de Ciência Cidadã para acompanhar as tendências populacionais das aves e relacioná-las a coisas como o uso da terra e mudanças climáticas. Programas que, por sinal, incluem comedouros instalados em escolas. Alguém captou a ideia?

Proibir comedouros de aves em UCs brasileiras faz muito mais mal do que bem. Cada parque sem comedouros é uma oportunidade perdida de educar e sensibilizar, e de mostrar algo que pode ser feito em casa e ser parte do processo de erradicar a tradição das gaiolas.

Albatrozes-de-coroa-branca Thalassarche steadi acompanham o barco onde fiz uma saída pelágica em Stewart Island, no sul da Nova Zelândia, esperando um lanchinho. Este momento será inesquecível para quem estava ali.

Albatrozes-de-coroa-branca Thalassarche steadi acompanham o barco onde fiz uma saída pelágica em Stewart Island, no sul da Nova Zelândia, esperando um lanchinho. Momento inesquecível para quem estava lá. Foto: Fabio Olmos

O que aconteceria se alguém propusesse que cada UC brasileira tenha comedouros de aves? Na minha experiência irá esbarrar no “é ilegal”, “altera comportamento” e outras desculpas que não são desculpas. Se há alguma lei que proíbe oferecer bananas a passarinhos, ela merece uma banana.

Indo além, e voltando ao começo. Alimentar tubarões é comum em UCs marinhas do mundo todo, com pilhas de pesquisas sobre o assunto que vão do monitoramento de populações, passam pela economia e chegam à ausência de impactos significativos no seu comportamento.

Um dos exemplos de como o Brasil é torto é que em Fernando de Noronha ninguém está autorizado a fazer um shark diving como nas Bahamas, ao mesmo tempo que os mesmos tubarões são mortos no entorno do parque para fazer o famigerado tubalhau.

Aliás, lembre-se de que quem compra produtos feitos com carne, dentes e outras partes de tubarões e cações está ajudando estas espécies a desaparecer.

Ainda no mar, outra atividade que envolve oferecer alimento a animais para proporcionar momentos PQP é a observação de aves marinhas. No Brasil essa atividade ainda é incipiente mas em outros países é uma indústria consolidada, com operadores e excursões regulares saindo de portos na África do Sul, Chile, Peru, Nova Zelândia, Estados Unidos, Portugal, entre muitos mais.

Como observador de aves, tenho um fraco pelos albatrozes e petréis que são as grandes estrelas da maioria dos pelágicos pelo mundo afora e já participei em várias excursões nestes países. Um dos mais interessantes é a Nova Zelândia.

A nação-ilhas é o hotspot da diversidade de albatrozes e petréis do mundo e um dos campeões de sua conservação. Aves marinhas formam um dos grupos de aves mais ameaçados, com 15 das 22 espécies de albatrozes sob ameaça de extinção porque muitas aves são mortas por barcos espinheleiros (os que pescam tubarões, atuns e mecas. Peixes que você não deveria consumir) e porque cães, gatos, ratos e camundongos introduzidos – e vândalos – dizimam suas colônias reprodutivas.

A Nova Zelândia é uma campeã nos esforços de conservação dessas aves, com projetos que incluem a erradicação de predadores introduzidos, criação de UCs marinhas, desenvolvimento de técnicas de pesca que minimizam a mortalidade, monitoramento das embarcações de pesca e promoção de acordos internacionais como o Acordo para a Conservação de Albatrozes e Petréis – ACAP, do qual o Brasil é signatário.

Albatrozes-neozelandeses Diomedea antipodensis e petréis-gigantes Macronectes hallii atraídos pelo purê de fígado de peixe oferecido durante um pelágico em Kaikoura, Nova Zelândia. O país é referência em ecoturismo e conservação marinha, combinando ambas.

Albatrozes-neozelandeses e petréis-gigantes atraídos pelo purê de fígado de peixe oferecido durante um pelágico em Kaikoura, Nova Zelândia, país referência em ecoturismo e conservação marinha. Foto: Fabio Olmos

Outra coisa na qual a Nova Zelândia é campeã é o ecoturismo. Ali há diversos operadores que levam as pessoas para ver, ao vivo e a cores, a diversidade de albatrozes, petréis e aves marinhas que o país tem.

Se minha experiência vale algo, ver um albatroz-real com três metros de envergadura ao alcance da mão, um grupo com dezenas de albatrozes de quatro espécies diferentes acompanhando seu barco ou petréis-gigantes lutando sumô causam aquela sensação que faz você se perguntar por que há quem use drogas ao invés de observar aves.

Estas excursões permitem o contato próximo com essas aves quase lendárias, que normalmente ninguém vê nem sabe que existem. Quando o pessoal do Projeto Albatroz começou a trabalhar para que o governo brasileiro participasse das negociações do ACAP descobriu que poucos em Brasília sabiam o que era um albatroz...

Também são a única oportunidade que mortais comuns têm para ver espécies raríssimas, como o New Zealand Storm Petrel. Considerado extinto em 1850, foi redescoberto em 2003 por observadores de aves numa saída pelágica. Hoje há todo um programa de pesquisa e monitoramento da espécie -- uma das aves mais raras do mundo --, enquanto as excursões comerciais para observá-la continuam.

Falar em excursões comerciais para observar espécies criticamente em perigo causa urticária em algumas pessoas por aqui. Que aumentará se eu disser que alguns destes tours, como em Kaikoura (assista o vídeo!), são feitos em unidades de conservação marinhas.

Para “piorar”, todas as excursões para observar aves marinhas na Nova Zelândia adotam a prática (padrão no mundo todo, por sinal) de lançar alimento na água para atrair as aves. Sim, leitores e leitoras, lá eles alimentam os passarinhos para que os visitantes possam vê-los de perto. E ainda ganham dinheiro com isso.

E não é qualquer comida que é usada. A preferência é por um purê feito com restos de salmão, criado nas muitas fazendas marinhas do país. Proteína com óleo de peixe é irresistível para as aves.

Estes dois parágrafos devem conter uns quatro ou cinco pecados se seguirmos o padrão do planejador ambiental brasileiro. Para os neozelandeses, que devem ter o melhor histórico de manejo de aves marinhas e de conservação marinha, é usual.

O New Zealand Storm Petrel (Fregetta maoriana) foi considerado extinto em 1850 e redescoberto por observadores de aves em 2003. Você pode observar esta espécie em saídas organizadas por diversos operadores turísticos no Gulf of Hauraki Marine Park, que usam restos de salmão moído para atrair as aves.

O New Zealand Storm Petrel (Fregetta maoriana) foi considerado extinto em 1850 e redescoberto por observadores de aves em 2003. Você pode observar esta espécie em saídas organizadas por operadores turísticos no Gulf of Hauraki Marine Park, que usam restos de salmão moído para atrair as aves. Foto: Fabio Olmos

O mar brasileiro é utilizado por 45 espécies de albatrozes e petréis, além de dezenas de gaivotas, fragatas, atobás, trinta-réis, etc. Continuamos sabendo muito pouco sobre a maioria destas aves além de muitas estão ameaçadas. Ao mesmo tempo há uma crescente comunidade de observadores de aves que está engajada em Ciência Cidadã usando plataformas como o Wikiaves e o eBird.

O que aconteceria se alguém aqui no Brasil quiser fazer excursões em UCs marinhas como Alcatrazes, Noronha ou Abrolhos para observar aves usando as mesmas práticas que os neozelandeses? E se alguém quiser começar um negócio de mergulho com tubarões como é feito nas Bahamas?

Falando por experiência, bateria na desculpa do “altera comportamento”, “cria impacto” e outras explicações que não explicam nada.

Regras discutíveis que restringem a visitação de UCs e proíbem atividades que são rotineiras em outros países pioram a situação. Inibem o uso das UCs por um público interessado pela sua conservação, matam oportunidades de monitoramento e abortam negócios baseados no turismo de vida selvagem.

O que é mesmo que causa impacto?

 

 

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