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Pesquisa mapeia degradação ambiental em remanescentes de Caatinga

Estudo considerou as pressões antrópicas próximas aos fragmentos de vegetação nativa e revelou que porções norte e leste do bioma são as potencialmente mais perturbadas

Duda Menegassi ·
8 de julho de 2020 · 1 anos atrás
Fragmentos remanescentes de Caatinga enfrentam potencial degradação ambiental devido a pressões antrópicas como a caça e a extração de madeira. Foto: Duda Menegassi

Em termos visuais, enquanto uma área desmatada mostra de forma explícita a perda de valor ambiental de um determinado habitat, a degradação ambiental é mais sutil e, às vezes, imperceptível aos olhos leigos. Diversos motivos podem provocar a gradual degradação de uma área natural e, sem surpresa, a maior parte deles ocorre em decorrência da pressão humana. Com isso em mente, uma equipe de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte criou uma fórmula matemática para entender quais os remanescentes de vegetação nativa da Caatinga enfrentam potencialmente uma maior perturbação em face de pressões antrópicas como: densidade populacional, presença de infraestruturas, de pastos, extração de madeira e fogo.

Com esses critérios, a pesquisa mapeou os mais de 47 mil fragmentos remanescentes de Caatinga e conseguiu identificar que as regiões norte e leste do bioma, as mais próximas do litoral, são as que potencialmente apresentam maiores distúrbios antrópicos crônicos. O resultado do estudo, liderada pela pesquisadora Marina Antongiovanni, atual subcoordenadora da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Rio Grande do Norte, foi publicado neste domingo (5) no periódico Journal of Applied Ecology, da British Ecological Society.

“O semiárido brasileiro é o mais populoso do mundo, e a gente não consegue entender de fato qual a permeabilidade das pessoas para dentro dessas áreas remanescentes de Caatinga. Com esse trabalho, nós conseguimos sair dessa coisa de preto no branco do bioma. A gente conseguiu enxergar tonalidades diferentes em função da qualidade [ambiental] do fragmento. Há aquelas áreas que foram desmatadas e há as que continuam fragmentos, mas quais as variações desse fragmento? Está mais ou menos perturbado? Isso tem a ver com a densidade populacional e fatores antrópicos que a gente conseguiu perceber com esse estudo”, explica ao ((o))eco a pesquisadora, Marina Antongiovanni.

“A gente pegou esses vetores – densidade populacional, presença de infraestruturas, de pastos, extração de madeira e fogo – e espacializou eles para gerar uma superfície, uma camada de informação onde podemos enxergar para cada pixel do bioma, qual a perturbação antrópica que ele sofre, potencialmente. E nós vimos que essa perturbação está muito estruturada em relação a borda, ou seja, quanto mais próximo o pixel de Caatinga está da borda, mais potencialmente perturbado ele é. Quanto mais longe, menos potencialmente perturbado. Mas isso pode variar bastante em função do contexto em que estão inseridos os remanescentes”, acrescenta.

De acordo com a bióloga, os dados ajudam a identificar os remanescentes de Caatinga que exigem mais atenção porque potencialmente são fragmentos muito perturbados pela ação humana. “Nesses casos é preciso criar estratégias de manejo, para orientação da população e para própria fiscalização para que essas áreas não se percam”, aponta.

Mapa da degradação dos fragmentos de Caatinga. Fonte: Marina Antongiovanni/UFRN

A análise não levou em conta a presença de unidades de conservação e como elas poderiam alterar a lógica de perturbação uma vez que, pelo menos em teoria, são espaços onde há esforços maiores de conservação da natureza. Apesar disso, é possível observar que as áreas que estão menos perturbadas coincidem com as maiores unidades de conservação da Caatinga: os parques nacionais da Serra da Capivara, da Serra das Confusões, de Sete Cidades, e Boqueirão da Onça, na porção oeste do bioma.

“Esse estudo serve mais como um guia de ações que a gente tem que realizar no futuro, tomar mais cuidado com as áreas que estão sofrendo muita perturbação e, ao mesmo tempo, aproveitar as oportunidades que ainda restam no bioma da gente para proteger áreas que estejam mais intactas e preservadas”, explica Marina.

Em um artigo publicado em 2018, a bióloga já havia feito o levantamento dos fragmentos de Caatinga remanescente, com a distribuição a tamanho desses fragmentos, e analisado quão conectados ou isolados eles estariam. Nessa pesquisa foram identificados 47.100 fragmentos de vegetação nativa. Desses, 91% são menores do que 500 hectares e apenas 720 são maiores que 10 mil hectares, e correspondem a 78% de toda vegetação remanescente.

“Nós encontramos nesse primeiro estudo que, apesar de 50% da cobertura original da Caatinga já ter sido desmatada, a porção de vegetação remanescente está bem conectada. Ou seja, a conectividade estrutural e funcional da Caatinga até que é boa. Você não imaginaria olhando só para as áreas remanescentes de Caatinga que não fosse ter população de onça-pintada, por exemplo, no Rio Grande do Norte. Estruturalmente parece que você tem caminhos para que onças lá da região oeste cheguem até essa porção mais central/leste. Mas elas não estão. Por quê? A gente acredita que isso tem a ver com essa pressão antrópica crônica que tem acontecido há muitos anos, que tem a ver com a caça, com a maior densidade populacional, com mais acesso, mais estradas, mais extração de lenha. Quanto mais houver esses fatores, mais você vai estar subjugando aquela área para uma condição de maior degradação. Com isso, algumas populações vão sumindo. Não basta manter a conectividade que a Caatinga já tem, a gente tem que ter políticas públicas que permitam que essas áreas que conectam as áreas protegidas já existentes tenham boa qualidade, e para que as pessoas tenham alternativas de exploração sustentável e que haja campanhas para diminuir a caça”, ressalta Marina.

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