Lençóis Maranhenses: um caminho por entre as dunas

Lençóis Maranhenses: um caminho por entre as dunas

Duda Menegassi*
domingo, 2 julho 2017 14:00
A Grande Travessia dos Lençóis Maranhenses percorreu 50km do parque nacional. Foto: Duda Menegassi.
A Grande Travessia dos Lençóis Maranhenses percorreu 50 km do parque nacional. Foto: Duda Menegassi.

Eram quase 4h da manhã. O breu era quebrado apenas pela meia luz de uma lua em estado minguante. No horizonte dos quatro pontos cardeais tudo que se via era areia, entremeada aqui e ali por uma lagoa. Nenhuma placa, nem seta, nada. Ainda assim, os passos do guia que liderava o grupo de 20 pessoas não hesitavam. De vez em quando, ele levantava a cabeça e olhava de um lado para o outro, mas sem parar de andar. Era como se, diferente do resto de nós, cujas pegadas desapareciam sob ação do vento, seus passos fizessem marcas permanentes toda vez que ele caminhava por ali e não houvesse dúvida sobre qual direção seguir.

Patrício é um dos guias credenciados de trekking no Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA) e há 5 anos percorre quase diariamente os caminhos por entre as dunas. Naquela madrugada do dia 17 de junho, ele guiava, como sempre, mas o grupo que seguia seus passos confiantes estava ali em uma missão para além do turismo. A travessia, que duraria três dias e percorreria cerca de 50 quilômetros por entre as dunas e lagoas dos Lençóis, era um evento comemorativo aos 10 anos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e aos 36 anos do parque.

Os Lençóis Maranhenses são o maior campo de dunas do Brasil e representam dois terços da área total do parque. Os visitantes que deparam com o cenário desértico não imaginam que apesar de estarem dentro de uma unidade de conservação oficialmente registrada como Marinha Costeira, estão também em uma zona de Cerrado, com influência da Caatinga e da Amazônia. O encontro dos biomas se reflete na fauna, que possui espécies únicas, como a pininga (Trachemys adiutrix), uma tartaruga do deserto endêmica dos Lençóis e atualmente ameaçada de extinção.

Poucas pessoas sabem que os famosos Lençóis Maranhenses estão dentro de um parque nacional. Menos ainda sabem que é possível fazer uma travessia por lá. E mais do que comemorar, o objetivo do evento foi também divulgar a caminhada de longa duração como uma das opções para quem quer conhecer o interior dos Lençóis. A demanda para essa atividade ainda é pouca, apesar do potencial ser gigantesco.

A Grande Travessia dos Lençóis Maranhenses, como foi chamada, é diferente da maioria dos trekkings. A começar pelo fato de que ela inteira pode ser feita em alternância dos chinelos com os pés descalços. Nada de botas, é preciso sentir a areia entre os dedos. Segundo, o horário ideal para começá-la é de madrugada. A decisão se justifica para evitar o sol à pino, uma vez que não existem sombras no meio do percurso. O bônus da saída em plena escuridão é que é possível conhecer as múltiplas cores dos Lençóis. Desde as lagoas prateadas, quando a única fonte de luz são as estrelas e a lua; aos tons de rosa e laranja que surgem no horizonte com o nascer do sol e colorem as dunas; até o clássico cenário de areias branquinhas e lagoas cristalinas, quando o sol já está a postos.

Na travessia dos Lençóis Maranhenses, esqueça as botas. O caminho é feito a pé ou de chinelo. Foto: Duda Menegassi.
Na travessia dos Lençóis Maranhenses, esqueça as botas. O caminho é feito descalço ou de chinelo. Foto: Duda Menegassi.

No primeiro dia, saímos de Barreirinhas com apoio de um carro credenciado que nos levou até a entrada da duna. De lá, o objetivo era vencer os 22 quilômetros que nos separavam de Baixa Grande, povoado tradicional onde iríamos pernoitar e onde nos aguardava o almoço. Os pontos de apoio nessas comunidades, com alimentação e redes para passar a noite, permitem aos caminhantes viajarem mais leves, sem necessidade de uma mochila cargueira. A leveza ajuda e deve ser aproveitada porque, acreditem, caminhar na areia não é fácil.

Entre as 21 pessoas que compuseram a expedição que partiu de Barreirinhas, estavam guias e condutores voluntários, como Patrício; o coordenador-geral de Uso Público e Negócios (CGEUP) do ICMBio, Pedro Menezes; a coordenadora do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação da Sociobiodiversidade Associada a Povos e Comunidades Tradicionais (CNPT), Gabrielle Souza; e o gestor do parque, Adriano Damato. Além deles, cerca de dez turistas se juntaram à jornada, a maioria com pouca experiência em caminhadas de longa duração. Para garantir o suporte ao grupo, dois quadriciclos e uma enfermeira ficaram à disposição.

De volta a Patrício e seus passos, eu, que ia logo atrás, não resisti a perguntar “como você sabe para onde ir?”. Ao que ele respondeu simplesmente “é só marcar os pontos”. Naquela imensidão de areia, a resposta parecia um insulto à minha capacidade de orientação e não me dei por satisfeita. “Mas as dunas mudam, as lagoas enchem e secam. Como você consegue ter pontos de referência? ”. Com igual simplicidade, ele replicou “É verdade, a paisagem muda, mas eu estou aqui quase todo dia, vou mudando com ela”. Mais tarde ele explicou que o processo de formação das dunas, criadas pela ação dos ventos que vêm do mar e carregam aquela areia fina, ajuda a indicar em que direção está o oceano e serve como uma bússola natural. De fato, mesmo sem conseguir enxergar o mar, era possível perceber um certo padrão nas dunas e na direção dos seus “facões”, como são chamadas as partes onde ela “desaba” e é mais vertical.

Havíamos caminhado por mais de duas horas quando finalmente fizemos uma parada, com um motivo mais nobre do que apenas descansar as panturrilhas: assistir o nascer do sol. O espetáculo do amanhecer revelou o cenário paradisíaco que até então se escondia por detrás da noite. Estamos dentro do cartão-postal. O nível alto das lagoas foi uma grata surpresa. A época seca já começou, mas as chuvas foram particularmente generosas durante a estação e abasteceram os Lençóis de piscinas. De acordo com o gestor, Adriano, que trabalha no parque desde 2009, esse é uma das fases mais bonitas em que a unidade já esteve nos últimos cinco ou seis anos.

O mergulho nas águas de chuva da Lagoa do Cristalino. Foto: Duda Menegassi.
O mergulho nas águas de chuva da Lagoa do Cristalino. Foto: Duda Menegassi.

Aproximadamente 5 horas e mais de 10 quilômetros depois, fizemos nosso primeiro mergulho nas águas de chuva do parque. A maioria das lagoas nos Lençóis não tem nome, principalmente as mais remotas, localizadas no interior do parque. Primeiro, por seu caráter temporário – algumas nem sempre estão lá -, segundo, porque são muitas. Diante da frustração jornalística de não poder documentar propriamente qual é qual, decidi nomeá-las, com nomes inventados ao meu bel-prazer. Lagoa do Cristalino foi a alcunha que dei a essa, por razões autoexplicativas.

A caminhada seguiu com paradas cada vez mais frequentes. À medida que o relógio avançava ao meio-dia, aumentava a força do sol e diminuía a das panturrilhas. É indispensável levar um bom chapéu e protetor solar, mas mesmo com eles, caminhar com o sol a pino é um desafio. Quando o verde surgiu no horizonte, um indício de que estávamos próximos ao oásis em que fica Baixa Grande, o alívio foi geral. Vinte e dois quilômetros e muito suor depois, havíamos concluído o primeiro dia de trekking.

O povoado de Baixa Grande e o segundo dia da travessia

Baixa Grande é um pequeno oásis verde no meio do deserto maranhense. Lá existem apenas seis casas, uma delas pertence à Dona Odete e Seu Moacir, casados há 37 anos. Os dois construíram um redário (espaço de redes), disponibilizam banheiros, chuveiros e oferecem refeições e até refrigerante geladinho para receber os turistas que optam pela caminhada. Por entre as estruturas de palha, circulam livremente galinhas, bodes, cabritos e porcos. Uma verdadeira imersão no estilo de vida caiçara que enriquece a experiência do trekking.

Dentro do Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses moram mais de 5 mil pessoas, mas a maioria está fora da zona de dunas. Dentro, de acordo com o gestor, moram menos de 100, divididas entre pequenos povoados. Em Baixa Grande, conforme explica Dona Odete “é todo mundo aparentado”.

Seu Moacir e Dona Odete, casal morador da Baixa Grande, nos Lençóis. Foto: Duda Menegassi.
Seu Moacir e Dona Odete, casal morador da Baixa Grande, nos Lençóis. Foto: Duda Menegassi.

No segundo dia de travessia, nosso destino é outro desses povoados: Queimada dos Britos. O nome faz referência ao processo de colonização dos Lençóis, que começou antes da criação do parque nacional (em 1981), quando a família dos Britos, pioneira por ali, se instalou e tratou de fazer queimadas para abrir espaço para pastagens e agricultura. Até hoje o sobrenome Brito é um dos mais comuns por lá, rivalizando com os Garcias, que juntas são as principais famílias dos Lençóis. Segundo um dos guias, em Queimada dos Britos moram atualmente 12 famílias.

Nosso caminho até lá é mais fácil do que o da véspera. São 11 quilômetros, metade da quilometragem anterior. Saímos junto com o sol dessa vez e no percurso, a paisagem ganha novos elementos. O oceano aparece, ainda que tímido, apenas como uma linha azul a se misturar com o céu. E, em contraste com o resto, o rio Negro surpreende com suas águas avermelhadas (um efeito da presença de minerais, principalmente o ferro). Presenciamos ainda uma revoada de guarás que pontilhou o céu de vermelho.

Esse trecho entre os oásis talvez seja o mais belo da travessia. As camadas dos Lençóis, cobertas de areia e água de chuva, constroem os horizontes como colcha, em retalhos de beleza. As dunas parecem desenhos esculpidos com solidez e não milhões de minúsculos grãos de areia empilhados pelo vento.

A aparição de um coqueiro solitário, em desacordo com a vegetação típica da restinga, indica que estamos perto. “Onde você vê um coqueiro, é porque alguém plantou, ou seja, é sinal de um povoado”, explica um dos guias. De fato, é possível distinguir o oásis: uma abundância de verde ladeada por um farto rio. Um cenário que a maioria das pessoas jamais associaria aos Lençóis Maranhenses. Dos 155 mil hectares do parque, 60 mil correspondem à cobertura vegetal de restinga. O “deserto brasileiro” também é verde, afinal.

Ao fundo, o horizonte azul mostra que o oceano não está distante. Foto: Duda Menegassi.
Ao fundo, o horizonte azul mostra que o oceano não está distante. Foto: Duda Menegassi.

Cerca de 5 horas depois de deixar Baixa Grande, chegamos em Queimada dos Britos. Ali encontramos o grupo de guias voluntários que saiu de Santo Amaro, município limítrofe ao parque e uma das principais portas de entrada dos visitantes. Os oito guias e a mãe de um deles, com 60 anos, irão se unir a nós na etapa final da travessia. Somos 30 agora e o grupo está completo para celebrar. Afinal de contas, é um evento comemorativo. Ao redor de uma fogueira e ao som da banda Filhos da Areia, composta por músicos locais, me pego cantando o refrão “É quintal de casa, a visão dessa lagoa, é quintal de casa”. O verso traduz bem o espírito caiçara de quem mora dentro ou mesmo nos arredores dos Lençóis.

O Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) não prevê a possibilidade de moradores dentro de parques. A maioria dos parques brasileiros, entretanto, possui problemas com a regularização fundiária. Diante de uma experiência de caminhada de longa duração enriquecida pela imersão no estilo de vida caiçara, me questiono sobre possíveis alternativas para legitimar a presença desses moradores dentro do parque. Alguns deles possuem vocação para o turismo e o fazem de maneira mais interessante e legítima do que qualquer serviço concessionado poderia oferecer.

Como explicou o próprio gestor do parque, “O SNUC é complicado, mas ao mesmo tempo ele nos fornece ferramentas adaptáveis a qualquer situação, seja através de recategorização ou de zoneamentos. Mas tudo precisa ser estudado caso a caso. Seria um desperdício desvincular uma família como a da Dona Odete dos Lençóis. Porque o visitante se encanta com essa vivência”.

Uma das casas no povoado de Queimada dos Britos. Foto: Duda Menegassi.
Uma das casas no povoado de Queimada dos Britos. Foto: Duda Menegassi.

O terceiro dia da travessia

“Filhos da areia, filhos dessa selva, somos caiçaras desbravando todos os limites dessa terra”. O trecho é de outra música da banda maranhense que leva o mesmo nome do grupo, “Filhos da areia”. Com o verso na cabeça, parti com o grupo, novamente de madrugada, para o terceiro e último dia da travessia. Dessa vez, seriam 17 quilômetros até a Lagoa da Betânia, ponto final da expedição.

Mais uma vez, valeu a regra de apressar o passo enquanto o sol não aparece. Saímos às 3 horas da manhã e às 6h já havíamos percorrido mais da metade do trajeto. A despedida do parque não poderia ser melhor com as luzes do amanhecer transformando os Lençóis em espelhos do céu.

Graças aos olhos aguçados do Chacal, apelido de um dos guias que acompanhava o grupo, vimos no caminho um diminuto sapo branco (segundo Chacal, uma raridade dos Lençóis), filhotes de um trinta-réis-grande (espécie de gaivota) e até rastros de uma raposa. Chacal também é voluntário do parque e uma das atividades do voluntariado é monitorar a fauna, através de registros georreferenciados feitos no aplicativo Wikiloc. Seus olhos estão acostumados a achar ninhos de aves e identificar animais através das pegadas que eles deixam na areia.

O diminuto sapo branco envolto em areia teria passado despercebido não fossem os olhos treinados do guia. Foto: Duda Menegassi.
O diminuto sapo branco envolto em areia teria passado despercebido não fossem os olhos treinados do guia. Foto: Duda Menegassi.

O percurso até Betânia dá as costas ao oceano e segue em direção sudoeste, no sentido da formação das dunas. Ou seja, é um trecho de muitas subidas e descidas acentuadas pelos tais “facões”. Esse sobe e desce constante impõe um nível de dificuldade moderado aos caminhantes com as pernas já fatigadas dos outros dias. Alguns participantes do grupo, com pouca experiência em trekkings de longa duração, precisaram pegar carona nos quadriciclos de apoio para completar o desafio.

Após seis horas de trekking, chegávamos ao final da nossa jornada. De olho no relógio por causa do horário do voo, tive pouco tempo para comemorar a chegada, mas o sentimento de missão cumprida dispensava brindes. Depois de três dias, 50 quilômetros e a travessia concluída com êxito, não posso negar que foi uma mordomia pegar uma carona num quadriciclo até Santo Amaro e percorrer mais de 10 quilômetros em poucos minutos na garupa, com o vento no rosto e as panturrilhas relaxadas. Mas não trocaria o meu trekking por um passeio motorizado. Os Lençóis marcam o tempo em grãos de areia, como uma grande ampulheta, e isso só percebe quem caminha por lá. Com a vagareza dos passos que penam para subir as dunas, com a sensação da areia por entre os dedos dos pés e com a visão das suas próprias pegadas desaparecendo atrás de si. Esse é o movimento dos Lençóis e só nota quem se move com eles. Como diriam os guias locais de trekking, os que mais andam e que sabem caminhos nunca marcados, “as dunas mudam, mas nós mudamos com elas”.

 

O caminho de 50km percorrido nos três dias de travessia. Em vermelho, os limites do parque.
O caminho de 50km percorrido nos três dias de travessia. Em vermelho, os limites do parque.

 

Galeria

 

 

Travessia dos Lençóis Maranhenses

Onde: Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses (MA)

Distância: 50 quilômetros

Pernoite? Sim. O pernoite é feito nos povoados que vivem dentro do parque, Baixa Grande e Queimada dos Britos.

Para realizar a travessia é necessário contratar um guia local credenciado.

 

*Duda Menegassi é jornalista de ((o))eco e à convite do ICMBio irá acompanhar as dez travessias em unidades de conservação que serão realizadas em comemoração aos dez anos do órgão ambiental.

 

 

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