Reportagens

Sem equipamentos adequados, guarda-parques se arriscam no Rio Grande do Sul

Profissionais que cuidam da linha de frente das unidades de conservação se expõem a riscos por falta de capacitação de trabalham e lutam pela reconhecimento da profissão

Fernanda Wenzel ·
31 de julho de 2018 · 6 anos atrás
FOTO : Mauricio C. Pereira

Quando passou no concurso para guarda-parques em 2007, o gaúcho Elias Albuquerque da Silveira, 41, não sabia muito sobre a profissão. Começou a pesquisar na internet, e descobriu que seu novo trabalho, pouco reconhecido no Brasil, era muito valorizado em outros países, como Canadá, Austrália e Estados Unidos.

Empolgado, Elias teve que esperar quatro anos para ser chamado pelo governo do Rio Grande do Sul para assumir o cargo. Desde então, o dia 31 de julho entrou no calendário de comemorações, como o Dia Mundial do Guarda-parques.

O “escritório” de Elias é o Parque Estadual Delta do Jacuí,  na região metropolitana de Porto Alegre. Como o parque é formada por banhados, boa parte do trabalho de fiscalização é feita de barco.  “As ameaças são várias. Como fica na Região Metropolitana a área vem sofrendo bastante pressão por invasão de moradias, caça, pesca… No entorno têm áreas de plantio e criadores de gado, então tem as quadrilhas de abigeato [roubo de gado], que usam os canais para roubar e fugir com o gado”.

Desde 2014 alguns guarda-parques têm porte de arma. Mas segundo Elias o equipamento é bastante obsoleto, e os riscos são constantes: “Tu nunca sabe o que vai encontrar”. Uma noite, Elias e seus colegas estavam retirando redes ilegais na época da piracema, quando foram ameaçados por pessoas que se diziam pescadores.

Operação de fiscalização no Parque Camaquã apreende arma, munições e redes de pesca. Foto: Ascom Sema.

Mas o perigo também está presente nas atividades cotidianas. Uma da funções dos guarda-parques, por exemplo, é o combate a incêndios nas Unidades de Conservação. Mas Elias não equipamentos de proteção adequados para esse tipo de missão. Ele e seus colegas também não contam com equipamentos de segurança para fazer resgate de fauna, tarefa para a qual muitas vezes são chamados pela população local. Para resgatar cobras peçonhentas, por exemplo, a equipe de Elias teve que improvisar uma espécie de gaiola, utilizando um balde e uma grade.

Isso sem falar nos salários, que vêm sendo pagos de forma parcelada aos servidores do Estado do Rio Grande do Sul desde 2015. Apesar das dificuldades, Elias acorda todos os dias motivado para trabalhar: “Eu vou todo dia pro trabalho renovado, porque todo dia tem uma coisa nova. A gente tenta fazer o melhor apesar de todas as dificuldades”.

Faltam incentivos para seguir na profissão

O guarda-parques é o profissional capacitado para atuar dentro das Unidades de Conservação (UCs). Entre suas atribuições, estão o controle de visitantes, fiscalização, educação ambiental e pesquisas de campo. Segundo Ministério do Meio Ambiente, o Brasil tem 2201 Unidades de Conservação. Mas o número de guarda-parques não passa de 500, segundo o Presidente da Associação de Guarda-parques do Rio Grande do Sul e da Associação Brasileira de Guarda-parques, Luciano Menezes.

Além do déficit de pessoal, os guarda-parques sofrem com a não-regulamentação da profissão. “Tu não tem incentivo para permanecer no cargo e muito menos tem como vislumbrar uma ascensão profissional, tendo em vista que além de não ser regulamentada no Brasil, não existe um plano de carreira atrativo para que os profissionais possam se qualificar e permanecer no cargo”.

Foto: Daniel de M. Fredriksson.

Um projeto de lei para regulamentar a profissão foi protocolado em 2013 na Câmara dos Deputados pelo deputado federal Marco Maia (PT-RS), e segue em tramitação. Além de determinar as atribuições do guarda-parques, o projeto cria as bases para um plano de carreira. Desse modo, o profissional poderia chegar ao posto de gestor da UC, como já acontece em outros países. Para alcançar este nível, ele teria que estar há mais dez anos na profissão e ter um curso superior: “A ideia é que ele não faça uma faculdade e daí saia do cargo para trabalhar em outra área”, explica Luciano.

Outro desafio é a falta de uma grade curricular norteadora. Cada entidade ou órgão público promove o próprio curso de capacitação ao contratar um guarda-parques. Luciano explica que muitas vezes o profissional chega a campo despreparado para as situações que vai encontrar: “Acaba demorando pra ele aprender a trabalhar, ele vai aprendendo ao longo da carreira”.

 

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  • Fernanda Wenzel

    Fernanda Wenzel é jornalista freelancer especializada em Amazônia e meio ambiente.

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