Reportagens

Degelo antártico pode dobrar subida do mar

Colapso de partes do manto de gelo do continente austral pode, sozinho, elevar o nível global dos oceanos em 1 metro até 2100 caso emissões não sejam cortadas.

Claudio Angelo ·
3 de abril de 2016 · 5 anos atrás
O monte Herschel. Foto: Wikipédia.
O monte Herschel. Foto: Wikipédia.

Quando projetou, em 2013, que a elevação do nível do mar neste século poderia chegar a 1 metro caso não cortássemos emissões de carbono, o IPCC, o painel do clima da ONU, fez uma ressalva importante: isso tudo aconteceria caso a Antártida não mudasse radicalmente seu padrão de degelo. O comitê de cientistas, porém, não conseguiu estimar quanto a mais o continente austral poderia contribuir para a subida dos oceanos. Um novo estudo acaba de fazer essa conta. E o resultado é assustador.

O colapso de porções do manto de gelo antártico, segundo a pesquisa, seria capaz de elevar o nível do mar em mais de 1 metro até 2100 e em mais de 15 metros até 2500. No pior cenário de emissões de gases-estufa, portanto, o mar subiria cerca de 2 metros no planeta até o fim do século, extinguindo nações insulares e reconfigurando algumas das maiores cidades do mundo, como Rio, Bancoc e Nova York.

Os americanos Robert DeConto, da Universidade de Massachusetts em Amherst, e David Pollard, da Universidade do Estado da Pensilvânia, produziram um modelo de computador que simula o esfacelamento de plataformas de gelo no litoral da Antártida, em especial na chamada Antártida Ocidental. Essas plataformas são imensas línguas de gelo flutuante, que funcionam como barragens ou “rolhas” e garantem que as geleiras a montante delas – as maiores do mundo – não lancem gelo em excesso no oceano, aumentando o nível do mar. A perda dessas plataformas teria o efeito do proverbial rompimento de um dique, despejando sobre o Oceano Austral gelo suficiente para aumentar o nível dos oceanos em vários metros. Só a Antártida Ocidental tem 5 metros de nível do mar equivalente armazenados em suas geleiras. A Antártida Oriental, mais fria, mais alta e menos sensível à mudança do clima, tem outros 55 metros acumulados.

Ocorre que vem sendo muito difícil prever em que velocidade a Antártida responderá ao aquecimento global. Sem muita certeza, o IPCC usa uma frase surpreendentemente vaga em seu Quinto Relatório de Avaliação: diz que a Antártida poderia contribuir “várias dezenas de centímetros” para o nível do mar.

Nos últimos dois ou três anos, alguns estudos vêm mostrando que as geleiras ocidentais já podem estar em colapso irreversível, devido à maior quantidade de água quente do mar atingindo as plataformas de gelo e derretendo-as de baixo para cima. Como a região antártica é em geral muito mais fria que o Ártico, o degelo superficial no verão (de cima para baixo, por assim dizer) é mínimo. Um estudo publicado em 2014 pelo glaciologista Ian Joughin, da Universidade de Washington, estimou que, na ausência de derretimento superficial, o colapso da geleira Thwaites, uma das quatro maiores da Antártida Ocidental, se completaria em 200 a 900 anos.

Pollard e DeConto, porém, olharam para o passado e viram que as contas não batem. Há 125 mil anos, no último período quente antes da Era do Gelo, o nível do mar subiu cerca de 10 metros no mundo – com uma contribuição substantiva da Antártida Ocidental. No Plioceno, há 3,5 milhões de anos, a elevação foi de dezenas de metros, talvez 20 metros ou mais. No interglacial, os níveis de CO2 na atmosfera jamais ultrapassaram 300 partes por milhão, e nós já estamos em 400, nível semelhante ao do Plioceno – a uma taxa anual de emissões que é a mais alta dos últimos 66 milhões de anos. Seria lógico esperar que algo fosse capaz de desestabilizar grandes porções da Antártida com essa concentração de carbono na atmosfera. Mas o quê?

Entra em cena o glaciologista Richard Alley, também da Pensilvânia. Há alguns anos, ele propôs que mesmo um degelo superficial pequeno em um ano excepcionalmente quente seria capaz de fraturar plataformas de gelo, graças à água acumulada em poças que escorre por fendas naturais. Isso acontece corriqueiramente na Groenlândia e ocorreu pelo menos uma vez na Antártida: em 2002, quando a plataforma de gelo Larsen B se rompeu em pouco mais de um mês. Em algumas geleiras, esse derretimento superficial pode criar instabilidades que levam toda a geleira a desmoronar.

Ao incluírem esse mecanismo num modelo de computador, DeConto e Pollard viram era possível replicar com mais fidelidade o aumento do nível do mar no Plioceno e no último período interglacial. O modelo foi, então, usado para projetar o degelo da Antártida até 2100 e até 2500 segundo três cenários de emissões do IPCC: o otimista, o mediano (considerado atualmente o mais provável) e o pessimista.

A dupla verificou que, no cenário médio, a Antártida contribui com 58 cm para o nível do mar em 2100, e 114 cm no cenário pessimista no mesmo ano. Em 2500, o aumento a contribuição chega a 17 metros.

“O derretimento superficial provavelmente pode acelerar o ritmo de retração do manto de gelo e de quebra de plataformas de gelo”, diz Ian Joughin. “Acho que ainda é preciso fazer muita coisa para criar parâmetros melhores no modelo nos processos que levam à quebra de plataformas de gelo. Então, embora haja potencial para causar a desintegração mais rápida da geleira Thwaites, eu acho que nossos resultados que indicam 200 a 900 anos ainda são válidos, embora [o novo estudo] provavelmente aponte para o prazo mais curto desse intervalo.”

O estudo foi publicado na quinta-feira (31) no periódico Nature.

*Este artigo foi publicado originalmente no site do Observatório do Clima, republicado em O Eco através de um acordo de conteúdo. logo-observatorio-clima

 

Leia Também

Hidrelétricas causarão extinções, diz estudo

Fatores ambientais causam 1/4 das mortes

Obama e Trudeau juram proteger clima, mas abrem porta a óleo no Ártico

 

 

  • Claudio Angelo

    Claudio Angelo

    Jornalista, coordenador de Comunicação do Observatório do Clima e autor de "A Espiral da Morte – como a humanidade alterou a ...

Leia também

Reportagens
11 de março de 2016

Obama e Trudeau juram proteger clima, mas abrem porta a óleo no Ártico

Líderes dos dois países prometeram implementar Acordo de Paris, ao mesmo tempo que deixaram aberto caminho para a exploração de petróleo no pólo norte.

Reportagens
15 de março de 2016

Fatores ambientais causam 1/4 das mortes

Relatório da OMS aponta que, em 2012, 23% dos óbitos no mundo estão relacionados ao meio ambiente. Mudanças climáticas são associadas indiretamente a boa parte das doenças.

Reportagens
17 de março de 2016

Hidrelétricas causarão extinções, diz estudo

Surto de construção de usinas planejadas na Amazônia vai eliminar habitats de espécies que não existem em nenhum outro lugar do planeta, alertam pesquisadores de EUA, Brasil e Reino Unido.

Mais de ((o))eco

Deixe uma resposta