Ararinhas-azuis retornam amanhã para a Caatinga

Carolina Lisboa
segunda-feira, 2 março 2020 21:54
Ararinhas azuis em cativeiro. Foto: Marcus Romero/Divulgação.

Descoberta há exatos 200 anos pelo naturalista alemão Johann Baptist Ritter von Spix, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) não é observada na natureza desde que o último exemplar, um macho, desapareceu em outubro de 2000. Passados 20 anos desde sua última aparição, a espécie finalmente poderá voltar a habitar as matas de Curaçá, no sertão da Bahia, como resultado de um esforço conjunto que vem sendo desenvolvido desde 1986, quando foi descoberta a última população selvagem de apenas três indivíduos. A formalização desta iniciativa ocorreu em 1990, quando o Ibama criou o Comitê Permanente para a Recuperação da Ararinha-azul. Desde então, entre muitas idas e vindas e contando com o esforço de inúmeras organizações, fundações internacionais e pessoas imensamente dedicadas, o projeto vem dando frutos. Um deles é a repatriação de 52 ararinhas-azuis provenientes da instituição alemã Association for the Conservation of Threatend Parrots (ACTP).

De acordo com Ugo Vercillo, analista ambiental da Coordenação de Ações Integradas para Conservação de Espécies do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), são 28 fêmeas e 24 machos com idades entre um e 26 anos. As aves chegarão num voo fretado nesta terça-feira (03), Dia Internacional da Vida Selvagem. A data comemorativa foi estipulada pela ONU desde 2013 para celebrar a fauna e a flora do planeta, assim como alertar para os perigos do tráfico de espécies selvagens animais. As 50 ararinhas desembarcarão no Aeroporto Senador Nilo Coelho em Petrolina (PE) e seguirão para o Centro de Reprodução e Reintrodução das Ararinhas-Azuis construído em Curaçá.

Segundo a Divisão de Comunicação Social (DCOM) do ICMBio, no aeroporto haverá uma coletiva de imprensa a ser realizada na Doca 1 do Terminal de cargas do Aeroporto de Petrolina, às 13h, com as presenças do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles; do presidente do ICMBio, Homero Cerqueira; e do presidente da ACTP, Martin Guth. As ararinhas seguirão do aeroporto para o Centro de Reprodução e Reintrodução das Ararinhas-Azuis, na Fazenda Concórdia, em Curaçá, cuja construção e o projeto de reintrodução foram custeados pela ONG ACTP. O procedimento de translocação será realizado sem nenhuma exposição, para respeitar as medidas de quarentena exigidas pela legislação. O Centro possui uma área coberta de 2.400 m² com toda uma estrutura especial para o manejo das ararinhas, prevendo espaços para atividades administrativas, alojamento para pesquisadores e dois grandes viveiros, um para pareamento (formação de casais para reprodução) e outro para as aves que estiverem mais preparadas para a soltura.

Recintos das ararinhas azuis no Centro de Reprodução e Reintrodução de Curaça sendo finalizado. Foto: ICMBio/Divulgação.

A primeira soltura está prevista para 2021. Ao longo deste período, os animais passarão por processo de adaptação e treinamento para viverem em vida livre. Contudo, antes da soltura, serão realizados testes com uma espécie-modelo de ave, a maracanã-verdadeira (Primolius maracana), que possui hábitos semelhantes aos das ararinhas-azuis. As ararinhas serão reintroduzidas no território das duas Unidades de Conservação criadas em junho de 2018, o Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul (com 29,2 mil hectares) e a Área de Proteção Ambiental da Ararinha-Azul (com 90,6 mil hectares), destinadas à reintrodução e proteção da espécie e conservação do bioma Caatinga.

A comunidade de Curaçá vem esperando com grande expectativa a chegada das ararinhas. Desde 2012, o Projeto Ararinha na Natureza está presente na região, onde estabeleceu uma sede para o desenvolvimento e acompanhamento das atividades. O Projeto visa à implementação de algumas ações do Plano de Ação Nacional para Conservação da Ararinha-azul, e atua em diferentes linhas temáticas como Políticas Públicas, Pesquisa Científica e Educação Ambiental, com o objetivo de criar as condições necessárias para proteger o hábitat natural da ave para que ela possa voltar à natureza. Além da mobilização nacional, a comunidade internacional também vem participando ativamente das ações para a conservação da espécie. De acordo com Edson Duarte, ex-Ministro do Meio Ambiente, o governo do Catar anunciou que assumirá o material escolar da rede pública de Curaçá por cinco anos.

A ararinha-azul é considerada uma das espécies de aves mais ameaçadas do mundo. Em 2000, foi classificada como Criticamente em Perigo (CR) possivelmente Extinta na Natureza (EW), restando apenas indivíduos em cativeiro. No Brasil, há um criadouro científico com fins conservacionistas especializado na reprodução, manejo e conservação da espécie, o Criadouro Fazenda Cachoeira, no interior de Minas Gerais. Em 2019, o criadouro conseguiu gerar 11 filhotes, um recorde de nascimentos em relação ao tamanho da população (11 ararinhas adultas, sendo 10 com condições de reprodução). Além da ACTP e da Fazenda Cachoeira, o Jurong Bird Park, de Cingapura também mantém alguns exemplares de ararinhas-azuis, cujas aves são expostas com fins educacionais e de captação de recursos.

Centro de Reprodução e Reintrodução das Ararinhas Azuis. Foto: ICMBio.

 

 

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