Apenas 40% das florestas do mundo têm alta integridade ecológica, revela estudo

Liz Kimbrough, para o Mongabay
domingo, 20 dezembro 2020 21:25
Imagem: captura de tela do Índice de Integridade da Paisagem Florestal que mostra a integridade florestal global.

Das florestas remanescentes do mundo, apenas 40% estão intactas, com alta integridade ecológica, de acordo com dados do recém-desenvolvido Forest Landscape Integrity Index (Índice de Integridade da Paisagem Florestal), a primeira ferramenta do tipo a medir o estado das florestas em escala global.

Um estudo publicado recentemente na revista Nature Communications descreve o Index, uma ferramenta de código aberto criada por 47 especialistas globais em conservação e florestas. O levantamento faz uso de algumas das tecnologias mais recentes em sensoriamento remoto, big data e computação em nuvem, permitindo aos cientistas medir a integridade da floresta e compartilhar os dados publicamente.

“O índice ajuda a preencher lacunas críticas em nossa compreensão do estado das florestas do mundo” aponta Crystal Davis, diretora da Global Forest Watch, que não esteve envolvida no estudo, em e-mail enviado ao Mongabay. “O índice ajudará os tomadores de decisão a identificar as florestas intactas mais críticas para a conservação, bem como aquelas que devem ser priorizadas para restauração e recuperação.”

De acordo com o mapeamento, 17,4 milhões de quilômetros quadrados de florestas remanescentes (40,5%) têm alta integridade ecológica, o grau de impacto humano foi calculado usando a pressão humana observada (infraestrutura, agricultura, perda de cobertura de árvores), pressão humana inferida com base na proximidade de pressões humanas conhecidas e mudanças na conectividade da floresta.

As florestas de alta integridade são encontradas principalmente no Canadá, Rússia, Amazônia, África Central e Nova Guiné. Das florestas de alta integridade restantes, apenas 27% estão atualmente em áreas protegidas designadas nacionalmente.

O Índice de Integridade da Paisagem Florestal para 2019 categorizado em três classes amplas e ilustrativas e mapeadas em cada domínio biogeográfico (A – G). O tamanho dos gráficos de pizza indica o tamanho relativo das florestas dentro de cada reino (A – G), e H mostra todas as florestas do mundo combinadas. Imagem: Grantham et al. Nature Communications (2020).

Identificar onde as florestas intactas permanecem possibilita um melhor planejamento e gestão. Por exemplo, a ferramenta mostrou grandes áreas de florestas de alta integridade remanescentes na bacia da África Central. Esta informação, de acordo com Emma Stokes, diretora regional da WCS para a África Central, será usada para exercícios detalhados de planejamento de alta resolução com o objetivo de proteger as florestas e os meios de subsistência.

“Essas florestas fornecem o sustento [para] milhões de pessoas e [são] o coração cultural e ancestral de muitos povos indígenas originários que vivem naquela área, pessoas que dependeram deles por dezenas de milhares de anos”, disse Stokes.

O mapa permite que os usuários vejam a diferença na integridade da floresta entre as fronteiras nacionais e entre as regiões. No leste da América do Norte, por exemplo, há um claro gradiente de florestas de alta integridade no Canadá a florestas de baixa integridade e mais degradadas cobrindo o sudeste dos Estados Unidos.

“É porque nosso sistema de mercado está falido”, disse Jamison Ervin, gerente da Nature for Development, UNDP, em uma coletiva de imprensa. “Não valorizamos as florestas de maneira adequada. Valorizamos a floresta por pés quadrados em vez do valor pelo que ela fornece para nossos sistemas de suporte de vida”.

Conservar as florestas é uma parte crítica para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) globais. O atual rascunho da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (CBD) pós-2020, Global Biodiversity Framework, propõe o uso de alvos de integridade do ecossistema, mas, de acordo com Hedley Grantham, diretor de planejamento de conservação da WCS e principal autor do estudo, discussões sobre como esses alvos serão medidos estão em andamento.

Metas de conservação amplas destinadas a proteger uma certa porcentagem das florestas do mundo, como as promessas de 30% até 2030, não são realmente suficientes, disse Tom Evans, líder de florestas e mudanças climáticas da WCS. Se as florestas protegidas são de baixa qualidade, elas têm menos valor, e ecossistemas mais intactos são mais resistentes às mudanças climáticas.

“As florestas são a chave para manter a segurança hídrica local, nacional e global … elas são essenciais para sustentar mais de um milhão de meios de subsistência baseados na floresta, especialmente para os povos indígenas, elas abrigam os últimos lugares do mundo nos melhores lugares para proteger a biodiversidade, e elas são profundamente importantes para as mudanças climáticas”, disse Ervin. “Simplificando, sem florestas, não podemos atingir as metas do Acordo de Paris. As florestas intactas são uma das nossas soluções baseadas na natureza mais baratas e eficazes para a redução de carbono com vários benefícios”.

Mapa: Gradiente de florestas de alta integridade no Canadá a florestas de baixa integridade e mais degradadas cobrindo o sudeste dos Estados Unidos. Reprodução: Forest Landscape Integrity Index.

Uma limitação dos dados é que eles se baseiam em um mapa de cobertura florestal padrão que inclui toda a vegetação lenhosa, incluindo florestas com auto-semeadura (naturais) e plantadas. As florestas plantadas geralmente mostram pontuações de integridade baixas no índice, observa Evans, mas como não são isoladas como uma categoria separada, os usuários precisariam encontrar outros conjuntos de dados se quisessem distinguir sistematicamente entre os tipos de floresta. Outra limitação é que algumas formas de degradação florestal, como a introdução de uma espécie não nativa, podem não ser registradas no índice em algumas circunstâncias. No entanto, Evans disse ao Mongabay, “a maior parte da superexploração seria registrada, porque é altamente correlacionada com a facilidade de acesso e os níveis de pressão humana nas proximidades, sobre os quais a métrica é construída”.

“[Nós] encorajamos as pessoas a melhorar isso em nível local, se os dados estiverem disponíveis”, disse Grantham. “Mas o que também mostra é que provavelmente subestimamos a perda de integridade da floresta. Nossos resultados provavelmente estão subestimando essa [perda] globalmente”.

*Matéria originalmente publicada no Mongabay. Tradução: Duda Menegassi

 

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