Reportagens

Entrevista: Leonardo Brandão, presidente da CEASA

Entenda como funciona o abastecimento de alimentos no estado do Rio de Janeiro e como a CEASA quer priorizar a agricultura familiar.

Fabíola Ortiz ·
28 de novembro de 2011 · 10 anos atrás
Leonardo Brandão, presidente da CEASA-RJ quer priorizar agricultura familair. Foto: Divulgação/Sérgio Jardim
Leonardo Brandão, presidente da CEASA-RJ quer priorizar agricultura familair. Foto: Divulgação/Sérgio Jardim
A CEASA-RJ começou a operar já na década de 70 e é um ponto que reúne pequenos e médios produtores, comerciantes individuais, organizações, cooperativas e associações de produtores. De acordo com o governo do estado, somando suas seis unidades, trata-se da segunda maior central de abastecimento da América Latina, que comercializa quase 2 milhões de toneladas de alimentos por ano. Ela é administrada, desde 2010, pela Secretaria de Desenvolvimento Regional, Abastecimento e Pesca.

A unidade principal em Irajá é um mercado atacadista que atende ao comércio de hortifrutigranjeiros destinados ao consumo da cidade do Rio de Janeiro, atingindo também os municípios vizinhos de São João de Meriti, Nilópolis, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Magé, Niterói e Itaguaí.

Dados do IBGE apontam para um aspecto importante: grande parte da produção de hortaliças no Brasil (60%) está concentrada em propriedades de agricultura familiar com menos de 10 hectares. Só no estado do Rio de Janeiro, a agricultura familiar corresponde a 80% da produção de hortifrúti. Só a Região Serrana é responsável por 90% da produção de folhosas e mais de 50% da produção de legumes do estado.

Em entrevista exclusiva a ((o))eco, o presidente da CEASA-RJ, Leonardo Brandão, de 35 anos, fala da prioridade da sua gestão dada à agricultura familiar e explica como funciona o abastecimento de alimentos do estado.

((o))eco – Qual é a estrutura da CEASA?

A sigla CEASA significa Central de Abastecimento. A unidade de Irajá é a principal, que abastece a Grande Rio. Mas temos unidades em São Gonçalo, Paty do Alferes, Nova Friburgo e, no noroeste fluminense, em São José de Ubá e Itaocara. A CEASA funciona 24 horas, recebendo alimentos do Brasil inteiro que são entregues na sua central e distribuídos por comerciantes atacadistas. Em seguida, o supermercado, o feirante, o dono da vendinha compram daqui e levam para o varejo.

Temos uma coleta de preços diária que usamos para formar o preço de referência. O preço não é regulado ou fixado, ele se autorregula pelo mercado. A CEASA faz um levantamento de quanto está sendo vendido no comércio e tira a média.

Na unidade de Irajá temos o comércio permanente, que são os lojistas que começam às 5h e vão até o final da tarde, e temos a parte não permanente, que é chamada “a Pedra”. São dois pavilhões e meio, o pavilhão 21 e parte do 11, para o produtor rural de médio e pequeno porte. Na “Pedra”, como não tem loja física, o pavilhão é dividido entre os produtores com marcas de 15 metros quadrados feitas no chão. Temos também o pavilhão 30 que é da agricultura familiar. Quem comercializa lá deve pertencer ao Pronaf (Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar).

O CEASA passou por um período de decadência. No início de 2011, quando assumimos, tinha cracolândia, tráfico de drogas e até exploração sexual infantil. Estava um caos, demos uma sacudida, um choque de ordem, além de fazer o asfaltamento e a lixeira, pois produzimos 90 toneladas de lixo por dia.

Na área conhecida como "Pedra" no CEASA-RJ, não existe loja física, o espaço dos produtores é marcado no chão. Foto: Fabíola Ortiz
Na área conhecida como "Pedra" no CEASA-RJ, não existe loja física, o espaço dos produtores é marcado no chão. Foto: Fabíola Ortiz
((o))eco – Grande parte da produção de hortaliças é feita por pequenos agricultores. A CEASA tem políticas voltadas para este setor?

A nossa prioridade hoje é a agricultura familiar. O pavilhão 30, que é o desses produtores, estava quase fechando e agora são nossos parceiros prioritários. O grande comerciante não precisa do apoio estatal. Ele se autogere, só que o produtor rural “pronafiano”, com a sua renda exclusiva do campo, não tem apoio nenhum e corresponde a 80% da produção do estado do Rio de Janeiro de hortifrúti.

A Região Serrana tem as folhosas. Já no norte, em Carapebus, a agricultura familiar produz aipim, batata doce, quiabo, uma diversidade grande para merenda escolar. Assim como a área de Paty do Alferes e José de Ubá produzem tomate e repolho. Entre itens importantes, não temos no estado do Rio de Janeiro apenas maçã e batata inglesa. No restante, temos uma produção muito diversificada e feita em pequenas propriedades.

Estamos desenvolvendo políticas de fomento à agricultura familiar no interior do estado. O pavilhão 30 vai deixar de ser só um lugar de venda para ser um espaço de treinamento e qualificação. Queremos que o agricultor familiar produza com qualificação, treinamento e venda produtos diferenciados, com alto valor agregado, como orgânicos. O pavilhão 30 da CEASA vai ser um balcão de negócios da agricultura familiar.

Tão importante quanto a técnica de produção é a técnica para fazer o escoamento. Estamos montando em Irajá e em São Gonçalo, centros de comercialização de agricultura familiar. A nossa ideia não é só trabalhar com o atacado, mas também com o varejo.

((o))eco – A CEASA ajuda ao fomento dos agricultores do Pronaf?

A Lei do Plano Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) determina que pelo menos 30% de toda a merenda escolar deve ser comprada da agricultura familiar nos estados e municípios. Mas existe o desconhecimento de parte a parte, do poder público e dos produtores sobre o procedimento para fazer essa compra acontecer. O agricultor familiar, para vender para o governo, tem que ter a Declaração de Aptidão ao Pronaf (DAF) e documentos para participar da chamada pública. Estamos fazendo um mapa dos agricultores familiares no estado do Rio. Hoje já existem 22 mil “dafianos” no estado. No pavilhão 30, trabalhamos com cooperativas de agricultores familiares de 72 municípios do estado que incluem sem-terra, quilombolas, assentados do INCRA, ribeirinhos e caiçaras.

((o))eco – A CEASA se preocupa em ter o controle da qualidade do alimento comercializado e sobre o uso de agrotóxico utilizado na produção?

Na região norte-noroeste do estado, a gente está começando a trabalhar em parceria com a indústria de agrotóxico com uma área de descarte seguro das embalagens de agrotóxico e insumos. Se a gente não pode combater a venda (de agrotóxico), pelo menos, que a gente garanta que o descarte desses produtos não seja jogado no rio.

Quanto aos alimentos comercializados na CESAS, hoje não temos estrutura para controlar a sua qualidade. Trabalhamos com o conceito da sustentabilidade, mas é um trabalho de conscientização e informação dos produtores, e não de fiscalização ou punição.

Pregamos o respeito às APAs (Área de Proteção Ambiental) e APPs (Área de Proteção Permanente). Muitas vezes, quando a CEASA recebe produto contaminado, foi a água que contaminou. Com rio poluído e sem mata ciliar, não há água até para irrigação.


  • Fabíola Ortiz

    Jornalista e historiadora. Nascida no Rio, cobre temas de desenvolvimento sustentável. Radicada na Alemanha.

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