A agroecologia quer criar raízes no semiárido

Celso Calheiros
terça-feira, 13 setembro 2011 21:23
Produção agroecológica mantém a vegetação natural, não utiliza produtos químicos e prega um princípio de trocas com o homem do campo. Foto: Vladia Lima
Produção agroecológica mantém a vegetação natural, não utiliza produtos químicos e prega um princípio de trocas com o homem do campo. Foto: Vladia Lima
O semiárido brasileiro tem condições de se tornar um grande produtor de alimentos saudáveis. A região ocupa uma área de 975 mil quilômetros quadrados com a participação de 10 estados. Antes o semiárido era considerado uma área improdutiva usada como base de políticas assistencialistas. Esse tempo ficou para trás: produtores de frutas e de vinhos comprovaram que a terra é fértil. Agora, uma rede de organizações não governamentais quer disseminar a agroecologia junto ao homem do campo, com foco nas comunidades de agricultores familiares.

À semelhança da agricultura orgânica, a agroecologia despreza a monocultura e rejeita produtos químicos. A diferença é que ela abraça as técnicas típicas da cultura de plantio local e as difunde promovendo encontros entre camponeses. A agroecologia é ideal para regiões em desenvolvimento. Quem diz isso é a ONU, na análise Agroecologia e o direito à comida (em inglês). Por abolir o uso de agrotóxicos, fertilizantes químicos e preconizar a troca de informações entre os camponeses, a agroecologia pode produzir com custos mais baixos e integrar sociedades que vivem afastadas, muitas vezes isoladas de contatos com centros urbanos maiores. O documento também afirma que, se suficientemente apoiada, a produção de alimentos feita com esses princípios pode dobrar em 10 anos e reduzir a pobreza rural.

No Brasil, essas possibilidades poderiam empacar exatamente no “suficientemente apoiada”. Entretanto, ao contrário, a perspectiva é mais otimista, pois o governo federal parece poder dar indiretamente um empurrão no assunto. A ferramenta é o plano nacional de assistência técnica e extensão rural (Ater), que tem como objetivo universalizar as técnicas agrícolas para núcleos de agricultura familiar.

O Ater faz parte das ações para o meio rural do Programa Brasil sem Miséria. Ele é agnóstico quanto à agroecologia. Não a defende ou condena. A pressão para adotar este modelo está sendo feita pelos militantes que atuam nas 750 ONGs vinculadas à Articulação pelo Semi-Árido (ASA), como explica o biólogo Alexandre Pires, coordenador do Centro Sabiá e uma das vozes atuantes na ASA. “Nós defendemos, junto ao Ministério do Desenvolvimento Agrário, que a agroecologia seja um padrão, incentivado inclusive no momento dos contratos de financiamento dos bancos oficiais”, conta. Até agora, para obter um financiamento, os agricultores devem apresentar projetos que preveem desmatamento, uso de agrotóxico e opção pela monocultura – o contrário do que prega a agroecologia.

No Sítio Feijão, em Bom Jardim, Pernambuco, um exemplo da produção agroecológica. O verde ganha espaços, há diversidade de culturas e a natureza responde da forma orgânica. Foto: Vládia Lima
No Sítio Feijão, em Bom Jardim, Pernambuco, um exemplo da produção agroecológica. O verde ganha espaços, há diversidade de culturas e a natureza responde da forma orgânica. Foto: Vládia Lima
A ASA é menos conhecida fora dos territórios onde trabalha, mas já é responsável por mudanças notáveis na paisagem do semiárido. A articulação está à frente do Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC), que já implantou mais de 351 mil estruturas para acúmulo de água da chuva – uma solução para matar a sede durante o período de estiagem e tem grande capilaridade no meio rural, de Minas Gerais ao Maranhão. Além das cisternas para consumo humano, a ASA tem outras tecnologias voltadas para a produção, como a barragem subterrânea, a cisterna calçadão e o canteiro econômico. Todas disseminadas entre pequenos agricultores.

Com esse cartão de visitas, boa parte das instituições civis está participando dos editais para oferta de Ater. Já ganharam vários, como o próprio Centro Sabiá, que atenderá 3.160 famílias. A cearense Cetra – Centro de Estudos do Trabalho e de Assessoria ao Trabalhador venceu licitação e será responsável pela Ater em 900 comunidades da região de Itapipoca. No segundo resultado da chamada pública de serviços de Ater, no Ministério do Desenvolvimento Agrário, ONGs que fazem parte da ASA estão lá disputando edital a edital com outras instituições, entre elas empresas estaduais especializadas, como a Emater. A Diaconia, por exemplo, levou o 1º lugar em um dos editais de Pernambuco e ficou em 3º lugar no Rio Grande do Norte. Essa ONG trabalha na implantação de cisternas do P1MC, colabora com a construção de banheiros fora das residências e contribui na cimentação da área interna de casas de gente simples.

Produtor retira carambolas do Sítio de Zé Caboclo, Engenho Conceição, em Sirinhaém, Pernambuco. A agricultura familiar abastece 70% das mesas brasileiras. Foto:Vládia Lima
Produtor retira carambolas do Sítio de Zé Caboclo, Engenho Conceição, em Sirinhaém, Pernambuco. A agricultura familiar abastece 70% das mesas brasileiras. Foto:Vládia Lima
O primeiro objetivo do Ater é suprir as necessidades de alimentação dos trabalhadores rurais. O passo seguinte é a comercialização do excedente da produção. Por essa razão, agricultores plantam culturas consumidas na região onde estão inseridos e depois se inscrevem no Plano de Aquisição de Alimentos (PAA) e no Programa de Alimentação Escolar (antiga merenda escolar).

O agrônomo Luciano Marçal, da ASPTA – Agricultura Familiar e Agroecologia, lembra que um dos princípios da agroecologia é a diversificação tanto das colheitas quanto dos mercados. A proximidade é o critério tanto para que os camponeses possam fazer vendas institucionais (à prefeitura, às instituições de acolhimento de idosos, às creches) ou para organizar pequenos mercadinhos e feiras públicas.

Cristina, da Cetra, aponta como um diferencial das feiras agroecológicas a possibilidade do consumidor conversar com o produtor do seu alimento. “Existe um valor nessa relação, na chance que o comprador tem de falar com o homem que trabalhou a terra”.

É jogo de ganha-ganha. Os homens do campo até então desassistidos recebem Ater, os consumidores têm a chance de adquirir alimentos mais saudáveis e o meio ambiente recebe menos fertilizantes, sementes transgênicas e herbicidas.

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.