A pegada de carbono das empresas

Lúcia Nascimento
quarta-feira, 30 junho 2010 19:31
O objetivo é promover a cultura permanente de formulação e publicação de inventários corporativos de emissão de gases de efeito estufa. Quando esse processo ganhar escala, as empresas vão se engajar em programas para reduzir as emissões. Acreditamos nisso. (Rachel Biderman, coordenadora adjunta do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV)

No futuro pretendemos viabilizar o cálculo de emissões médias por setor e a pegada ecológica de produtos, que poderão ter uma etiqueta dizendo quanto emitiram durante a produção, o transporte e o caminho até chegar às lojas (Roberto Strumpf, coordenador de projetos do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV)

Saiba mais! – Os dados referentes à emissão individual de cada empresa estão disponíveis no Registro Público de Emissões de Gases de Efeito Estufa: www.fgv.br/ces/registro

Se somarmos as emissões de gases de efeito estufa de apenas 35 empresas brasileiras de grande porte, em 2009, teremos o mesmo volume de gases gerados por um carro a gasolina, motor 1.0, que tivesse percorrido 630 bilhões de quilômetros. A distância equivale a 16 mil voltas em torno da Terra ou a 1.370 idas e voltas ao planeta Marte. Em outras palavras as emissões diretas desse grupo atingem quase 89 milhões de toneladas de carbono equivalente .

Não é pouco e, para saber como reduzir essas emissões, um primeiro passo é necessário: enumerar, dentro de cada empresa, quanto emite cada um de seus setores, para saber onde é possível cortar.

Em 2009, 35 empresas brasileiras tiveram esse trabalho e fizeram seus inventários de emissão de gases de efeito estufa para saber em que setores mais emitem os gases causadores do aquecimento global. A conclusão disso foi apresentada, em São Paulo, no último dia 22 de junho, em evento realizado pelo Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que incentivou as empresas a fazerem esse levantamento.

“Há dois anos esse projeto vem sendo trabalhado. A ideia de termos esse registro representa um passo significativo de algumas empresas brasileiras. Com isso, no futuro, o Brasil pode liderar como um país socialmente responsável”, afirma Maria Teresa Leme Fleury, diretora da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A iniciativa pretendeu incluir o máximo de empresas na tarefa de inventariar suas emissões e não teve como objetivo culpar as que mais poluem. A ideia é incentivar que cada uma delas – independente do quanto emita de gases do efeito estufa – procure métodos viáveis para reduzir suas emissões.

Segundo a ministra Isabela Teixeira, do Ministério do Meio Ambiente, a iniciativa é importante por “aproximar as estratégias de gestão ambiental privada e pública”. Afinal, as empresas que apresentaram seus inventários o fizeram voluntariamente, numa tentativa de adiantar o futuro – quando as ações para reduzir as emissões devem ser obrigatórias. “Queremos estreitar esses dois mundos. Não avançamos se não houver estreitamento entre ciência e política. Acredito que as empresas devem estar cada vez mais abertas ao diálogo, sem brigas por espaços”, diz Isabela.

Maiores emissões

Atualmente, as empresas que mais emitem gases do efeito estufa entre as que participaram do inventariado são as do setor de transformação, responsáveis por 89% das emissões, seguidas pelas empresas do setor de mineração, com 10%. Saneamento, energia, setor agrícola, serviços financeiros e serviços públicos somam o restante 1%. Dentro do setor de transformação, as indústrias que mais emitiram foram a petroquímica e de combustíveis. Em seguida estão a mineração de não-metálicos e a metalurgia.

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“Desde os anos 1990 São Paulo tem pautado a necessidade de avançarmos na agenda climática global com ações voluntárias. Hoje, Cetesb e Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) estão juntos com as empresas para tentar responder perguntas: ‘como cuidar das emissões das indústrias? Como buscar alternativas para melhorar a performance?’. Estamos passando do patamar do discurso para o patamar onde o desafio das mudanças se impõe”, afirma Fernando Rei, presidente da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb).

O caminho está apenas começando a ser trilhado. Afinal, as 35 empresas que se dispuseram a voluntariamente inventariar suas emissões representam apenas 4% do total de emissões do Brasil em 2005, com base no Inventário Nacional Preliminar divulgado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia em novembro passado – e 20% desse total se excluirmos as emissões provenientes da agricultura e das mudanças no uso de terras e florestas.

GHG Protocol

Como funcionam os créditos de carbono?

Em 1997, quando 189 países membros das Nações Unidas assinaram o Protocolo de Kyoto, ficou estabelecido que eles reduziriam suas emissões de gases estufa – mas a redução é apenas obrigatória e para os países desenvolvidos. Ou seja, o Brasil não tem metas a cumprir, apesar de estar na lista dos 20 países que mais poluem. O interessante é que quem não consegue cumprir as metas pode se valer dos chamados créditos de carbono. Assim, se uma empresa brasileira desenvolver um projeto para reduzir as emissões de suas indústrias, pode pedir a avaliação de órgãos internacionais e, caso seja aprovado, o projeto é elegível para gerar créditos. A cada tonelada de CO² que deixou de ser emitida, a empresa ganha um crédito, que pode ser negociado diretamente com as empresas estrangeiras ou por meio da bolsa de valores.

A metodologia que a FGV passou para as empresas se baseia na internacional GHG Protocol, originalmente desenvolvido pelo World Resources Institute (WRI) em parceria com o World Business Council for Sustainable Development (WBSCD), que é a metodologia mais usada internacionalmente para a realização de inventários. Ela é compatível com as normas ISO e as metodologias de quantificação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

As vantagens de se usar um método reconhecido serão conhecidas no futuro. “É natural que as empresas que já adotarem as metas de redução terão uma flexibilização muito maior quando esse compromisso se tornar obrigatório”, enfatiza Fernando. Para Marcelo Takaoka, presidente do Conselho Brasileiro de Construção Sustentável (CBCS), a seriedade da proposta também trará vantagens comerciais ao país. “Nós temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, a hidrelétrica. Se houver taxação internacional, nossos produtos não vão ser taxados nesse quesito”, afirma.

Por isso, segundo ele, por ser um assunto estratégico para as empresas, não deve ser tratado apenas pelas áreas socioambientais, mas por todas as diretorias. “Um exemplo que sempre cito cabe bem neste contexto. É o exemplo de uma empresa japonesa que contratou uma consultoria para melhorar seus produtos. A nota inicial era em torno de 3 e eles queriam chegar a pelo menos 7. Mas, mesmo depois de tentativas, a nota média não passava de 5. Nesse momento o consultor encontrou um grupo de mulheres dentro da empresa que faziam crochê juntas e, durante a conversa, trocavam experiências entre seus setores. Aí estava a resposta para melhorar as ações: integrar. Por isso eu digo: se colocarmos a discussão apenas nos setores sociais ou ambientais, a empresa não passará da nota 5”, explica Marcelo.

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