História de uma tragédia

Manoel Francisco Brito
terça-feira, 16 janeiro 2007 17:15

No dia 23 de dezembro, Elton Leme, um juiz carioca, e José Siqueira Filho, biólogo pernambucano, lançaram um livro que não fosse pelo aperto da data, tinha tudo para virar um presentão de natal. Chama-se Fragmentos da Mata Atlântica do Nordeste, biodiversidade, conservação e suas bromélias (Andrea Jacobson Editora, 419 páginas) e tem informações e imagens para encher os olhos e o cérebro do mais exigente cientista e ao mesmo tempo ensinar aos leigos, ou apenas iniciados no assunto, como o Brasil, em cinco séculos de história, produziu um desastre ambiental que, de quebra, condenou os nordestinos a conviverem com a seca.

O penúltimo capítulo dessa tragédia foi escrito não faz 40 anos pelo Pró-alcool e seus incentivos, que financiaram a substituição dos últimos remanescentes significativos de Mata Atlântica que restavam em Pernambuco e Alagoas pelas lavouras de cana. O último capítulo ainda não ganhou um ponto final. Mas, como mostra o livro, tem tudo para terminar muito mal. O destaque, evidente nos textos, nas imagens e no título, dado às bromélias é mais do que justificável. Para início de conversa, não fosse a paixão dos dois autores por elas, o trabalho não existiria. Ele é fruto de 10 anos de pesquisa sobre a ocorrência dessas plantas na região, que incluíram 237 expedições a remanescentes florestais da Mata Atlântica nordestina e muita discussão com especialistas no tema, alguns dos quais contribuíram em capítulos do livro. 

Bromélias, pela riqueza de espécies na Mata Atlântica e sua capacidade de manter intensas relações com uma gama variada de espécies da flora e fauna, são consideradas fundamentais para a manutenção da diversidade biológica. Servem portanto, lembram os autores-organizadores, como bioindicadores para avaliar a saúde da mata. Por isso mesmo, são um espelho do grau assustador de devastação na região. Das espécies conhecidas que ainda povoam os remanescentes da Mata Atlântica do Nordeste, pouco mais de 66% estão ameaçadas de extinção regional. Quarenta e uma espécies endêmicas correm o risco de extinção global.

A estatística é triste e, infelizmente, longe de estar restrita somente às bromélias. Hoje, de uma massa florestal que se estendia, acompanhando o litoral, do sul da Bahia até o Rio Grande do Norte, não sobrou muito. Ao Norte do rio São Francisco, dos mais de 5 milhões de hectares que a Mata Atlântica cobria originalmente, menos de 6% ainda estão tomados por formações florestais, distribuídos por fragmentos às vezes pequenos demais para sobreviverem isoladas. Em Pernambuco, 48% de mato que ainda está de pé encontra-se em fragmentos menores do que 10 hectares. Essa situação, óbvio, tem um impacto negativo sobre a fauna.

O capítulo V do livro, assinado por Leme, Siqueira e por um dos mais importantes cientistas brasileiros vivo, Adelmar Coimbra Filho, dá bem a medida do empobrecimento faunístico da região. A mastofauna praticamente sumiu. E nos fragmentos, sobrevivem populações não raro desprezíveis, caso de símios como o Guariba, que resistem em Pernambuco em apenas dois grupos totalizando 13 indivíduos. Dos três grupos conhecidos em Alagoas, sobrou apenas um. A velocidade de desaparecimento dessa fauna é impressionante. Coimbra Filho passou por Alagoas em 1970, quando chegava por lá a fronteira do Pro-álcool. A presença de fragmentos grandes de floresta garantia uma densidade de fauna bastante razoável.

Ilustre desconhecida

Coimbra Filho aproveitou para avaliar rapidamente três aves, a macuca, o mutum-do-nordeste e o ferreiro. O mutum desapareceu. As outras duas espécies se encontram no limiar da extinção. A situação de decadência da fauna e da flora da região pode sugerir que a biodiversidade que ainda resta da Mata Atlântica nordestina ficou pobre. Ledo engano, como ensina o livro. Apesar de tudo, ela ainda é razoavelmente rica. Mas continua muito pouco estudada, a ponto de não parecer ser tão difícil encontrar novas espécies em meio às matas que sobraram. Em 2001, por exemplo, foi descrita uma nova espécie de jararaca encontrada na Reserva Ecológica do Murici, em Alagoas. Leme e Siqueira, em seus dez anos de andanças atrás de bromélias na região, catalogaram 22 novas espécies da planta.

Esse desconhecimento só aumenta a importância de um livro como o que foi produzido pela dupla. E não apenas porque identifica novas espécies de bromélia e faz um diagnóstico amplo sobre a situação do que sobra da Mata Atlântica nordestina, dando um mapa para a sua conservação. Ele também mostra como, ao longo da história, o país optou por seguir uma linha de desenvolvimento econômico da região que estabeleceu práticas que fatalmente levaram a uma exaustão dos recursos naturais nordestinos e condenaram a região à pobreza.

Clovis Cavalcanti, da Conservação Internacional, explica que a Zona da Mata carrega um nome que virou uma cruel ironia. Ele refletiu a opulência vegetal que um dia caracterizou a estreita faixa de mata que acompanhava a costa nordestina. Esse solo fértil foi saqueado desde o século XVI para dar lugar a plantações de cana a ferro e fogo, com base em ações marcadas pela ineficiência e o uso intensivo de lenha como fonte de energia. E o mais grave é que parece que ainda não aprendemos a lição. Até os dias de hoje, continuamos a destruir o pouco que sobrou da Mata Atlântica no Nordeste utilizando os mesmos métodos de pressão sobre a natureza que eram empregados à época do Brasil colônia.

As queimadas seguem sendo usadas para limpar os campos de cana e a caça e extração irregular da madeira pressionam os remanescentes florestais. Mesmo os fragmentos que são deixados em paz, por falta de uma política de conservação consistente, sofrem com o efeito de borda, onda a mudança do contexto natural no perímetro acaba provocando um desequilíbrio cujo resultado é o empobrecimento da flora. Sua consequência mais grave do ponto de vista histórico, foi a criação do semi-árido nordestino. O desmatamento selvagem faz com que hoje predominem no Nordeste regimes fluviais que de perenes passaram a intermitentes ou torrenciais.

Os rios que fluíam pela Caatinga, permanentes há poucos séculos, secaram por conta do corte indiscriminado de árvores em suas nascentes nas serras. E não adianta apenas, como quer o governo, transpor as águas do São Francisco para resolver esse problema. Vários rios de sua bacia estão em situação semelhante aos que um dia corriam pela Caatinga e se não houver um plano de longo prazo de recuperação florestal, ela corre o grave risco de virar uma bacia , como a do Jaguaribe, no Ceará, que no passado, graças a presença significativa de mata, irrigava uma área que hoje ficou seca.

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