Um brinde de tequila aos morcegos!

Vandré Fonseca
quinta-feira, 5 abril 2018 22:07
Esse pequeno roedor (Aethomys namaquensis) carrega o pólen em seu focinho, quando se alimenta do néctar da Whiteheadia biflia, na África do Sul. O roedor visita as plantas à noite, se alimentando nas flores, sem consumi-las, e carregando o pólen de uma em uma. Crédito: Petra Wester.

Eles merecem a homenagem. Afinal, o principal ingrediente na produção da bebida vem de uma planta que depende de morcegos para ser polinizada, o agave-azul (Agave tequiliana). A ajuda na reprodução da planta é dada por duas espécies, Leptonycteris nivalis e Leptonycteris yerbabuenae, que são atraídas pelo cheiro de fruta podre exalado pelas flores longas e estreitas do cacto, que só se abrem à noite. Lamentavelmente, são duas espécies ameaçadas ou próximas de estarem ameaçadas de extinção, segundo a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

O algave-azul não é a única planta dependente da quiropterofilia (polinização feita pelos morcegos). Em todo o mundo, foram listadas 528 espécies da flora que dependem da visita noturna dos morcegos para trocar de material genético. A pitaia, conhecida com a fruta-dragão, e outras estão entre as que se servem dos morcegos. Inúmeros outros vertebrados são importantes polinizadores.

Ratos, esquilos, lêmures, pássaros e até lagartos fazem parte da lista. E conforme um estudo publicado esta semana como destaque de capa no jornal científico Frontiers in Ecology and the Environment, da Ecological Society of America, os polinizadores vertebrados têm relações mais estreitas com as plantas que visitam do que os insetos. E poucas vezes eles podem ser substituídos por outras espécies.

Esse lagarto de cauda azul (Phelsuma cepediana) é o único polinizador da Roussea simplex, um arbusto criticamente ameaçado de extinção, encontrado em Maurício, um arquipélago a 900 quilômetros de Madagascar. Uma espécie de formiga invasora compete com o lagarto pelo pólen da flor e, agressivas perseguem os répteis, prejudicando a produção de sementes. Crédito: Dennis Hansen.

Fabrizia Ratto, da Universidade de Southampton, Reino Unido, e colegas revisaram 126 experimentos, em que vertebrados eram impedidos de se aproximar das plantas que eles polinizam. Os pesquisadores concluíram que o crescimento de frutas e sementes foi reduzido em 63 por cento, quando os vertebrados não faziam a polinização, mesmo que as plantas pudessem ser visitadas por insetos.

Nas regiões tropicais, o papel dos vertebrados na polinização parece ser ainda mais importante. A redução no crescimento de frutas e sementes foi de 71 por cento, segundo os autores. De acordo com eles, esses números podem refletir o alto grau de especialização dos polinizadores vertebrados.

O estudo reforçou a importância dos morcegos na reprodução de plantas. Quando eles eram impedidos de fazer o trabalho, a produção de frutos diminuía 83 por cento.

Mamíferos que andam pelo chão ou em árvores também podem ser polinizadores. Na verdade, são responsáveis por contribuir para a reprodução de pelo menos 85 espécies de plantas em todo o mundo. O lêmure-preto-e-branco (Varecia variegata)  é um exemplo. Ele é capaz de abrir as flores da árvore-do-viajante (Ravenala madagascariensis). Após se alimentar de néctar, ele sai carregando o pólen em seu pelo.

As aves se destacam entre os vertebrados polinizadores. São mais de 920 espécies, que em algumas regiões são capazes de polinizar 5 por cento do total das plantas encontradas. Em ilhas, a importância é ainda maior, as plantas polinizadas pelas aves chegam a 10 por cento do total. Aliás, em ilhas são mais comuns também lagartos polinizadores.

Os autores do estudo destacam que, assim como os pássaros, os mamíferos polinizadores estão sob pressão devido a crescentes alterações de habitat, pela agricultura, fogo, caça ou espécies invasoras. As plantas que dependem desses vertebrados, também estão em risco.

 

Saiba Mais
Artigo: Fabrizia Ratto et al (2018) Global importance of vertebrate pollinators for plant reproductive success: a meta-analysis. Frontiers in Ecology and the Environment. 

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