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Treze peixes-bois resgatados e reabilitados são devolvidos aos rios da Amazônia

Programada para ocorrer em 2020, a soltura teve atraso por causa da pandemia da Covid-19. É o maior número de devolvidos na natureza feito pelo Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia

Bruna Martins ·
29 de julho de 2021

Treze peixes-bois resgatados e reabilitados pelo Projeto Mamíferos Aquáticos da Amazônia foram devolvidos na última semana, do dia 20 a 23 de julho, aos rios da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, a 223 km de Manaus. Essa foi a maior soltura já realizada pelo projeto e a primeira no Amazonas desde o início da pandemia.

O projeto tem patrocínio da Petrobras e é executado pela Associação Amigos do Peixe-Boi (AMPA) em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA). O Programa de Reintrodução de Peixes-Bois da Amazônia foi criado em 2008 e faz a reabilitação dos animais, em sua maioria filhotes órfãos, que são resgatados graças à parceria entre o AMPA e a Polícia Ambiental do Estado do Amazonas, permitindo o crescimento seguro, com mudança de tanques até que estejam aptos para serem transferidos para o semicativeiro. Esta etapa é importante para que os animais consigam, de forma gradual, adaptar-se às condições naturais dos rios. O semicativeiro fica na Fazenda Seringal, em Manacapuru (70,66 km de Manaus), e lá eles passam a se alimentar sozinhos como se estivessem na natureza e ficam no local por pelo menos 1 ano. A partir desse período é a fase de reintrodução do mamífero à natureza. 

Depois dos 13 peixes-bois terem passado por esse processo, a soltura foi planejada para abril de 2020, mas por conta das restrições de circulação e fechamento das unidades de conservação devido às medidas de segurança contra a Covid-19, o andamento da ação foi adiada. Além disso, no primeiro semestre de 2021, no período de cheia da Bacia Amazônica, o Amazonas sofreu a maior enchente de sua história, fato que levou a inundação do lago do semicativeiro e, por conta disso, os animais foram retirados do lago e levados de volta aos tanques do INPA, que também adiou a soltura.

Mas, chegando junho, a Bacia Amazônica passa pelo período de vazante que vai até novembro, que é quando o nível dos rios passa a diminuir, permitindo o avanço da soltura dos mamíferos. Com a redução do número de casos de Covid-19 no estado do Amazonas, devido o avanço da vacinação, os integrantes do Projeto iniciaram os preparativos para a soltura, que consistem em realizar os exames necessários (de sangue, medição e pesagem) para certificar se os animais estavam em condições físicas e de saúde para voltar aos rios.

Cinco dos treze peixes-bois selecionados para a soltura, com idades entre quatro e catorze anos, receberam cintos transmissores, que é um equipamento de frequência VHF acoplado no pedúnculo caudal (parte anterior à cauda do animal), para que seja possível a avaliação por parte dos pesquisadores sobre o sucesso da adaptação às condições do ambiente natural.

“Mesmo com atividades de campo interrompidas e as restrições impostas pela pandemia, o número de animais resgatados e levados ao INPA aumentou em 2020, com a chegada de mais de dez peixes-bois vivos em um tempo muito curto. Recuperar a condição física dos animais, a enchente e as restrições da Covid fizeram dessa soltura algo muito especial. Diferente de outras vezes, nessa soltura não tivemos interação com as comunidades ao longo da viagem; mas esse é um cuidado fundamental para a saúde de todos”, avalia Dra. Vera Silva, coordenadora do projeto.

Além dos 13 peixes-bois soltos na semana passada, atualmente cerca de 15 animais estão em processo de reabilitação pelo Projeto visando a futura reintrodução. Desde 2016, 44 peixes-bois órfãos reabilitados foram reintroduzidos com sucesso na RDS-Piagaçu-Purus. 

  • Bruna Martins

    Jornalista em formação pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

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