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Shell avisou sobre aquecimento em 1991

Filme redescoberto por jornalistas holandeses mostra que empresa já tratava risco climático como “amplo consenso científico” há 25 anos, mas investiu em combustíveis mais sujos mesmo assim

Observatório do Clima ·
1 de março de 2017 · 5 anos atrás
Protesto do Greenpeace na Suécia contra as ambições árticas da Shell. Foto: Greenpeace.
Protesto do Greenpeace na Suécia contra as ambições árticas da Shell. Foto: Greenpeace.

As mudanças climáticas globais estão acontecendo “a uma velocidade mais rápida do que em qualquer momento desde a Era do Gelo”, aumentarão “a frequência de padrões de tempo anormal” e tornarão ilhas tropicais “inabitáveis”. As conclusões não são de cientistas, mas de uma empresa de petróleo – a anglo-holandesa Shell. E não são de hoje: elas datam de 1991, quando a multinacional produziu um minidocumentário sobre o assunto. Título: Clima de Preocupação.

O filme foi redescoberto pelo site jornalístico holandês The Correspondent e compartilhado com o jornal britânico The Guardian, que publicou reportagem a respeito na última terça-feira (28).

O documentário mostra que a Shell não tinha dúvidas sobre a ameaça da mudança do clima 25 anos atrás. Ele fala, inclusive, que embora houvesse incertezas sobre a dimensão dos impactos, os cenários de aquecimento que descrevia estavam embasados “por um amplo consenso de cientistas” – referência ao primeiro relatório do IPCC, o painel do clima da ONU, publicado em 1990.

Mesmo com o conhecimento do problema, a Shell foi uma das empresas que mais se esforçaram para minar a meta de evitar as mudanças climáticas perigosas neste quarto de século: até 1998, participou de uma organização de empresas que fez lobby para disseminar o negacionismo climático; é uma das principais investidoras no petróleo ultrapesado (e ultrasujo) das areias betuminosas canadenses; e, até 2016, liderava os investimentos em busca de petróleo no Ártico.

“Vejo como até hoje eles defendem teimosamente o uso de gás natural durante as próximas várias décadas, apesar de evidências claras de que os combustíveis fósseis precisam ser eliminados completamente”, disse ao Guardian Jeremy Leggett, o geólogo que cunhou a expressão “bolha de carbono” para se referir aos combustíveis fósseis que terão de ser deixados no subsolo se a humanidade quiser cumprir as metas do Acordo de Paris. “Eu sinceramente acho que essa empresa é culpada de uma forma moderna de crime contra a humanidade.”

A Shell não é a primeira companhia a concluir uma coisa sobre as mudanças do clima e agir no sentido oposto. Muito mais grave foi o caso da americana Exxon, que desde a década de 1970 sabia dos riscos representados pelas mudanças do clima – segundo conclusões dos próprios cientistas da empresa. Mesmo assim, a petroleira foi a maior financiadora de ataques espúrios à ciência e aos cientistas do clima durante décadas. Hoje ela é alvo de inquérito na Justiça dos EUA por ter enganado o público.

O ex-presidente da Exxon, Rex Tillerson, é hoje secretário de Estado dos EUA, responsável pelas posições do país nas negociações internacionais de clima.

 

Republicado do Observatório do Clima através de parceria de conteúdo. logo-observatorio-clima

 

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