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Peixes de corais sofrem de “síndrome de Dory”

Estudo revela o efeito nefasto de pequenas quantidades de petróleo no sistema nervoso de espécies que vivem em corais – e da ameaça a todo o ecossistema

Observatório do Clima ·
17 de julho de 2017 · 4 anos atrás
Os peixes são essenciais para a manutenção da vida nos corais. Derivados do petróleo afetam o sistema nervoso de algumas espécies. Foto: Ryan McMinds/Flickr.
Os peixes são essenciais para a manutenção da vida nos corais. Derivados do petróleo afetam o sistema nervoso de algumas espécies. Foto: Ryan McMinds/Flickr.

Dory é aquela peixinha de “Procurando Nemo” que perde a memória a todo momento. Algo parecido está acontecendo com seis espécies de peixes que vivem na Grande Barreira de Corais, no Mar Vermelho, na Ásia e no Caribe. Uma pequena concentração de derivados de hidrocarbonetos – algo como um par de gotas em uma piscina – foi o bastante para que algumas espécies de peixes típicas de corais marinhos tivessem o desenvolvimento do sistema nervoso comprometido, passando a apresentar comportamento que contrariam o instinto de sobrevivência, como a dispersão dos cardumes, o deslocamento para mares abertos e a perda da capacidade de reconhecer predadores, como revela uma pesquisa divulgada hoje pela revista científica Nature Ecology & Evolution.

De acordo com o pesquisador australiano Jodie Rummer, da James Cook University, co-autor do estudo, a poluição nos arredores dos corais, especialmente por petróleo, tem de ser rapidamente interrompida, sob o risco de colocar os peixes sob forte ameaça e, consequentemente, todo o ecossistema de corais. “Os peixes de corais formam a base da cadeia alimentar de predadores maiores. Em menor quantidade, reduzem a capacidade de o ecossistema resistir e se recuperar a perturbações ambientais cada vez mais comuns, como a pesca predatória e o aquecimento dos oceanos”, afirmou.

“O petróleo é altamente tóxico ao ambiente marinho e prejudica diretamente os quatro primeiros estágios da vida dos peixes, o momento mais crítico de luta pela sobrevivência”, disse Rummer. Em outras palavras, significa que os peixes que nascem em águas com alguma concentração de petróleo são mais ‘abobados’, segundo Rummer, e tem uma chance menor se superar o período pós-eclosão, que inclui o período larval; a fase em que a espécie busca encontrar seu habitat adequado; o período em que aprendem a identificar e evitar predadores.

Apenas nos últimos 35 anos o planeta perdeu cerca de 19% dos recifes de coral do mundo e mais 15% devem sumir nas próximas duas décadas. A perda dos corais também ameaça a sobrevivência de 400 milhões de pessoas que dependem diretamente dos recifes para sobreviver: o ecossistema fornece cerca de US$ 30 trilhões em receitas anuais que resultam da pesca e do turismo.

As pequenas concentrações de óleo usadas no estudo já são comuns em muitas regiões costeiras do planeta onde há perfurações para a exploração de petróleo. Mais de seis milhões de toneladas de derivados do petróleo já foram lançados no oceano este ano, resultado de processos industriais e de transporte e mais de 340 grandes acidentes com derramamento de petróleo aconteceram nos últimos 40 anos, o que significa cerca de 3.900 milhões de toneladas de petróleo bruto derramados no mar.  Mesmo assim, muitos governos ainda estimulam o aumento da atividade industrial nas proximidades dos habitats de recifes, vide o exemplo dos corais da Amazônia.

No extremo norte do Brasil, no encontro do Rio Amazonas com o mar, um recife de 9,5 mil quilômetros quadrados de formações, que incluem esponjas gigantes com mais de 2 metros de comprimento e algas calcárias, estão sob forte ameaça. Justamente nesta Bacia está sendo preparada uma base para a exploração de petróleo, já com os processos de licenciamento ambiental em andamento.

 

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Comentários 2

  1. AvatarAnne Elli diz:

    Prezados, sei que não foi proposital, mas não se trata do pesquisador, mas da pesquisadora. A dra. Jodie é mulher.
    Como "naturalmente" a maioria entende que pesquisadores ou doutores são homens, nem se dão ao trabalho de conferir a informação.
    Além disso, fiquei muito curiosa como se chegou a conclusão que peixes, no estágio inicial, em locais mais poluídos são mais "abobados".
    Me parece tão inverosímel que seja possível medir isso que, realmente, só tendo acesso aos dados da pesquisa. Sem eles, o release carece de credibilidade. Um mínimo de dados deveriam ser apresentados antes de se lançar a uma conclusão tão enfática.


    1. Avatarjubiscreidison diz:

      Parece que temos uma militante aqui