Pangolins alimentam trabalhadores asiáticos na África

Vandré Fonseca
segunda-feira, 19 fevereiro 2018 21:08
O Pandolim tem a carne considerada iguaria. Foto: David Brossard/Flickr.

O consumo de imigrantes asiáticos, que chegam a África para trabalhar em grandes projetos de exploração de madeira, petróleo ou agropecuária, tem elevado a quantidade e o preço da carne de pangolins vendidos no Gabão, na costa atlântica da África, segundo aponta um estudo realizado por pesquisadores britânicos e gaboneses.

No artigo publicado no sábado (17), Dia Mundial do Pangolim, no Jornal Africano de Ecologia, os responsáveis pelo estudo avaliaram valores e quantidade de pangolins comercializados em comunidades que se alimentam de pangolins e abastecem mercados de cidades e da capital do país, Libreville. E segundo os pesquisadores, pessoas com algum tipo de ligação com a Ásia foram mais propensas a escolher carne de pangolim em detrimento de outros animais.

Os pangolins são mamíferos encontrados na África e na Ásia, que se parecem com o nosso tatu. Eles também se enrolam quando surge algum perigo, mas no lugar da couraça, têm o corpo inteiro coberto por escamas de queratina. São animais de hábitos prioritariamente noturnos, que comem formigas ou cupins. As oito espécies de pangolins estão entre vulneráveis ou criticamente ameaçadas, devido à grande procura de sua carne e suas escamas, especialmente na Ásia.

No Gabão, são encontradas três das quatro espécies africanas do pangolim. Embora o pangolim-gigante (Smutsia gigantea) goze de proteção especial da lei no país, o seu primo pangolim-arbóreo (Phataginus tricuspis) pode ser caçado e comido, desde que se respeitem algumas leis que disciplinam a captura. E são animais muito procurados nos mercados.

Foto: Bart Wursten/IUCN.19

A avaliação divulgada pelos pesquisadores indica que a carne de pangolim teve, a partir de 2002, um aumento bem acima da inflação e de outras espécies usadas na alimentação por populações africanas. Na capital do país, o preço de pangolins-gigantes aumentou 211%, enquanto a inflação foi de apenas 4,6%, segundo os pesquisadores. O pangolim-arborícola também teve aumento significante de preço, 73%. A análise indica também que a elevação de preço acompanha a procura maior pelos pangolins, em comparação com a carne de outros animais silvestres.

Os autores do estudo afirmam que não foram encontradas relações entre o mercado doméstico e o tráfico internacional. Segundo os pesquisadores, os dados indicam que o tráfico internacional deve ser abastecido pelos mesmos caçadores que servem ao mercado ilegal de marfim, pois a rotas internacionais e os mercados são os mesmos.

“Tal como no comércio de marfim, a aplicação da lei e os esforços internacionais para salvar pangolins precisam ser alvo de caçadores criminais especializados, em vez de pressionar a comunidade de subsistência”, afirmou a pesquisadora da Universidade de Stirling, Escócia, Katharine Abernethy. “Recomendamos ajustar políticas e ações de conservação para impedir o desenvolvimento do comércio ilegal dentro e a partir do Gabão”, completou.

As espécies africanas de pangolins viraram alvo de traficantes principalmente após o declínio das populações asiáticas. Segundo dados apresentados no artigo, a apreensão de carne da pangolim africano aumentou de 4 quilos em 2008 para 312 quilos em 2012. As apreensões de escamas também indicam aumento do tráfico internacional.

Na República dos Camarões, 4 toneladas de escamas foram apreendidas em 2016. No ano passado, foram 5,4 toneladas, o que representa entre 10 mil e 20 mil animais abatidos. Para combater o tráfico internacional, a Convenção sobre Comércio Internacional das Espécies da Flora e Fauna Selvagens em Perigo de Extinção (Cites) baniu o comércio de espécies africanas de pangolim em 2016.

 

 

Saiba Mais

Artigo: The emergence of a commercial trade in pangolins from Gabon.

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