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Necessidade de mais espaço no semiárido é ameaça às onças no Paraguai

Estudo indica que onças-pintadas precisam de grandes áreas para sobreviver nas áreas mais secas do Chaco Paraguai. E isso pode provocar mais conflitos devido ao avanço da pecuária na região

Vandré Fonseca ·
22 de março de 2018 · 4 anos atrás
Onça-pintada (Panthera onca). Foto: Bart van Dorp/Flickr.

As onças-pintadas que vivem nas regiões mais secas do Chaco Paraguaio precisam de áreas mais extensas dos que suas semelhantes de outras regiões. Isso ocorre devido à baixa produtividade do ecossistema de clima semiárido e tem uma consequência ruim para o bicho: por precisar se locomover mais e de mais terras, aumenta também a possibilidade de conflitos com fazendeiros na região.

Uma estimativa sobre a área de vida das onças na parte ocidental do Paraguai, publicada esta semana no jornal científico Mammalia, indica que nas região mais seca do ecossistema as onças-pintadas usam áreas com mais de 900 quilômetros quadrados. Essa extensão só se compara com onças do Cerrado Brasileiro, que estudos científicos registraram animais usando áreas com mais de 1.000 quilômetros quadrados.

Para realizar o estudo, foram capturadas e marcadas com colares 35 onças-pintadas tanto nas áreas mais secas do Chaco Paraguaio quanto naquelas que passam por cheias sazonais e no Pantanal, entre junho de 2002 e junho de 2014.

No estudo, foram analisados dados obtidos em três ambientes diferentes do país: o Chaco Seco, de clima seminário; o Chaco Úmido, que sofre alagações sazonais; e Pantanal (5% do total dessa paisagem está em território paraguaio). Nos dois ambientes mais úmidos, os dados obtidos pelos pesquisadores são semelhantes aos registrados do lado brasileiro do Pantanal, onde as onças podem ocupar algumas dezenas de quilômetros quadrados.

A pesquisa indicou também que na região semiárida do país as onças se deslocam em média 15 quilômetros por dia. Os pesquisadores acreditam que essa necessidade de áreas maiores seja resultado da baixa produtividade do ambiente semiárido, obrigando as onças a se deslocarem mais em busca de alimentos.

“Mais da metade dos animais acompanhados pelo estudo foram comprovadamente abatidos por seres humanos. Para os autores do estudo, essa é uma evidência de que as onças-pintadas estão sendo afetadas pelas atividades humanas e sujeitas às retaliações de fazendeiros, devido a ataques ao gado”.

Mais da metade dos animais acompanhados pelo estudo foram comprovadamente abatidos por seres humanos. Para os autores do estudo, essa é uma evidência de que as onças-pintadas estão sendo afetadas pelas atividades humanas e sujeitas às retaliações de fazendeiros, devido a ataques ao gado.

A possibilidade dos constantes ataques de fazendeiros contribuírem para as onças se deslocarem mais na região também é levantada pelos pesquisadores. O Chaco é o segundo maior ecossistema florestal da América do Sul, com 1,28 mil quilômetros quadrados, se estendendo desde o Rio Paraguai (inclusive território brasileiro) até o pé da Cordilheira dos Andes.

O Paraguai, segundo os pesquisadores, é o sexto maior produtor mundial de carne, uma posição alcançada com o um custo alto para as florestas. Um estudo da Universidade de Maryland indicou que o país teve a maior taxa de desmatamento do mundo em 2012, com quase 540 mil hectares de florestas derrubadas. E a pecuária avança sobre o Chaco.

A perda de habitat e da disponibilidade de presas, devido a atividades humanas, tem sido a grande ameaça às onças pintadas, que já ocupou áreas do Sudoeste dos Estados Unidos à Argentina Central. Hoje, fora da Amazônia, ocupa apenas 20% do território original.

De acordo com os pesquisadores, menos da metade da área do Paraguai é protegida atualmente e os esforços para a conservação da onça-pintada precisam levar em conta as extensões de terra que ela precisa para sobreviver. Para eles, é importante incluir as propriedades de fazendeiros nos planos e reduzir os conflitos com criadores de gado, para garantir um futuro para a onça na região.

 

 

Saiba Mais

Artigo: Space use and movement of jaguar (Panthera onca) in western Paraguay. 

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Comentários 3

  1. Wallace diz:

    A pecuária é uma desgraça para a Natureza mesmo. Pior que muitas fazendas no país vizinho possuem como donos, os mesmos malditos pecuaristas brasileiros que odeiam floresta em pe!


  2. Everton Miranda diz:

    Mais um estudo concluindo que a produção de carne é a maior ameaça ao predadores de topo, assim como o principal motor do desmatamento. Muda o lugar, mas a tragédia é infelizmente a mesma.


  3. paulo diz:

    Detalhe " mais da metade, levaram chumbo "nos olhos". O que não é Humano que se lasque.