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Morte de Jabuti acende alerta para problema de cães no Parque Nacional da Tijuca

Godzilla, maior jabuti reintroduzido pelo Projeto Refauna no parque carioca, foi atacado por cachorros no início do mês e chegou a passar por cirurgia para reconstrução de casco, mas não resistiu

Duda Menegassi ·
29 de abril de 2021

O nome dele já denunciava o seu porte, Godzilla, o maior jabuti reintroduzido até o momento pelo Projeto Refauna dentro do Parque Nacional da Tijuca. Junto dos seus imponentes 26 quilos, Godzilla trazia um temperamento de macho territorialista e brigão. O jeito brabo, entretanto, não assustou um grupo de cachorros que atacou o jabuti no início deste mês de abril. Além das mordidas, os cães empurraram Godzilla ribanceira abaixo até se chocar com o asfalto de uma das estradas que serpenteiam em meio à Floresta da Tijuca, próximo à Capela Mayrink. Na estrada, com o casco destruído e bem debilitado, foi encontrado, resgatado e levado ao Centro de Reabilitação de Animais Silvestres da Universidade Estácio de Sá. Godzilla passou por cirurgia e procedimentos de reconstrução do casco, mas mesmo com toda a força do maior jabuti da Tijuca, não resistiu e faleceu dois dias depois (05/04).

“Alguns visitantes escutaram barulhos de cachorro latindo e pouco tempo depois escutaram um estrondo forte, foram ver o que estava acontecendo e viram o jabuti na estrada, perto da Capela Mayrink, com o casco todo quebrado. Ele ainda estava ativo, mas sem se mexer. Ele ficou todo quebrado com a queda, que foi de uns 15, 20 metros de altura. Depois disso, passou por cirurgia e uma série de intervenções, para recolocar e soldar basicamente o casco, que estava todo fragmentado. O bicho respondeu bem nas primeiras 24 horas, mas depois começou a não reagir tão bem e foi a óbito dois dias depois da cirurgia”, conta Marcelo Rheingantz, biólogo do Projeto Refauna, iniciativa que realiza e monitora a reintrodução de espécies nativas, como o jabuti, no Parque Nacional da Tijuca.

À direita, o Godzilla, o maior jabuti reintroduzido no Parque Nacional da Tijuca. Foto: Marcelo Rheingantz

A morte de Godzilla acende um alerta sobre um problema que não é novo: a presença de animais domésticos dentro de unidades de conservação. É proibido entrar com cachorros e gatos no Parque Nacional da Tijuca, mesmo assim, as armadilhas fotográficas dos pesquisadores flagram cada vez mais frequentemente cães no meio da floresta.

“A questão dos cachorros é complexa. Alguns vivem dentro da floresta, formam matilhas e têm comportamento de animais selvagens, sobrevivem dentro da floresta. Mas a maior parte, e houve um estudo feito no Parque Nacional da Tijuca pela analista ambiental Katyucha [Von Kossel] que mostrou isso, a maior parte dos cães registrados lá dentro por armadilha fotográfica eram animais com coleira. Ou seja, são animais que têm dono e que muitas vezes passam o dia no parque e depois voltam para o dono. E isso tem uma consequência a longo prazo, porque eles predam alguns animais e podem ser vetores de doenças, tanto para os animais selvagens que estão no parque, quanto dos animais selvagens para as pessoas”, explica o biólogo do Projeto Refauna.

A pesquisa citada por Marcelo, feita pela bióloga e analista ambiental do parque, foi publicada em 2017, e analisa a ocorrência, tamanho populacional e atividade do cão doméstico (Canis lupus familiaris) no Parque Nacional da Tijuca. No estudo, foram feitos mais de 18.200 registros ao longo de 142 dias através de armadilhas fotográficas espalhadas pela área protegida. Dentre as 13 espécies de mamíferos documentadas, os cães foram a 8ª espécie mais vista, com uma população estimada em 29 indivíduos. O comportamento diurno, errante, boa condição física, e até mesmo a presença de coleiras, indica que estes animais possuem donos, mas são criados soltos e vêm “passear” na floresta.

“Esta questão dos animais domésticos em unidades de conservação é bem complexa e está se agravando, porque cada vez a gente registra mais cachorros nas fotos das armadilhas fotográficas”, comenta Marcelo ao ((o))eco.

No total, o Projeto Refauna já reintroduziu 40 jabutis no Parque Nacional da Tijuca. De acordo com o biólogo, a expectativa é soltar outros 15 a 20 até o final deste ano. Além dos jabutis, o projeto também já devolveu ao remanescente de Mata Atlântica do parque outros dois habitantes: as cutias e os bugios.

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  • Duda Menegassi

    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação e montanhismo. Escreve para ((o))eco desde 2012. Autora do livr...

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Comentários 7

  1. Margarete Rocha Gonçalves da Costa diz:

    Mas a culpa não é dos cães e gatos . Que haja punição para os seus donos e maior divulgação do trabalho da Associação o Eco .

    Este tipo de trabalho da Associação e outras ,é para seres dotados de sensibilidade ,amor pela terra,natureza ,pelos sons que delas ecoam e outras belezas inigualáveis .

    Então,paralelamente ,eduquemos o povo .


  2. João Carlos de Souza Carvalho diz:

    Só tem uma solução real e que funciona ,matar esses animais domésticos que predam a nossa fauna selvagem !


  3. Teresa Cristina Padilha de Souza diz:

    Eses cães podem atacar crianças também.
    Não é proibido andar com animais soltos…fora da guia? Tem que multar e até mandar prender os donos desses animais.


  4. Magali ciatti de Souza diz:

    Os tutores são os maiores culpados pois os animais são irracional 😢😢


  5. Magali ciatti de Souza diz:

    Judiação do jabuti se as pessoas respeitassem mas as leis isto não aconteceria😢😢


  6. Paulo diz:

    Bom dia
    Urgente colocar as armadilhas para capturar estes caninos e felinos domésticos.


    1. Leandro Travassos diz:

      Complementando…e quando possível proceder a autuação dos tutores dos animais domiciliados.