Filhotes de maracanã-verdadeira somem de ninho na Bahia

Carolina Lisboa
domingo, 31 março 2019 15:36
Filhote maracanã monitorado no ninho. Foto: Divulgação /Projeto Ararinha na Natureza.

Três filhotes de maracanã-verdadeira (Primolius maracana) foram levados de um ninho monitorado pelo projeto Ararinha na Natureza no início de março. A espécie é usada como modelo para reintrodução da ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), ave que se encontra extinta na natureza.

“Desde 2016 mapeamos os ninhos ativos de maracanã, percorrendo riachos com nossa equipe formada por moradores locais, e nunca haviam mexido nos ninhos. Os filhotes não sumiam misteriosamente, apenas quando havia rastros de predação. É um lugar que tem muita captura de animal, tanto pelo tráfico quanto por pessoas da região, para criá-los em casa, um costume comum por aqui”, afirma a bióloga Cristine Prates, coordenadora do sub-projeto “caracterização da biologia reprodutiva das maracanãs-verdadeiras (Primolius maracana)”, que pertence ao Projeto Ararinha na Natureza. Vender, comprar, criar, perturbar qualquer animal de vida silvestre é crime previsto na Lei de Crimes Ambientais n° 9.605 de 12 de fevereiro de 1998, com multas que chegam a 5 mil reais por animal apreendido.

Os maracanãs-verdadeiros estavam em um ninho localizado dentro dos limites da Área de Proteção Ambiental da Ararinha-Azul (89.996 hectares) e do Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul (29.986 hectares), duas Unidades de Conservação (UCs) criadas em 5 de junho de 2018 e localizadas nos municípios de Juazeiro e Curaçá, na Bahia.

Ninhos

Monitoramento de ninhos de maracana-verdadeira. Foto: Divulgação/Projeto Ararinha na Natureza.

A maracanã-verdadeira, assim como a ararinha-azul, estabelece seu ninho em cavidades de árvores, principalmente da caraibeira (Tabebuia aurea). Essas cavidades podem ser naturais, nos pontos do caule onde os galhos foram quebrados, ou feitas pelo pica-pau-de-topete-vermelho (Campephilus melanoleucos). A maracanã serve de modelo para reintrodução da ararinha-azul, espécie considerada Criticamente em Perigo (CR) e possivelmente Extinta na Natureza (EW), uma vez que é o animal mais similar, ecológica e biologicamente, à ararinha, possuindo hábitos semelhantes e até formando pares ou grupos com elas, como foi o caso da última ararinha-azul observada na natureza. As ações para reintrodução da ararinha fazem parte do Plano de Ação Nacional para Conservação da Ararinha-azul (PAN Ararinha-azul), assim como a construção do Centro de Reprodução e Reintrodução da Ararinha-azul no Refúgio de Vida Silvestre que está em obras desde o início do ano, em Curaçá-BA, para receber 50 ararinhas vindas da Alemanha e produzir os filhotes que serão liberados na natureza.

“Estávamos até então nos sentindo aliviados, pois o projeto havia inibido essas capturas. Antes do projeto, haviam árvores marcadas de machado, que inclusive monitoramos hoje, que provavelmente já tiveram seus filhotes furtados. Mas, debaixo do nosso nariz, esse foi o primeiro furto”, explicou Cristine Prates. “Esse ninho que foi roubado fica dentro da propriedade do primo da Damilys Oliveira, moradora local que trabalha no projeto conosco. Foi inclusive esse primo dela quem descobriu o ninho. Ele foi ao local e percebeu que a corda de rapel havia sido levada e o ninho estava com marcas de corte e sem os filhotes. A Damilys entrou em contato conosco e relatou o ocorrido. Enviamos uma equipe de fiscalização ao local, mas não conseguimos encontrar os filhotes. Acreditamos que, provavelmente, foi alguém que mora na região e que sabia que estávamos monitorando o ninho, pois o local não é muito exposto”, frisou a pesquisadora.

Monitoramento de maracanãs serve de modelo para a reintrodução da ararinha-azul. Foto: Marcus Romero.

Camile Lugarini, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave/ICMBio) e responsável pelo PAN da Ararinha-Azul, explicou os possíveis motivos do furto: “Sabemos que o grande problema de fiscalização a ser tratado dentro das UCs é durante o período chuvoso, quando a fauna fica mais vulnerável à captura e caça. Pelas informações que obtivemos até o momento dentro da área proposta para a UC é que a captura de maracanãs e outros psitacídeos é próxima à Semana Santa, que é o período do último voo, quando os últimos animais saem do ninho. Mas existem pessoas que capturam animais mais acessíveis em outros períodos. Após o início dos trabalhos, nós nunca havíamos registrado arrombamento de ninhos dentro daqueles que estávamos monitorando. Esse foi o primeiro com essas características. Mas já vimos ovos e filhotes sumirem de outros ninhos, embora não tenhamos registrado a presença de pessoas que pudessem estar praticando esses ilícitos. Contudo, nunca descartamos a possibilidade e dessa vez pudemos confirmar que existem pessoas mexendo nesses ninhos. Como esse era um ninho que não tinha camera trap (armadilha fotográfica automática que dispara sozinha a partir de um estímulo de movimento e/ou calor), se eles não tivessem feito o arrombamento e modificado as características do ninho, nós não saberíamos que tinha sido mexido por pessoas. Apesar de esta ser a primeira vez que a gente registra, não está descartada a possibilidade de que isso tenho ocorrido em outros ninhos monitorados também”, disse.

“É uma sensação horrível, pois a gente está dando passos à frente para tentar conscientizar as pessoas do local e a comunidade, e quando acontece isso parece que estamos dando dez passos para trás”, lamentou Cristine Prates. Para Camile Lugarini, a solução seria investir mais em educação ambiental: “É óbvio que temos que falar mais sobre educação ambiental nessas UCs, mas estamos apenas no início da implementação delas. Já iniciamos uma atividade de educação ambiental dentro do mesmo projeto, mas obviamente que isso tem que ser ampliado e estendido para novas áreas. As pessoas ainda não reconhecem a existência das UCs e isso tem que ser melhor divulgado”.

Criação ilegal e tráfico

Maracanã na entrada do ninho. Foto: Cristine Prates.

Camile explicou que a criação ilegal de animais silvestres é prática comum na região, assim como o tráfico: “O que vimos durante os diagnósticos que fizemos sobre psitacídeos em cativeiro na área proposta para as UCs foi que aproximadamente um terço das residências tinha papagaios, principalmente o papagaio-verdadeiro (Amazona aestiva). Então sabemos que isso é uma ameaça e um ponto a ser trabalhado dentro da UC, mas ainda não sabemos qual a melhor estratégia para trabalhar com essas pessoas. Não acredito que seja simplesmente a fiscalização, pois esses são animais em grande parte já muito velhos e culturalmente as pessoas têm um apego a eles. Então temos que trabalhar com outras estratégias além, obviamente, da punição. A partir do momento que registramos o fato de um ninho ter sido arrombado, já organizamos uma operação de fiscalização e vamos tentar melhorar as vistorias e rondas na Unidade. Mas para isso precisamos de uma equipe de fiscalização que ainda não temos na UC. Obviamente já temos uma operação de fiscalização a ser realizada em abril, que já estava programada, e vamos continuar com essa programação. Além disso, temos uma boa relação com o Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (INEMA), o órgão estadual de meio ambiente, e sabemos de algumas rotas envolvendo o tráfico de papagaios em Patamuté e na Serra da Borracha, que são adjacentes à APA da Ararinha Azul, e estamos tentando trabalhar com esse órgão para inibir esse tipo de prática”.

 

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