Festa de sapos surpreende pesquisadores na Amazônia

Vandré Fonseca
quinta-feira, 17 agosto 2017 18:47
Agrupamento da espécie não havia sido registrado. O Ameerega hahneli é considerado um animal territorialista, que com agressividade à presença de outros machos. Foto: Wezddy Del Toro.
Agrupamento da espécie não havia sido registrado. O Ameerega hahneli é considerado um animal territorialista, que com agressividade à presença de outros machos. Foto: Wezddy Del Toro.

Manaus, AM — Durante o monitoramento de onças-pintadas no período de cheia em Mamirauá, pesquisadores foram surpreendidos por um encontro, aparentemente amistoso, entre um grupo de sapos Ameerega hahneli, um bicho territorialista, que pelos registros prefere viver sozinho e reage agressivamente à presença de intrusos ou a concorrentes durante a corte.

O grupo de sapos encontrados era formado por 15 indivíduos, que estavam sobre a carcaça de um bicho-preguiça, abandonada por uma onça. No local, havia muitas formigas, que fazem parte do menu desses sapos, que podem se alimentar também de ácaros. Eles não apresentavam comportamento combativo, ou seja, não se mostravam prontos para uma disputa.

“Não avistamos esse comportamento agressivo que eles normalmente têm quando o território é invadido, tanto para forrageamento e abrigo ou cortejo da fêmea”, conta a bióloga Anelise Montanarin, pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (ISDM) e um dos responsáveis pela publicação do registro na revista científica Salamandra.

De acordo com ela, na terra firme, essa espécie busca proteção em galhadas e árvores caídas. Após o acasalamento, os girinos se desenvolvem embaixo de folhas durante aproximadamente 15 dias, até que o macho os leva para uma poça d’água. Porém não existem estudos sobre o comportamento dela em habitats de várzea como Mamirauá.

Agrupamento de sapos foi registrado durante cheia na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Foto: Wezddy Del Toro.
Agrupamento de sapos foi registrado durante cheia na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Foto: Wezddy Del Toro.

O agrupamento, segundo a bióloga, pode ser uma adaptação da espécie para viver em um ambiente que passa 5 meses por anos embaixo d’água. Para ela, eles aproveitam que as formigas estão agrupadas em uma área menor e se unem para tirar proveito disso. No ano seguinte ao primeiro registro, os biólogos encontraram novamente um grupo de sapos, mas em uma área que ainda não estava alagada. Eles apresentavam o mesmo comportamento.

Os A. hahneli fazem parte da família Dendrobatidae, conhecidos por serem coloridos, um indicativo de toxidade. Essa espécie, porém, oferece pouco risco de envenenamento, por ter uma toxidade baixa, que potencialmente poderia ser letal a pequenos mamíferos. São bichos diurnos e territorialistas. Na presença de outros machos, vocalizam bastante e podem até partir para a briga.

De acordo com a bióloga, não foi possível identificar se no grupo havia machos e fêmeas, pois eles se dispersaram com a chegada da equipe. Para Anelise Montanarin, o registro aponta a necessidade do desenvolvimento de mais estudos sobre a espécie, visando caracterizar possíveis diferenças no comportamento dos animais na seca e na cheia.

O sapinho tem cores marcantes, indicativo de toxidade. Mas a espécie não é letal ao ser humano. Foto: Wezddy Del Toro.
O sapinho tem cores marcantes, indicativo de toxidade. Mas a espécie não é letal ao ser humano. Foto: Wezddy Del Toro.

 

Saiba Mais

Artigo:  First record of aggregative behaviour in the territorial poison frog Ameerega hahneli (Anura: Dendrobatidae): a strategy for surviving in the Central Amazonian flooded forest?

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