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Espécie exótica de lagarto é registrada em Noronha e liga alerta de biólogos

Descoberta de lagartixa do gênero Tropidurus, restrita ao continente, em Fernando de Noronha reforça preocupação de especialistas sobre entrada de espécies exóticas na ilha

Duda Menegassi ·
6 de abril de 2020 · 1 anos atrás
A lagartixa exótica do gênero Tropidurus foi registrada em janeiro de 2019 em Noronha, e permanece não identificada. Foto: Lisandra Bezerra.

Ilhas são ambientes muito frágeis do ponto de vista ecológico, pois são espaços isolados, com alto grau de endemismo e qualquer desequilíbrio tem um potencial mais devastador do que teria em um ecossistema continental. Por isso, a identificação de uma espécie de lagarto, até então restrita ao continente, na ilha principal do arquipélago de Fernando de Noronha, preocupou especialistas. O registro corresponde a um indivíduo do gênero Tropidurus, de espécie ainda não identificada, e foi feito em janeiro de 2019. Em março de 2020, a descoberta foi apresentada no 23º Congresso Brasileiro de Zoologia.

Desde então, foi o único registro deste lagarto, um tipo de lagartixa, em Fernando de Noronha. Mesmo com o intervalo de mais de 1 ano sem outro avistamento do animal, os pesquisadores seguem alertas, pois sabem que a introdução de uma espécie exótica como esta pode trazer grandes impactos sobre a fauna local. Principalmente sobre a mabuia (Trachylepis atlantica), espécie endêmica e único lagarto nativo do arquipélago, com a qual pode competir por alimento e habitat.

Na ilha, já existe um outro lagarto invasor, o teju (Salvator merianae), o maior lagarto das Américas, introduzido na década de 60 para controlar a população de ratos e sapos. A população de tejus na ilha foi estimada, em 2004, em 8 mil indivíduos, e no cardápio do bando estão inclusive as próprias mabuias, além de aves e caranguejos. A lagartixa exótica recém-descoberta é bem menor do que o teju, e se alimenta de presas menores, como insetos e aracnídeos, um cardápio compartilhado pela mabuia.

O registro da lagartixa foi feito pela bióloga Lisandra Bezerra, parte da equipe do projeto Golfinho-Rotador, no Mirante da Baía dos Golfinhos, dentro da área do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha (PE). “Eu estava fazendo o monitoramento de golfinhos-rotadores e num primeiro momento, achei que era apenas uma mabuia mais robusta. Ela estava por entre as pedras e não conseguia vê-la tão bem. Foi quando ela saiu e veio para luz que eu percebi, pela locomoção do animal, que não era uma mabuia nem outra espécie de Noronha. Corri e peguei a câmera para registrá-la. Não tinha muito o que eu fazer, pois não tinha uma licença SISbio para fazer a captura e manejo do animal. O que eu me arrependo é de não ter feito mais fotos de todos os ângulos possíveis. Como é um bicho territorialista, voltei no dia seguinte para ver se o encontrava de novo, mas não aconteceu”, narra a bióloga.

A Baía dos Golfinhos, onde a lagartixa foi encontrada, dentro do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha. Foto: Duda Menegassi.

Há pelo menos 30 espécies identificadas dentro do gênero Tropidurus, todas elas ocorrem na América do Sul e pelas fotos da pesquisadora não é possível afirmar qual delas é a lagartixa avistada. Ainda assim, a invasora não-identificada pode gerar um problema muito conhecido por biólogos: o desequilíbrio ecológico. “Dependendo do animal exótico, pode ocorrer um desequilíbrio catastrófico com espécies endêmicas da ilha, aquelas que só ocorrem aqui. A competição por habitat e alimentação com as mabuias são um dos pontos negativos da introdução deste animal, já que elas sofrem bastante com outras espécies como gatos, garças e os próprios tejus. Além disso, como as mabuias são presas fáceis o que poderia facilitar o crescimento do Tropidurus.”, analisa Lisandra.

Apesar do alerta ligado, a bióloga comemora não ter havido nenhum outro registro da lagartixa exótica em Noronha. “Felizmente, como era apenas um indivíduo, suponho que o mesmo tenha sido predado e já morreu”, pondera, mas sem deixar de fazer uma ressalva: “se um animal desse chegou na ilha e estava em uma área de proteção ambiental, onde a movimentação tanto de pessoas quanto de animais é mais controlada, isso só mostra a vulnerabilidade da fiscalização de espécies exóticas que entram na ilha, tanto de plantas quanto de animais”.

O estudo publicado em março pelos pesquisadores do projeto, financiado pelo Programa Petrobras Socioambiental, confirma a apreensão sobre a descoberta da lagartixa em Fernando de Noronha, pois “é de extrema preocupação e reforça a necessidade de fiscalização nos pontos de chegada de pessoas e mercadorias à ilha como aeroporto e navios cargueiros que descarregam no Porto”.

 

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    Jornalista ambiental especializada em unidades de conservação e montanhismo. Escreve para ((o))eco desde 2012. Autora do livr...

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