Insetos seguram a onda quando está prestes a chover

quarta-feira, 2 outubro 2013 21:04
Em laboratório, os pesquisadores perceberam que machos da Diabrotica speciosa perdiam o interesse nas fêmeas antes de chover. (Crédito: cortesia Maurício Bento)
Em laboratório, os pesquisadores perceberam que machos da Diabrotica speciosa perdiam o interesse nas fêmeas antes de chover. (Crédito: cortesia Maurício Bento)

Urubus voam baixo quando está prestes a chover. Tem gente que reclama de dores nas articulações. Previsão do tempo, definitivamente, não é feita apenas de medições e modelos matemáticos. Prova disso é o resultado de estudos realizados por pesquisadores da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo, e instituições estrangeiras. Eles conseguiram demonstrar que insetos perdem o interesse no sexo quando está prestes a chover.

A equipe liderada pelo agrônomo José Maurício Simões Bento, da Esalq/USP, analisou o comportamento sexual de três espécies de insetos, de ordens bastante distintas, e comparou o comportamento sexual em diferentes condições de pressão do ar: queda, estabilidade e aumento. Eles observaram que em todos os casos o interesse dos machos em tentar atrair ou buscar as fêmeas ficou comprometido quando a pressão do ar baixava. A baixa pressão é um indicativo de que há chuva chegando.

Com um olfatômetro, tubo em forma de Y usado para avaliar as respostas de insetos a odores, o grupo expôs machos da larva-alfinete ou vaquinha (Diabrotica speciosa) a extratos de odores de feromônios femininos. E eles perdiam o interesse nelas quando a pressão do ar estava baixa.  Mesmo quando estavam em contato com as fêmeas, os machos não se animavam a cortejá-las.

E quando ocorria o acasalamento, os machos demonstravam querer ir logo aos “finalmentes” em vez de perder muito tempo ou “jogar conversa fora”. Segundo as observações, 63% dos machos se apressavam a copular durante quedas na pressão atmosféricas. “Eles antecipam algumas etapas para poder se abrigar”, conta José Maurício Simões Bento. “Em condições normais, as fêmeas não aceitariam o macho e eles não conseguiriam acasalar tão rapidamente”, completa.

No caso das lagartas-da-pastagem (Pseudaletia unipuncta) e do pulgão-da-batata (Macrosiphum euphorbiae), foram as fêmeas que preferiram não atrair os machos quando as condições indicavam uma chuva bem próxima. Elas foram testadas sob diferentes condições de pressão do ar e demonstraram que o comportamento sedutor delas foi afetado quando a situação indicava que estava prestes a chover ou ventar forte.

A descoberta foi feita quase por acaso. Os pesquisadores estudavam a reação de machos aos feromônios femininos em laboratório. Apesar de estarem em um laboratório, com ambiente controlado, às vezes a experiência falhava. E quando isso acontecia, vinha uma chuva logo em seguida. Eles imaginaram então que o problema estava na pressão do ar e decidiram testar esta possibilidade. “Testamos então em condições naturais e depois em câmaras barométricas no Canadá, e confirmamos a hipótese”, conta Maurício Bento.

Para os pesquisadores, o comportamento pode ser explicado pelo senso de perigo iminente. Para o doutor Maurício Bento, a perda do interesse em acasalar durante horas antes de tempestades é uma adaptação que reduz a probabilidade de ferimentos ou morte de insetos. “São organismos muito delicados que estariam vulneráveis a essas condições do tempo. Com o impacto de uma gota de chuva e o vento, a probabilidade de morte é muito grande”, explica.

Os pesquisadores tentam agora descobrir como os insetos são capazes de perceber as alterações na pressão atmosférica, mas isso é outro capítulo do estudo. Por enquanto, é bom lembrar que, além da previsão do tempo na tevê ou na rádio, na hora de pegar uma praia é bom dar uma olhada nos mosquitos e outros insetos. Se eles estiverem muito assanhados, pode ser sinal de tempo bom.

 

 

Saiba Mais
Artigo: Pellegrino AC, Peñaflor MFGV, Nardi C, Bezner-Kerr W, Guglielmo CG, et al. (2013) Weather Forecasting by Insects: Modified Sexual Behaviour in Response to Atmospheric Pressure Changes. PLoS ONE 8(10): e75004. doi:10.1371/journal.pone.0075004

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