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Travessia dos Cânions: uma cereja no bolo do caminho das Araucárias

Os Parques Nacionais de Aparados da Serra e Serra Geral têm hoje a travessia mais bonita do Brasil. A trilha não é de difícil implementação, só nos falta tirá-la do papel 

17 de abril de 2018 · 3 anos atrás
Em três dias, percorremos um total de 61 km da Travessia dos Cânions. Foto: Divulgação.

No último carnaval, me desloquei ao Sul do Brasil para trilhar partes já sinalizadas do Caminho das Araucárias e ajudar a definir seu traçado em trechos onde não está implementado ainda. 

O Caminho das Araucárias, como se sabe, é uma iniciativa que reúne o ICMBio, a Secretaria do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, as Prefeituras de Canela e São Francisco de Paula, a Universidade de Caxias do Sul, a Federação Gaúcha de Montanhismo, os Escoteiros e vários outros grupos voluntários. Ele integra os objetivos do Sistema Brasileiro de Trilhas e busca conectar com uma trilha de longo curso o Parque Estadual do Caracol, no Rio Grande do Sul, ao Parque Nacional de São Joaquim, em Santa Catarina, com a possibilidade de se estender até o Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, criando uma ferramenta de recreação e de conectividade de fauna, que ligará as seguintes áreas núcleo: Parque Estadual do Caracol, Floresta Nacional de Canela, Parque Natural Municipal da Ronda, Floresta Nacional de São Francisco de Paula, Área de Proteção Ambiental Estadual da Rota do Sol, Parque Estadual do Tainhas e os Parques Nacionais de Aparados da Serra, Serra Geral e São Joaquim. 

Hoje, o Caminho das Araucárias já conta com cerca de 75 km sinalizados. Seu traçado está sendo definido de baixo para cima, pelas próprias unidades de conservação conectadas pela trilha com apoio das Prefeituras e voluntariado local. A única premissa definida nacionalmente é a de que o traçado necessariamente deve ser pensado de modo a ligar as áreas núcleo (UCs e Áreas Protegidas) e ter o objetivo de, a médio prazo, servir como corredor de fauna entre esses territórios protegidos. Nesse sentido, as unidades de conservação exercem grande protagonismo pois, do ponto de vista da recreação, são o ponto alto da trilha. Nelas seu traçado deve ser pensado para ser bonito e bem manejado. Deve também servir de exemplo para os trechos a serem implementados fora das UCs.  

A dupla Aparados/Serra Geral tem o potencial de abrigar uma das travessias mais bonitas do mundo. Foto: Divulgação.

Localizados aproximadamente no meio do Caminho das Araucárias, os Parques Nacionais de Aparados da Serra e da Serra Geral são responsáveis pelo grande fluxo turístico dos municípios do entorno, que têm as atividades ligadas às viagens recreativas como o principal gerador de emprego e renda da Região. No momento, ao abrigo do robusto programa de concessões capitaneado pelo Presidente do ICMBio, Ricardo Soavinski, está sendo discutido um plano de Uso Público e serviços associados para esses dois Parques Nacionais. A hora, portanto, é propícia para a implementação do Caminho das Araucárias em Aparados e Serra Geral.  

Assim, com o intuito de pensar e avaliar seu traçado, sob a liderança da Chefe dos Parques, a Analista Ambiental Clarice Silva, os guias locais Maurício Dalcin, Paulo Braz e Sérgio “Bola” López e eu iniciamos a Travessia dos Cânions, seguindo livremente um tracklog nos passado por Thiago de Pellegrini Korb, fundador do Clube Trekking Santa Maria e um dos maiores trilheiros de caminhadas de longo curso do Brasil.

Nossa tarefa: verificar as possibilidades mais cênicas de travessia, com pontos de apoio e locais adequados para pernoite. Fizemos a caminhada, batizada de Travessia dos Cânions, em três dias. Percorremos um total de 61 km em 24h de pé na trilha, com início na borda do Faxinalzinho e final na borda do Fortaleza, com passagem pelos cânions Itaimbezinho, Índios Coroados, Molha Côco, Malacara, Churriado e Vaca Morta. Os atrativos são muitos neste percurso com numerosos mirantes e panoramas de cair o queixo, passando também pela Cachoeira do Tigre Preto e pela Pedra do Segredo. À medida que ia caminhando, imagens de outras unidades de conservação mundo afora vinham à mente, como as Blue Mountains, na Austrália, a Montanha da Mesa, na África do Sul, a Costa Vicentina, em Portugal, o Parque Nacional de Nyanga, no Zimbábue, e o inesquecível Grand Canyon, nos Estados Unidos. Todos eles montaram engenhosos sistemas de trilhas nas belíssimas bordas de suas escarpas, gerando emprego e renda nas suas regiões de influência. 

A trilha atenderá a três tipos de visitação: curta, média e longa. Foto: Divulgação.

A exemplo do Grand Canyon, da Montanha da Mesa e das Blue Mountains, todos detentores do título de Patrimônio Mundial da Humanidade, a dupla Aparados/Serra Geral tem o potencial de abrigar uma das travessias mais bonitas do mundo. Melhor do que isso, o terreno próximo às escarpas oferece oportunidades para que a implementação dessa travessia respeite as melhores práticas de planejamento de trilhas. 

Os 61 km caminhados nunca estão a mais de 3 km de distância em linha reta de uma estrada de serviço transitável por automóveis. Em quatro situações (Faxinalzinho, Malacara, Itaimbezinho e Fortaleza) a trilha corta estradas. Isso permite que a travessia possa ser planejada para ter até 10 acessos diferentes. Nesse aspecto, ela atenderá a três tipos de visitação: curta, média e longa. Para a visitação curta, quando o visitante separa apenas um dia de seu passeio para conhecer os Parques, a travessia funcionará como uma combinação de trilhas sucessivas com distâncias de no máximo 10 km cada uma. Assim, o visitante poderá acessar a travessia por meio de uma trilha de ligação entre a estrada de serviço e a borda, caminhar ao longo da borda por alguns quilômetros e retornar à estrada de serviço por meio da trilha de ligação seguinte.

Do ponto de vista da visitação de média duração, a travessia também é de fácil implementação. Ao atravessar áreas antropizadas e ou degradadas, inclusive locais com construções de pé ou em ruínas, o percurso permite que sejam planejadas uma travessia de três ou quatro dias, que por ter acesso veicular fácil aos locais de pernoite também torna possível que apenas dois de seus dias sejam percorridos em sequência, facilitando assim seu uso em fins de semana pelos moradores das capitais próximas, Porto Alegre e Florianópolis. 

Beleza cênica convida os visitantes para contemplá-la. Foto: Divulgação.

Por fim, sob um olhar nacional, a Travessia dos Cânions é, juntamente com a travessia do Parque Nacional de São Joaquim, o trecho mais bonito do Caminho das Araucárias e da Trilha Oiapoque x Chuí. Sua beleza cênica e sinalização servirão para induzir os caminhantes a fazer outros trechos dessas trilhas de longo curso, contribuindo assim para a conectividade de paisagens entre Canela e Urubici, com a respectiva geração de emprego e renda ao longo do caminho.

Na própria área dos Parques, os locais de pernoite devem ser escolhidos de modo a usar pontos já existentes onde há construções ou terrenos degradados. A proximidade dos pontos de pernoite com a estrada de serviço facilita o manejo e limpeza dos acampamentos, bem como sua fiscalização. Outra hipótese que deve ser contemplada é a utilização de prédios já existentes próximo à borda dos Cânions para a instalação de alojamentos ou abrigos de montanha. Os pontos de acampamento e a eventual disponibilização de glampings podem ser objeto de concessão com cobrança de taxa de permanência revertendo para a manutenção da trilha. A proximidade da estrada de apoio também permite que serviços tais como venda de alimentação, transporte de mochilas entre os pontos de pernoite e aluguel de barracas, comumente disponíveis em travessias na Europa, Estados Unidos, África e Peru, sejam oferecidos por agentes autorizados.

A trilha não é de difícil implementação. O traçado não tem desníveis significativos e cerca de 70% da caminhada é em trilhas ou estradas de serviço já existentes, consolidadas e compactadas, que deverão ser usadas para compor o traçado da travessia. O resto do trajeto atravessa terreno úmido, que hoje se encontra excessivamente impactado pelo pisoteio de gado bovino e bubalino. Com efeito, nos três dias de caminhada, a presença de gado foi uma constante e, em nenhum momento, a trilha atravessou trecho que não estivesse seriamente impactado pela presença desses animais de grande porte.

A proximidade dos pontos de pernoite com a estrada de serviço facilita o manejo e limpeza dos acampamentos, bem como sua fiscalização. Foto: Divulgação.

Acreditamos que nesses trechos, a visitação ajudará a fiscalização do ICMBio na retirada desses animais do Parque com a consequente regeneração da vegetação e do solo. Para esse segmento da Travessia será necessário, contudo, uma ação de manejo com a instalação de passadiços de madeira ou com a colocação de cascalho sobre o leito da trilha, com o objetivo duplo de evitar processos erosivos e de manter os usuários sempre sobre o mesmo traçado (evitando assim o alargamento da trilha em busca de solo mais seco).

No contexto da mais que necessária repaginação do Uso Público dos Parques Nacionais de Aparados da Serra e Serra Geral, é fundamental que a implementação da Travessia dos Cânions seja contemplada. Ela ajudará na geração de emprego e renda, proporcionará aos visitantes um equipamento espetacular de recreação e será uma peça fundamental na consecução de uma trilha de longo curso ao longo da costa brasileira, desde o Oiapoque até o Chuí, colocando o Brasil de vez no mapa do turismo pedestre.  

Os Parques Nacionais de Aparados da Serra e Serra Geral têm hoje talvez a travessia mais bonita do Brasil, só nos falta tirá-la do papel! 

 

 

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Comentários 2

  1. AvatarJosé Martins diz:

    Isto sim é uma iniciativa que estimula o Ecoturismo e a valorização de nossas UCs e da natureza. Temos que encher nossas UCs de trilhas e estimular este tipo de turismo junto as operadoras e agências de turismo. Nas mídias de grande massa. Nos eventos e feiras de turismo. Parabéns Pedro. Parabéns ICMBio.


  2. AvatarNelson diz:

    Parabéns Pedro Menezes!!! È preciso coragem, competência e comprometimento para tocar este projeto!