Ambientalistas não podem ser negacionistas
Reuber Brandão
Professor de Manejo de Fauna e de Áreas Silvestres na Universidade de Brasília. Membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza.

Ambientalistas não podem ser negacionistas

Reuber Brandão
quinta-feira, 29 agosto 2019 15:00
Não, a Terra não é plana. Foto: Pixabay.

É lamentável ver o crescimento de movimentos negacionistas e o apreço às pseudociências no mundo atual. Não resta dúvida de que análises criteriosas são essenciais ao crescimento de qualquer forma de conhecimento, mas os negacionistas confundem, por superficialismo ou por descaramento, critério com crítica e novos fatos com negação. Tal postura informa mais sobre os negacionistas do que sobre o objeto da negação. A verdade é que os negacionistas, que proferem absurdos enquanto ensebam o babador, pouco entendem do método científico e de ciência. Via de regra, as razões que os levam a negar a ciência reside no engano de que, se os fatos científicos não correspondem às suas expectativas, percepções, interesses, crenças ou sentimentos pessoais, então a ciência não tem razão. Resumindo, as pessoas negam a ciência porque consideram suas opiniões mais importantes que os fatos.

Desta forma, afirmo que não existe nada mais arrogante que o negacionismo científico e que não há nada mais presunçoso que as pseudociências. Digo isso porque qualquer um que simplesmente nega fatos científicos, gerados pelo trabalho duro de diversos pesquisadores ao longo de décadas de pesquisa em instituições renomadas, com base apenas em posições pessoais, são movidas por uma profunda, arraigada e persistente arrogância. Não é à toa que existam tantas pessoas iluminadas dispostas a explicarem o resultado da pesquisa para o próprio pesquisador…

Com base nessa arrogância, passam a criar delírios autocongrulatórios que, infelizmente, acabam por arregimentar tropas de desinformados, ampliando o já imenso exército de Brancaleone das pseudociências ou do negacionismo raso. O negacionismo científico e as pseudociências são duas síndromes semelhantes, com imensas zonas de sobreposição e amplamente sinergéticas. São tão ligadas como a droga e a alucinação.

“(…) as pessoas negam a ciência porque consideram suas opiniões mais importantes que os fatos.”

Não é por acaso que as pseudociências são extremamente atraentes para os arrogantes agudos e para os iludidos crônicos. O primeiro grupo, geralmente chamados de gurus, mentores, mitos, arautos ou mestres, são traficantes de ignorância. O segundo grupo abarca os ávidos consumidores de drogas cognitivas. Os alucinados, um terceiro grupo com características próprias, vivem transtornados pelo uso abusivo da ignorância. A ignorância é uma droga poderosa, capaz de transportar os usuários para longe da realidade. Aparentemente, os usuários experimentam a sensação de uma falsa epifania quando absorvem a droga compartilhada pelo traficante, criando uma relação de forte dependência psicológica entre o dependente e o traficante. No entanto, fica o alerta: ignorância causa overdose. Ignorância mata. Os viciados em ignorância, fissurados, irão destruir a sua vida (e até mesmo a Vida) para continuarem em sua ilusão. Com o tempo, não conseguem mais viver sem drogas, incapazes de pensar com clareza e sensatez.

Os arrogantes agudos precisam das pseudociências para apoiarem sua propalada superioridade intelectual e/ou iluminação (incluindo aí a manjada iluminação mística e o suposto entendimento superior), enquanto os iludidos crônicos precisam desesperadamente de um iluminado a ser seguido, para dar conforto às suas incertezas.

Tal como o incrível exército de Brancaleone, essa massa ignota agrupa desajustados de todas as origens e tendências. A variedade de pseudociências disponíveis no mercado de bizarrices é capaz de atender aos delírios dos ignorantes e aos interesses dos espertalhões ávidos por poder. Existem pseudociências caras tanto aos extremistas de direita (“criacionismo”, “design inteligente”, “terraplanismo”, “negacionismo climático”) tanto à rabeta dos esquerdistas (comuns a certas vertentes do socioambientalismo), enquanto diversos outros, como astrologia, homeopatia, florais e o pró-epidemismo (nomenclatura mais precisa que “movimento antivacinas”, que comunica um glamour inexistente aos amigos das doenças), circulam livremente nos diferentes espectros da sociedade.

Movimento antivacina é incluído na lista de dez maiores ameaças à saúde. Foto: Pixabay.

Eu, particularmente, não tenho problemas com pessoas que usam alguma pseudociência nos seus momentos de lazer e de interação social. Adultos são livres para escolherem usar ou não usar drogas. O abuso de ignorância pelos iludidos, em minha opinião, ocorre por má-influências ou preenchem algum vazio existencial. Por isso, devemos acolher as pessoas e ter empatia e paciência na sua reabilitação e sua reinserção à realidade.

Apenas o conhecimento liberta e precisamos investir em divulgação científica para afastar as pessoas das armadilhas da ignorância. Reconheço que cientistas falham na divulgação do seu trabalho e nem sempre a mídia comum possui o preparo necessário para uma divulgação inequívoca e precisa. As pessoas precisam entender que ciência é um método usado para descrever a realidade. Que não faz sentido negar as descobertas da ciência porque essas descobertas são constantemente testadas por diversos pesquisadores em todo o mundo e são constantemente confrontadas com novas descobertas e informações. Que Teorias Científicas não são teorias coloquiais, sendo, na verdade, um conjunto consistente de fatos científicos que apoiam o entendimento do funcionamento da vida e do universo. Que podem existir pessoas arrogantes que fazem ciência, mas que o Método Científico é extremamente aberto ao contraditório e que a mudança de paradigmas é comum quando novos fatos trazem mais entendimento sobre a realidade e os fatos do universo. Aliás, essa é uma das características mais excitantes da Ciência. A ciência sempre pode dizer “não sei, mas estou tentando descobrir”. A pseudociência nunca pode dizer que não sabe. A pseudociência e os seus arautos não podem se dar ao luxo de demonstrarem ignorância.

“Os arautos da ignorância, em diversos momentos, excitados pela sua arrogância e presunção, buscaram substituir fatos comprovados por delírios potencialmente ou comprovadamente danosos à vida das pessoas e ao resto da vida no Planeta.”

É claro que existem diversos exemplos de mal-uso das ciências. No entanto, essas distorções são estratégias frequentemente usadas por vaidosos agudos, talvez o tipo de pessoa mais negativa que existe, em suas buscas pessoais por status, riqueza, sexo ou poder. Na verdade, esse mal-uso da ciência é um fenômeno histórico, pois a mentira precisa se vestir com as roupas da verdade para poder circular livremente entre os desatentos. A presunção sempre buscará se vestir com fantasias douradas de sabedoria. Por outro lado, um entendimento científico da realidade sempre flertará com o encantamento, com o deslumbramento, com a humildade diante do universo, com o afeto pelos estudos e pelo aprendizado. Os fatos sempre irão ofender os que não suportam a ausência de indumentárias artificiais. Por isso, todo movimento pseudocientífico busca criar um “ar de ciência”, uma roupagem de ciência, aos seus absurdos. No afã da pseudociência, criam argumentos tortuosos, muitas vezes pura conspiração delirante, como engodo falacioso para distrair os desavisados.

Os arautos da ignorância, em diversos momentos, excitados pela sua arrogância e presunção, buscaram substituir fatos comprovados por delírios potencialmente ou comprovadamente danosos à vida das pessoas e ao resto da vida no Planeta. Existe uso político das pseudociências para confirmar interesses específicos. Uma realidade construída em falácias tende a ser perniciosa a toda sociedade.

Quando falamos de conservação da natureza, essa postura é ainda mais danosa. Via de regra, o uso do negacionismo científico atende a interesses que visam garantir a manutenção de modelos de desenvolvimento que afetam profundamente a resiliência dos ecossistemas. E o pior, muitos desavisados caem nessa. Não podemos esquecer que foi a ciência que revelou a importância das interações ecológicas para a manutenção dos ecossistemas e para a oferta de serviços ecossistêmicos, que criou modelos para descrever a relação entre espécies, áreas e isolamento, desvendou diversos processo da evolução biológica, atestam a necessidade das áreas protegidas, dos ciclos biogeoquímicos, da paisagem e de diversas outras descobertas basilares na conservação da biodiversidade. Se você se diz preocupado com a biodiversidade, mas nega a ciência em alguma escala, lamento informar, você é apenas um poser iludido potencialmente presunçoso. Você é parte do problema, não da solução.

 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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43 comentários em “Ambientalistas não podem ser negacionistas”

  1. Brilhante texto !!! Um verdadeiro sopro de lucidez e prodigalidade na articulação de ideias em um momento de grande escassez de decência e abundância de desfaçatez. Artigos como este renovam nossa esperança. Obrigado !

  2. Esse texto abrilhantou meus olhos. Como foi bom reconhecer tantos pensamentos meus, e tanta coisa que acredito, em diversas linhas. Num mundo de "loucos" ler algo tão lúcido assim, faz acreditar que ainda existe esperança.

  3. muito bom… com humor e analogias (e visivelmente uma dose de irritação), o texto reflete nossos dias atuais… a única observação é que falar em verdade científica é uma falácia que se auto atinge no sentido que se um cientista alega que sua descoberta, método ou dados obtidos são verdade e amanha ela cai por novas evidências ou testes da hipotese ora aplicada, ela deixa de ser uma verdade para obtermos uma nova verdade… logo… ela não era verdade e a nova pode não ser também… desta forma sou um crítico de usarmos essas duas palavras juntas pois a verdade é uma abstração e é temerário acreditar que ela seja absoluta, pois caimos nos adjetivos de presunção, arrogância e outros tantos abordados pelos pseudocientistas… podemos descolar disto mantendo o trem da ciência o mais isento possível seguir impassível seu curso de testes, métodos e leis.

    • Prezado Rodrigo, obrigado pelo comentário. Essa é uma confusão que muita gente faz sobre o método científico que vale a pena discutir um pouco. A abordagem do método em avaliar o efeito de uma variável em um evento utilizando comparações com o acaso tem uma consequência clara: o método não busca dizer o que é verdade, mas o que não é verdade. Isso faz toda a diferença. A verdade, como você disse, não possui monopólio e pode ser que nunca seja encontrada. Mas o que é falso é identificado. Por isso considero a ciência um método eficaz e elegante de testar os fenômenos. Conheço grandes cientistas e, salvo péssimos exemplos, são pessoas extremamente humanas e simples.
      Abraços,

  4. Reuber… Ambientalistas DEVEM ser negacionistas porque há evidencias que a tese do aquecimento global antropogênico não só é discutível como adquiriu contornos de uma fraude ideológica responsável por censura a pesquisadores e opositores. Com o advento de pesquisas confirmadas pela Nasa de um novo minimo solar que deixará os invernos mais rigorosos pelos próximos 50 anos, ambientalistas e ipcc já falam que os invernos estão mais frios porque está mais quente ;).
    Textos escritos com o fígado como este seu, confirmam o absoluto despreparo de parte da academia em lidar profissionalmente com a ciência, alçada por mentes revolucionárias a categoria de dogmas, consensos e militância. Na falta de argumentos, agressões gratuitas, desonestidade intelectual e utilização de espantalhos é o que resta para esta ala obscurantista incapaz de debates e refutações maduras.
    Para reflexão enquanto deita de lado e chora: https://www.thenewamerican.com/tech/environment/i

    • Prezado Flávio,

      Acho interessante essa abordagem manjada da tentativa de lacração a qualquer custo. Me informa bastante sobre sua forma de enxergar a vida e as origens dos dogmas que você segue. Sugiro, por outro lado, se informar melhor sobre suas fontes de "informação". O folhetim "The New American" é "a conservative print magazine published twice a month by American Opinion Publishing Inc., a wholly owned subsidiary of the John Birch Society (JBS), a far-right organization", ou seja, atende a interesses bem específicos e pouco isentos.
      Profissionalmente, sugiro que você explore outras fontes de informação para não basear sua opinião em apenas uma fonte repleta de vieses, incluindo a citada NASA (https://climate.nasa.gov/news/2841/2018-fourth-warmest-year-in-continued-warming-trend-according-to-nasa-noaa/ e https://earthobservatory.nasa.gov/features/Carbon….
      É bastante didático também visitar essa página do NOAA (https://www.ncdc.noaa.gov/cag/global/time-series), que permite trabalhar com alguns parâmetros. Vale a pena também ler a revisão do Skeptical Science (https://skepticalscience.com/argument.php).

      No entanto, se você preferir, se informe com seus gurus. Certamente eles saberão como te orientar quanto à forma "profissional" de lidar com os fatos.

      Quanto ao convite para me tornar negacionista, agradeço, mas não gosto de militância ou dogmas, sejam de esquerda ou de direita. Prefiro independência intelectual.

      Saúde e alegria

    • Como eu disse no seu outro post. As pessoas por trás deste "Flávio" tem um bom vocabulário mas tem um problema com conhecimento científico. Não sabem nada.

      Os 3% do artigos que "desmentem" o aquecimento global tem problemas metodológicos, em vários níveis. E aqui estão as fontes:

      Benestad, R.E., Nuccitelli, D., Lewandowsky, S. et al. et al. “Learning from mistakes in climate research”; Theteorical and Applied Climatology. (2016) 126: 699. https://doi.org/10.1007/s00704-015-1597-5.

      NUCCITELLI, Nuccitelli. “Here’s what happens when you try to replicate climate contrarian papers”; The Guardian. Aceso em: 11 set. 2017.

      Boa leitura e por favor, não falem do Reuber desta forma. O Reuber é uma pessoa altamente capacitada e um ótimo profissional. Vão ler e estudar antes de defender uma política suja.

  5. Obrigado, Reuber, por ser tão claro e por produzir um texto que vai me facilitar (ah, a esperança) o trabalho em várias discussões que entro com os crentes em suas próprias opiniões. Pena que estes mesmos, caso o leiam, já o façam de forma arrogante e preconceituosa. É incrível que ainda tenhamos tantos desafios neste campo hoje em dia. Parabéns por enfrentá-los tão bem, meu amigo. Abraço!

  6. Antes fosse só negacionismo a ciência… por aqui tem gente respirando fumaça e postando que os incêndios na Amazônia são fake news da Globo e das ONGs.

    Estamos diante de uma verdadeira crise de negacionismo a realidade. Afinal, não foi o pós-modernismo que descolou a humanidade do mundo real. Está sendo o populismo moderno.

    Ou nem tão moderno. O MMA de hoje se encaixaria sem embaraços no ministério do Orwell em "1984". Num prédio de concreto armado bem ao lado do Ministério da Verdade.

  7. Texto brilhante e preciso, Reuber.

    Parabéns pela clareza na reflexão em um momento tão necessário.

    Parabéns também pelas respostas tão firmes, claras e embasadas àqueles que ilustram tão bem a arrogância negacionista que você tão bem descreveu.
    Um abraço.

  8. Ótimo texto e uma visão clara e honesta da realidade. Infelizmente vivemos em um tempo em que textos como esse são lidos com um filtro de arrogância e desonestidade intelectual difíceis de lidar, e você consegue navegar por essas águas turbulentas com muita elegância.

  9. Obrigado por produzir um texto claro e que parece saído das entranhas do que o país está passando. Esse obscurantismo, opiniões sem base e alardeadas por whatsapp, tem que acabar…

  10. Ótimo texto. Mas, os negacionistas negarão! Eles negam por pura ignorância ou falta de carácter mesmo. Parabéns por conseguir expressar tão bem nossos sentimentos!

  11. Ótimo texto Reuber. E obviamente o negacionismo se escancara nos comentários, já que como a ciência não depende do que eu espero ou acho, o texto tem potencial de desagradar evangélicos fanáticos aos seguidores dos prems e sris tão populares hoje em dia, assim como os descolados colegas adeptos do "pró epidemismo". O sarampo e catastrofes climáticas estão aí para cobrar seu preço bem ao sabor do que o texto exala.

  12. É excelente receber comentários positivos! Muito obrigado a todos! Nos dá a esperança de dias menos ignorantes, obscuros e pobres como temos vivido. Que os ignorantes abandonem suas drogas e voltem à realidade antes que os estragos já feitos aumentem.

  13. Excelente texto, Reuber! Realmente é preocupante ver como cada vez mais os ignorantes e arrogantes pretendem calar a ciência e conduzir os outros pelo seu descabelado roteiro. O problema não é eles se manifestarem (como todo mundo tem direito) mas sim ao chegar ao poder pretender calar a voz da ciência, demostrando a sua ignomiosa intolerância.

  14. Excelente texto, parabéns! Aos negacionistas de plantão, recomendo uma pequena jornada para melhor entendimento de nossos vieses cognitivos, disponível no livro Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas? pseudociência, superstição e outras confusões dos nossos tempos (por Michael Shermer).

  15. Muito importante trazer à discussão a questão do negacionismo científico pois nós, biólogos e conservacionistas, precisamos ter clareza desse "mecanismo de defesa" da psique humana. Apenas acho que misturar astrologia, homeopatia e florais nesse assunto foi um ato negacionista de sua parte…

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