Rafael Loyola
Diretor Científico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), professor da Universidade Federal de Goiás e membro da Academia Brasileira de Ciências.

Uma quedinha pela Mata Atlântica

Rafael Loyola
domingo, 31 maio 2020 14:00
Parque Estadual Carlos Botelho. Foto: Marcelo Cava/Flickr.

Chovia bastante. Umberto e eu havíamos saído cedo do alojamento para uma área bem alta do Parque Estadual Carlos Botelho, em São Miguel Arcanjo, interior de São Paulo. Por volta das 9h, se bem me lembro, estávamos em uma área bem fechada de mata, com enormes desníveis e rochas expostas, buscando por alguns indivíduos supostamente marcados em um mapa que tínhamos à mão; a essa altura já bastante molhado também.

Buscando por uma árvore, resolvi apoiar-me em uma palmeira para recobrar o fôlego do sobe e desce daquela região. Não foi uma boa ideia. A palmeira estava morta e o resultado foi um tombo de uns 10 metros ladeira abaixo. Depois do susto, um corte na mão, uma dor difusa no corpo e a roupa encharcada, disse que estava tudo bem; sem entender direito o que havia acontecido.

O Parque Estadual Carlos Botelho está na Serra de Paranapiacaba, um lugar estratégico de junção de grandes blocos remanescentes de Mata Atlântica no sudeste de São Paulo. A reserva contribui para a proteção de duas bacias hidrográficas, a do Alto Paranapanema e a do Vale do Ribeira e é rica em espécies que só ocorrem ali, em especial de plantas. O parque abriga também várias espécies ameaçadas de extinção, entre as mais conhecidas estão o palmito-juçara, algumas espécies de canelas e o muriqui-do-sul; macaco símbolo do parque.

A espécie que deveria me sustentar e acabou me derrubando era um palmito. A exploração ilegal do palmito-juçara foi, durante décadas, um dos maiores problemas socioambientais do Vale do Ribeira. Em várias situações, dentro da unidade de conservação ocorriam conflitos armados entre os “palmiteiros” e a polícia, alguns terminados em morte, segundo relatos da época. Não foram poucos os avisos que recebi para tomar cuidado com os palmiteiros e com as áreas onde eles costumavam extrair palmito.

Para combater essa exploração ilegal, a Fundação Florestal e o Instituto Florestal do estado criaram, com os moradores da zona rural do município de Sete Barras (um dos municípios cobertos pelo parque) e com apoio da Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, alguns viveiros de mudas de palmeira juçara e também outras espécies nativas da Mata Atlântica. O primeiro viveiro foi instalado dentro do parque. A intenção era ter um programa de plantio de palmito que oferecesse uma alternativa aos moradores das região uma vez que muitos sobreviviam desse extrativismo ilegal.

“A espécie que deveria me sustentar e acabou me derrubando era um palmito. A exploração ilegal do palmito-juçara foi, durante décadas, um dos maiores problemas socioambientais do Vale do Ribeira”.

Ouvi falar de ótimos resultados do programa, mudança de mentalidade na comunidade no entorno do parque e até mesmo dos guarda-parques, que passaram a tentar reeducar, ao invés de prender, os infratores. Confesso que não acompanhei mais o programa. Isso era nos anos de 2005, estava começando meu doutorado e depois minha carreira tomou um outro rumo e não voltei ao parque.

Em meus trabalhos de campo, começou a minha quedinha pela Mata Atlântica (com perdão do trocadilho). Mas para além de dores musculares, uma história pra contar e um indivíduo de palmeira juçara morto, o que encontrei aquele dia na Mata Atlântica foi a certeza de que dependemos muito mais da natureza do que imaginamos. Ao saber do programa, aprendi que existe uma economia da natureza que pode resolver inúmeros problemas socais no Brasil. E hoje falamos muito mais disso que em 2005.

A bioeconomia veio para ficar. Temos visto estudos e programas piloto, mostrando que a floresta em pé e o uso de recursos florestais, sobretudo não madeireiros, podem ser muitas vezes mais rentáveis (até 20 vezes mais) que a derrubada da floresta para plantio de monoculturas ou criação de gado. O uso de produtos naturais na indústria de cosméticos movimenta milhões de reais na economia. A necessidade de restauração e os compromissos assumidos pelos governos municipais, estaduais e federal, cria um mercado novo, que precisará ser abastecido de mão-de-obra, insumos e produtos. A chamada Economia B, com propósito e preocupação com impacto socioambiental vem ganhando espaço e muita credibilidade no país. Essa economia, assim como a inovação em biotecnologia, quando aliadas às soluções baseadas na natureza, nos leva a crer em um futuro com maior sustentabilidade.

Mas é preciso engajamento. Vivemos um período sombrio de retrocesso ambiental no país que torna essa visão de futuro cada vez mais embaçada e distante. A própria Mata Atlântica, já tão depauperada, encontra-se novamente ameaçada pelo aumento do desmatamento e alterações em leis que diminuem o escopo de sua proteção. Precisamos reagir. O engajamento do setor privado, das instituições financeiras, de organizações da sociedade civil e formadores de opinião (incluindo influenciadores digitais) será cada vez mais importante. Por vias paralelas podemos alcançar um momentum importante para proteger e restaurar ecossistemas críticos no país. O novo arcabouço global para a conservação da biodiversidade pós-2020 vem aí; os princípios da sustentabilidade para o século 21 estão postos nos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável.

As cartas estão na mesa. Podemos tomar um tombo, encontrar infratores, até nos machucar. Mas com persistência, inovação e propósito, também podemos nos sarar. Podemos fazer a diferença e nos convencer, como sociedade, da importância da natureza e das florestas.

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