E se uma espécie se extinguir?
Rafael Loyola
Diretor Científico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), professor da Universidade Federal de Goiás e membro da Academia Brasileira de Ciências.

E se uma espécie se extinguir?

Rafael Loyola
terça-feira, 30 julho 2019 15:53
O que acontece quando uma espécie entra em extinção. Acima, uma onça-pintada, o maior felino das Américas, vulnerável de extinção no Brasil. Foto: Pixabay. Arte: Márcio Lázaro.

Qual a importância de uma espécie na natureza? Essa é uma pergunta simples de se fazer, mas bem complicada de responder. Os ecólogos ‒ profissionais da ecologia – estudam a distribuição das espécies e suas relações no ambiente onde eles vivem desde o início do século XX. Essa pergunta sempre esteve no cerne dos estudos ecológicos.

A pergunta é difícil não só porque é preciso conceituar algumas coisas antes de respondê-la, mas também porque é preciso estudar a espécie na natureza para descobrir como ela interage com o meio onde está, com indivíduos da sua espécie e com as outras espécies que ali vivem. E essas interações, como você sabe, são inúmeras.

Não espero solucionar uma questão tão complexa nessa coluna, obviamente. Mas outro dia me perguntaram o que quer dizer, em termos práticos, a extinção de uma espécie. A pergunta é honesta e achei que valia a pena um esforço inicial para respondê-la.

Vamos começar com uma coisa que parece idiota, mas até hoje gera discussões: o que é uma espécie afinal? Nas ciências biológicas, temos muitos conceitos para espécie e o mais comum ‒ que talvez você conheça – é o de que uma espécie é um conjunto de indivíduos capaz de se reproduzir por meio do sexo entre si e deixar descendentes férteis. Esse é o chamado conceito biológico de espécie. Ele, de cara, tem problemas: como classificar os indivíduos que se reproduzem sem fazer sexo? Sim, isso existe (eu diria, infelizmente). Viu que não é tão simples quanto parece? Mas vamos seguir com esse conceito.

“É virtualmente impossível saber tudo isso para uma espécie porque as variáveis no mundo natural são tantas que jamais poderíamos prever tudo o que precisa ser estudado.”

Agora vamos partir para o outro problema que é onde a espécie está e o que ela faz na natureza. Para isso, os ecólogos costumam usar o conceito de nicho ecológico. Uma boa definição para o nicho é pensar em todo o conjunto de condições (presença de luz, água ou nutrientes) e recursos (alimento, abrigo, fêmeas/machos para acasalamento) necessários para que uma espécie sobreviva e se reproduza na natureza. Embora suficientemente amplo para que possamos entender a espécie, esse conceito, na prática, deixa a nossa vida difícil. Como é que vamos saber (um ecólogo diria mensurar) todas essas condições e recursos? É virtualmente impossível saber tudo isso para uma espécie porque as variáveis no mundo natural são tantas que jamais poderíamos prever tudo o que precisa ser estudado. Como boa parte da ciência usa uma abordagem reducionista – vamos estudando os pedaços para entender o todo – felizmente, ainda podemos aprender muito sobre a natureza e as espécies na ecologia. Mas essa amplitude de variação nos deixa em maus lençóis na hora de responder à pergunta sobre a importância de uma espécie em particular. Retomarei esse ponto já já.

Falta ainda deixar claro o que chamamos de extinção. É intuitivo: a espécie deixa de existir. Veja que a extinção não é o mesmo que a morte porque vários indivíduos de uma espécie podem morrer, mas a espécie ainda existiria, pelo menos até que o último indivíduo desaparecesse. Então, um bom conceito é a morte do último indivíduo (conhecido) de uma espécie, de maneira que ela deixe de existir no planeta. Triste.

Agora sim, qual é o problema de uma espécie desaparecer do planeta? Em termos práticos, quais as consequências dessa extinção? Isso é só um problema ético ou moral?

Foto: katja/Pixabay.

Bom, sim e não. Sim porque é óbvio que é um problema moral e que esbarra na nossa ética. Por ser como somos, podemos extinguir uma espécie, mas não devemos – isso é ética. Posso, mas não devo. Ser responsável pelo desaparecimento de uma espécie no planeta não é algo que queremos ter no currículo, embora já carreguemos nas costas uma lista enorme de espécies que a humanidade extinguiu. A humanidade, aliás, progrediu na definição de limites para o sofrimento humano, condena a escravidão, as guerras. Claro que tudo isso segue existindo, infelizmente, mas ninguém acha bonito escravizar alguém porque esse não e nosso padrão moral, pelo menos hoje em dia. Então, o direito à vida – e mais que isso, à existência – é um valor que carregamos conosco e a extinção de uma espécie tem consequências morais e éticas.

Agora, é possível que essa extinção tenha também consequências econômicas, por exemplo. Se for uma espécie da qual fazemos uso e esse uso não for sustentável, a espécie se extinguirá e não poderemos usufruir desse bem (ou serviço) que a natureza presta. Isso acontece com plantas por meio das quais obtemos madeira, medicamentos etc. Acontece com peixes (os famosos estoques pesqueiros), que estão declinando a olhos vistos e fazem parte da dieta de milhões de pessoas no mundo. Acontece com abelhas e outros polinizadores, que, uma vez extintos, trazem insegurança alimentar para países inteiros hoje em dia. Acontece com animais carismáticos que geram recursos de diferentes maneiras (como elefantes – sim, existiam muitas outras espécies de elefantes e que já extinguimos). A lista é enorme, mas esse ponto de vista é bastante utilitarista.

“Há um momento em que qualquer vareta retirada pode levar ao colapso da estrutura. Isso também acontece na natureza.”

E há um problema associado à extinção de várias espécies: o fato de não conseguirmos estudar todas elas e suas relações na natureza. Ou seja, para uma boa parte da biodiversidade da Terra, a resposta para a pergunta “O que acontece se essa espécie se extinguir?” é um claro e retumbante “Não sabemos”. Desde meados do século passado, ecólogos tentam entender o papel das espécies no ambiente. Em alguns casos, como acontece com predadores de topo da teia alimentar (p. ex., onças, gaviões, algumas estrelas do mar), essa extinção pode levar a um desequilíbrio muito grande que acaba trocando a fauna e a flora de um determinado ambiente. Algumas dessas espécies são chamadas “espécies-chave” por ajudarem na estruturação do ambiente onde vivem.

Sabe aquele brinquedo no qual você vai tirando varetas, uma a uma, até que, em um dado momento tudo desmorona? Tudo desmorona porque você tirou uma vareta errada. E não precisa ser uma em particular. Há um momento em que qualquer vareta retirada pode levar ao colapso da estrutura. Isso também acontece na natureza. Então, em certa medida, o meio ambiente tem uma redundância que é boa e isso é o que garante que nossos ambientes naturais ainda estejam de pé mesmo com a extinção de várias espécies. Mas o momento da ruína pode vir a qualquer hora. Ele varia de lugar para lugar, ecossistema para ecossistema… mas uma hora vamos tirar a vareta errada e perder o jogo.

Assim como não podemos simular o que acontece com todas as varetas à medida que vamos jogando, não podemos prever a consequência das extinções à medida que vamos alterando o planeta e desaparecendo com espécies.

Por precaução, eu diria que é melhor não brincar com esse jogo. Não conhecemos todas as varetas, não sabemos com quais outras elas se tocam, não podemos prever quando vamos perder. Mas uma coisa é certa: nesse jogo, ninguém ganha. Na verdade, o jogo só acaba quando tudo desmorona. Será que ele vale à pena?

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