Rafael Loyola
Diretor Científico da Fundação Brasileira para o Desenvolvimento Sustentável (FBDS), professor da Universidade Federal de Goiás e membro da Academia Brasileira de Ciências.

A natureza no mundo pós-Covid-19

Rafael Loyola
segunda-feira, 27 abril 2020 19:28
Tudo que é vivo, morre. Foto: Pixabay.

Quando vier a Primavera, se eu já estiver morto, as flores florirão da mesma maneira e as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.” – Alberto Caeiro.

Desde o início da pandemia causada pela Covid-19, estou com esse poema do Alberto Caeiro na cabeça. Ele diz muito, não só sobre a sabedoria da vida simples do autor (um dos pseudônimos de Fernando Pessoa), mas sobre o nosso lugar no mundo. O novo coronavírus tem nos mostrado como somos frágeis. Um organismo microscópico foi capaz de desacelerar a economia dos países, nos prender em casa, desestabilizar instituições.

Na coluna anterior, mencionei que a chave para evitarmos pandemias desse tipo – e outras mazelas como a crise climática – é ter uma agenda global sustentável, exatamente como propõem os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS). Pensar na sustentabilidade como elemento transversal a todas nossas atividades e setores da sociedade é imperativo e acho que essa pandemia tem mostrado as consequências de não se pensar assim.

No entanto, também acho que o buraco é mais embaixo. Tenho visto muita gente comentar que essa doença vai aumentar nossa percepção sobre o papel da natureza. Que vai nos fazer repensar nosso impacto no mundo. Será?

Infelizmente, não ando tão otimista. Pode ser efeito do isolamento social, mas minha impressão é que vamos sair piores, pelo menos do ponto de vista ambiental. Isso porque imagino que os países vão querer “tirar o atraso” de uma economia estagnada ou em retrocesso. Uma busca desenfreada pelo aumento do PIB, entre outros indicadores, vai criar uma pressão ainda maior sobre os recursos naturais, aumentando nosso impacto e gerando ainda mais desigualdade social – um dos grandes problemas no enfrentamento da Covid-19.

‘Mas Rafael, e a diminuição da poluição atmosférica? E os peixes e águas vivas nos canais de Veneza? E os golfinhos aqui e acolá? E as cabras nas ruas?’ Bom, primeiro, tudo isso é muito interessante, mas vai desaparecer novamente quando retomarmos o ritmo frenético do avanço econômico. Em segundo lugar, para mim, o que temos visto é nada mais, nada menos que a prova de que o grande problema do mundo somos nós mesmos. É difícil constatar isso, mas precisamos sair de nossa visão antropocêntrica. A natureza não precisa de nós. Ao contrário, somos nós que precisamos dela. 

“O Ailton Krenak escreveu que o novo coronavírus discrimina a humanidade e que o pé de melão-de-são-caetano continua crescendo ao lado da casa dele”

O que o Alberto Caeiro diz é exatamente isso. Se desaparecermos do planeta, a primavera virá da mesma maneira. O Ailton Krenak escreveu que o novo coronavírus discrimina a humanidade e que o pé de melão-de-são-caetano continua crescendo ao lado da casa dele. Fato. Essa nossa ideia de que a natureza precisa de nós para não desaparecer é tão desatinada quanto aquela um homem que ateia fogo em sua casa, para depois se dizer herói por ter controlado o incêndio. 

Esse contrassenso não nos exime, entretanto, da responsabilidade moral de conservar e reparar os estragos que fizemos na natureza. Até porque, quando se ateia fogo em casa, mas não se vive sozinho, você pode ser responsabilizado pelas mortes que se sucedem antes do controle do incêndio. O próprio Ailton diz que somos piores que a Covid-19. É difícil discordar. Portanto, é preciso retomar nosso lugar no mundo como parte da natureza e não como seres acima dela. Sem essa percepção, não há ODS que resolva, não há pandemia que nos faça refletir, não há ambientalismo que seja suficiente. 

Será que vamos aprender algo com essa situação? Quantos irão associar as condições nas quais estamos vivendo ao uso insustentável do planeta? Será que vamos apenas adiar nossos compromissos e retomar tudo como era antes? São muitas perguntas para refletir durante esses dias. Se ignorarmos tudo o que vem acontecendo, seguiremos o pensamento indutivista de que tudo é como sempre foi e viveremos no (e do) passado. 

Olhar para o futuro requer repensar nossas escolhas e definir novos caminhos. As economias fragilizadas precisarão de planos para sua retomada. Que momento será melhor que esse para desenvolver um plano “verde”? Um plano que considere o desenvolvimento sustentável, a primazia dos serviços ecossistêmicos e a manutenção da natureza como componente essencial à nossa sobrevivência? Assim como no século passado, precisamos (agora o mundo inteiro) de um “New Deal” do século 21. 

“Será que vamos aprender algo com essa situação? Quantos irão associar as condições nas quais estamos vivendo ao uso insustentável do planeta?”

Esse plano deveria incluir programas que prevejam investimentos maciços em obras públicas, mas com matéria-prima, processos e tecnologia sustentáveis; que garantam a ampliação de uma agricultura sustentável e de baixo carbono e o controle das cadeias de valor e produção para que sejam justas e ambientalmente amigáveis; que tenha como objetivo a valorização do trabalho à distância (incluindo home office), visando abrir novos postos e, finalmente, que traga um apelo à diversidade, a fim de integrar em nossa sociedade minorias produtivas, mas atualmente (e tradicionalmente) marginalizadas. Vejam, mais uma vez, que essa ideia já faz parte dos ODS e da agenda 2030 da ONU.

Finalmente, retomo minha ideia inicial: tudo isso seria para que nós mesmos pudéssemos sobreviver em meio à natureza. Se nos formos, o mundo continuará igual. É na crise que as decisões mais importantes são tomadas. Torço agora para que essas decisões – que já foram sugeridas há décadas – sejam, finalmente, entendidas como corretas.

 

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29 comentários em “A natureza no mundo pós-Covid-19”

  1. Excelente texto do R. Loyola. De fato precisamos pensar e repensar cada vez mais nas escolhas do modelo atual do viver em sociedade. Penso que precisamos trabalhar um movimento que consiga acessar não só os pensamentos das pessoas, mas algo que chegue até os corações de todos. Se faz extremamente necessário uma mudança no comportamento humano. E temos um momento de lockdown dos pensamentos e atividades humanas onde, talvez, seja possível a mensagem chegar com maior receptividade.

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  2. O texto e os ambientalistas de um modo geral são de um egoísmo impressionante. Reduzem a discussão e a economia como um monte de números, não levam em conta as pessoas que não estão sofrendo de fato. Comemoram os golfinhos voltando mas não tem o mínimo de senso de proporção ou de empatia com as pessoas. É a mesma coisa que comemorar que no Sudão o índice de obesos é pequeno…
    Mas em uma coisa concordo com o texto: vamos sair piores da pandemia.
    Só que nesse caso é porque uns poucos controlarão cada vez mais os outros, em nome de um suposto bem estar do mundo, mas não de quem vive nele. Lamentável…

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  3. Sempre pensei que pena nós temos inteligência, até mesmo para criticar nossas atitudes e se excluir delas,o texto nos enche de culpa,menos pra quem escreve, é sempre assim,os escritores se isentam da culpa de tudo de errado,nunca elogiam o ser humano pela sua capacidade de sobreviver,pois eu penso que nós mesmo com diversos erros de existência,ainda assim somos capazes de tantas coisas que Deus se orgulha,sabe porquê?porque acredito na humanidade dos humanos.

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    • Exatamente o que penso ,
      Triste ver o ser -desumano tratar o que nós da o sustento com tanta ingratidão ,tudo vem através da natureza ,
      Muito bom esse texto e bom perceber que tem outras pessoas que pensam igual ,e que conseguimos sair melhores dessa situação .

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  4. Lindo texto mas não condiz com a realidade ou a farsa do covid19, isso se chama a nova ordem mundial redução populacional no mundo, o povo é enganado, com essas notícias, mas logo em um futuro próximo, quem estiver vivo vão perceber o propósito dos senhores do mundo.

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    • Felizmente alguém que não foi carcomido por essas falácias que quase ganham caráter de verdade inquestionável nesse texto cuja redação tenta fornecer subsídios para a sustentação das maiores farsas engendradas a partir de meados do século XX e princípio do XXI: Mudança climática, outrora denominada aquecimento global, e agora a pandemia de histeria e hipocrisia Covid19. Basta dizer que o sujeito é cientista, professor, pesquisador, meter aí uns versos do HETERÔNIMO de Pessoa, fazer uma pseudo reflexão a culpabilizar a "humanidade" e pronto está mais um artigo mentiroso elaborado com requintes gramaticais e partilhado por gente idiotizada por uma educação pífia elaborada pela Unesco e implantada pelos "intelequituais", essa gente que pensa pensar, mas que tem a cabeça pensada pelas diretivas da ONU e bolsas da Capes. Cientistas, bah rsrsrs

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  5. Infelizmente, na minha opinião, vai ficar tudo na mm! Exploração de todos os recursos, inclusive e principalmente do próprio ser humano. Estamos aqui para ser carne para canhão!!

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  6. Não sou otimista. Tudo será pior e viverão melhor os mais endinheirados, a desigualdade será maior, a desumanidade também. Essa questão de redução populacional, o tempo dirá. Há uma seleção por outras doenças que matam muita mais que está em foco. Não me iludo. O ser humano , ou seja, nós, nos achamos imortais até que um microrganismo nós derrote. Mas a natureza sempre será soberana,pois sua essência é pura, divina

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  7. Parabéns, pelo texto ,gostei tanto q até copiei pra mandar para o gupo do zap,q pena q nem todos levam isso a sério ,mas corremos o risco da natureza se rebelar ainda mais contra nós.

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  8. Enquanto tivermos pensamentos egocêntrico s, , fascistas ou fanatismos religiosos, como se lêem em alguns comentários, nunca seremos um só organismo,vivendo em perfeita harmonia com a natureza, através da ciência tecnológica e humana.O texto mostra perfeitamente, à comparação entre nós e outras formas de vida, quando se diz que o planeta Terra não precisa de nós para continuar existindo. Na verdade nosso planeta começou adoecer, , exatamente quando nós começamos à evoluir.

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  9. Nenhuma moléstia que caia sobre a humanidade mesmo que seja por muito tempo , só conseguirar mudar a forma de pensamento do ser humano em relação ao mau que ele faz a se próprio quando destroi a natureza se a mesma exterminar toda vc essa geração que aí está ,e deixar que a evolução natural crie uma outra.

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  10. Muito bom o testo, devo admitir que ao lêlo concordei com absolutamente TUDO que falou.
    Acredito que esse momento é de pura e completa reflecção e nós com as criaturas ignorantes que somos devemos baixar a cabeça e pensar em cada minimo ato que fazemos diáriamente, assim, talvez tentando muda-lo…. Mas a mudança deve comdeçar por nós e não pelas pessoas a nossa volta. Devemos erguer a cabeça para o desconhecido antes que ele nos engula por completo.

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  11. Hoje estamos vivendo em uma prisão em nossa própria casa, sem emprego e sem dinheiro, muitas pessoas morrendo com a epidemia, outros morrendo de fome, outros enlouquecendo sem trabalhar, olha pro lado e pro outro e não ver saída, olham pros filhos pequenos e não encontram uma forma de pôr comida na mesa, esse é o momento em que vivemos.

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