Maria Tereza Jorge Pádua
Engenheira agrônoma, membro do Conselho da Associação O Eco, membro do Conselho da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e da comissão mundial de Parques Nacionais da UICN.

Globo erra novamente sobre parques nacionais

Maria Tereza Jorge Pádua
segunda-feira, 6 abril 2015 22:39

Parque Nacional da Chapada Diamantina. Foto:
Parque Nacional da Chapada Diamantina. Foto:

Como muitos telespectadores fiquei ansiosa para ver o programa Globo Repórter sobre a Chapada Diamantina, na Bahia, quanto mais não seja, pelas belíssimas chamadas que o anunciaram. A TV Globo em muitos programas, e este foi um deles, apresenta produções do nível da BBC, ou de outras grandes redes no mundo. Nada a dizer sobre a excelente produção, fotografia, cenários, iluminação, etc. Destes assuntos nada entendo, mas sei ver o belo. No entanto, os reiterados erros da TV Globo com relação ao tema ambiental e em especial acerca das unidades de conservação do Brasil me deixam muito frustrada.

Com efeito, quando a TV Globo cobre temas de natureza o faz em geral, e como é lógico, com base em visitas às unidades de conservação, que é onde as mais importantes maravilhas naturais da nação estão protegidas. Isso é ótimo. Mas erra sistematicamente na apresentação dos fatos, oferecendo informações incorretas que incentivam, sem perceber ou deixar perceber, atividades ilegais, ou indesejáveis para a categoria de unidade de conservação que está sendo apresentada ao público ou, pelo menos, semeando confusão ao invés de esclarecer.

No caso, o programa mostrou áreas dentro do Parque Nacional da Chapada Diamantina e áreas fora dele, mas em nenhum momento foi feita esta distinção. Assim, o programa deu a entender que dentro do Parque existe ou pode-se fazer agricultura, pecuária, explorar diamantes e introduzir espécies exóticas. Inclusive mostrou um cemitério, muito bonito por certo, que está longe dos limites do Parque Nacional.

A mesma situação ocorreu outras vezes em programa similares, por exemplo, sobre o Pantanal Mato-grossense. Dessa vez, fazendo parecer, sem maior discriminação, que garimpagem, caçadas de onças e de jacarés, pecuária e agricultura estão dentro dos limites do Parque Nacional Pantanal Matogrossense ou dentro das outras categorias de áreas protegidas que lá existem. E, pelo contrário, quando mostra os resultados da conservação que se devem exclusivamente às áreas protegidas, mostra-as como uma condição regional, esquecendo que somente sobrevivem porque lá existe um parque nacional ou uma reserva particular de patrimônio natural.

Desinformação

“Elogiou-se a exploração de diamantes ali (…) e não informou o desastre causado ao ambiente e à sociedade por sua exploração”

O apresentador mostrou a introdução de espécies exóticas e invasoras no “Pantanal da Bahia”, como o caso do peixe predador tucunaré que é amazônico, como se fosse um grande e elogiável feito. Na verdade, o fato ademais de um erro crasso e de ter sido realizado sem levar em conta a legislação, gera severo prejuízo para a fauna ictiológica local e para a atividade pesqueira. O programa poderia ter mencionado o fato pelo menos sem elogiá-lo e assim induzir outros a repetir o erro.

O que é isso? Como pode se malgastar tanto uma magnífica produção como aquela sem sequer falar claramente que ela mostra, quase sempre, parte do Parque Nacional da Chapada Diamantina, estabelecido em 1985, com cerca de 150.000 hectares? Ao contrário do que foi dito no programa, a beleza natural e a flora e fauna apresentados têm sido duramente protegidas precisamente porque o IBAMA e o ICMBio lutam contra garimpeiros e outros invasores que estavam lá e que continuam destruindo e contaminando o entorno natural. Contrariando toda lógica, o apresentador pareceu elogiar estes personagens. Incentivou-se o uso direto dos recursos naturais como a agricultura, o que é ilegal dentro dos limites do Parque Nacional. Elogiou-se a exploração de diamantes ali, como se fora uma atividade legal que trouxe riqueza para a região e não informou o desastre causado ao ambiente e à sociedade por sua exploração. Embora existam ainda muitos que queiram minerar na região – e com este elogio da TV Globo vão voltar à carga -, a atividade é ilegal dentro de um Parque Nacional.

Em nenhum momento o programa informou sobre os limites do Parque Nacional, seu estado de implementação e de regularização fundiária, ou as graves ameaças que ainda sofre. Tampouco deixou claro o enorme valor da sua biodiversidade, com vários endemismos e espécies ameaçadas de extinção, que se bem protegidas beneficiarão a medicina e a agricultura, além do desenvolvimento da crescente indústria do ecoturismo. Não se destacou a importância de conservar a área do Parque para garantir o regime hidrológico da região, que possibilita até agricultura mediante pivôs centrais que se pratica lá perto.

Algo está muito errado nisso e, reitero, o erro se repete em diversos graus e formas, de programa em programa. Nem sequer mencionam ou lembram ao público os objetivos de um Parque Nacional para a nação e para a humanidade. Eu já até me acostumei a ver estes erros no Globo Repórter. Ao contrário, o Globo Rural apresenta programas de fôlego, e em geral com informações excepcionais e compreensíveis por qualquer um. Em outro contraponto, a novela Sete Vidas teve filmagens no Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e mostrou corretamente os benefícios e as regras a seguir em um Parque Nacional.

Já disse que os programas sobre natureza da TV Globo competem com os da BBC e outros semelhantes. Mas a BBC jamais comete erros como esses. Por que o ICMBio não participou mais do programa? Por que especialistas não foram ouvidos? Por que a direção do programa não se informa adequadamente, desperdiçando tão valioso material?

A TV Globo poderia fazer uma grande contribuição à cultura ambiental nacional se prestasse um pouco mais de atenção a fatos como os mencionados. Não é caro nem é difícil, uma gota de água se comparado aos custos das suas magníficas produções. Basta querer.

 

 

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