Gualter Santana Pedrini
Professor da Universidade São Francisco, Mestre em Saúde Coletiva (HC-FMRP-USP), fotógrafo e mergulhador desde 1995. Fundador do Projeto Antrópica, que ajuda a divulgar ONGs e pesquisa científica em prol dos oceanos.

Ciência em tempos de cólera

Gualter Santana Pedrini
segunda-feira, 20 julho 2020 17:41
Um tribunal para o rei Cólera. Charge mostrando como eram as ruas londrinas em 1854, Crédito: Coleção Wellcome.

Era um choro doído. Agudo e, depois, rouco. Ecoava pela madrugada, mas não era suficiente para incomodar o sono dos vizinhos no bairro londrino de Soho. A senhora Lewis, desesperada, ia e voltava, balançava e embalava sua filha de 6 meses, que se contorcia entre crises violentas de cólica, vômito e diarreia, às vezes, simultâneas.

A mãe, desesperada, já tinha desistido de tudo, quando a criança finalmente sucumbiu ao cansaço e adormeceu. Enquanto seu marido, o policial Thomas Lewis, roncava em um ritmo tranquilo, Sarah se arrastava tentando limpar o chão e recolhendo as roupas encharcadas de excretos fétidos. Desconsolada, ainda reuniu forças para descer um lance de escadas e despejar o lixo pestilento na fossa que ficava em frente à sua casa, na rua Broad Street, número 40. Naquele momento, ela estava iniciando um dos mais icônicos surtos de cólera na História da medicina.

Aquelas roupas estavam contaminadas com uma quantidade razoável de bactérias, o Vibrio cholerae. E a referida fossa estava em péssimo estado de conservação, o que promoveu a contaminação de todo o solo à sua volta e do encanamento que abastecia de água o bairro.

Nos idos de 1854, ter acesso a água potável dentro de casa era artigo de luxo. Dez companhias promoviam o abastecimento da cidade de Londres. Algumas delas captavam água do rio Tâmisa, o mesmo que recebia o esgoto in natura da metrópole.  Por meio de uma rede caótica de encanamentos mal conservados, as ruas eram servidas de bombas em pontos estratégicos. Para tomar um copo de água, era necessário andar pelas ruas lamacentas, bombear a água em baldes e equilibrá-los até em casa.

A poucos metros da casa dos Lewis, a bomba na Broad Street tinha a reputação de ser uma fonte de água límpida na cidade. Porém, naquela noite abafada de agosto, as bactérias da roupa do bebê Lewis conseguiram alcançar o solo ao redor da fossa, através de rachaduras estruturais, e entraram nos encanamentos, comprometendo o abastecimento e a segurança alimentar de centenas de londrinos.

John Snow e sua assinatura, 1856. Crédito: Coleção Wellcome.

Para provocar o cólera, é necessário a ingestão de um milhão a cem milhões de bactérias. No entanto, para que sua presença seja perceptível ao olho humano, são necessárias bilhões em um mililitro de água. Assim, um copo d’água da Broad Street poderia contar com 200 milhões de microrganismos e mesmo assim não aparentaria qualquer indício de contaminação.

Manipular os pertences ou estar no mesmo cômodo que um paciente com cólera não são suficientes para se infectar. É preciso ingerir as bactérias que são liberadas durante a diarreia. E consumir fezes humanas propositalmente não é algo que faz parte de nossa cultura. Contudo, a Revolução Industrial promoveu aglomerações cada vez maiores, as quais passaram a conviver em espaços progressivamente menores. A contaminação por fezes humanas da água a ser consumida era só questão de tempo.

Em 1854, Londres já era uma metrópole mesmo para os padrões atuais, com dois milhões e meio de habitantes amontoados em uma área de cinquenta quilômetros de circunferência. Mesmo com toda essa densidade populacional, a organização administrativa da cidade praticamente não existia. Da mesma forma com que a natureza possui incontáveis microrganismos que trabalham sem trégua na reciclagem de resíduos orgânicos, os próprios moradores improvisavam formas de destinar e lucrar com todo lixo e dejetos produzidos diariamente. Algo próximo a duzentos mil catadores de lixo autônomos, distribuídos em um complexo sistema hierárquico, com os limpadores de fossas quase no topo.

Os senhorios da cidade contratavam estes homens para remover os dejetos do porão de suas casas. Quase sempre eles trabalhavam de madrugada, em um grupo de quatro indivíduos que arriscavam suas vidas pendurados em cordas, adentrando as fossas, recolhendo tonéis e mais tonéis de dejetos. Alguns se afogavam em meio às fezes.

Apesar da ingrata tarefa, os limpadores de fossas lucravam bem mais do que os demais coletores de lixo, pois além de receberem do dono da residência, eles vendiam os dejetos, como adubo, para as fazendas que se situavam à margem da cidade. No entanto, em um determinado momento, Londres começou a crescer e a empurrar essas fazendas satélites para mais distante dos seus limites.  O que encareceu muito o trabalho dos limpadores, que não conseguiam mais vender a sua coleta.

De qualquer forma, o custo da remoção de dejetos já era muito alto para alguns moradores, sendo mais prático deixar as fossas transbordando e inutilizar um ou dois cômodos, ou simplesmente ignorar o mal cheiro e a insalubridade que emanava das fossas públicas.

“O médico britânico Thomas Latta já tinha encontrado um tratamento eficaz há 22 anos, em 1832, injetando água salgada na veia dos enfermos. Porém, o tratamento permaneceu perdido por décadas de uma imensa variedade de falsas curas, que emergiam a cada dia.”

Assim, com famílias inteiras vivendo espremidas em cômodos minúsculos e fezes se acumulando por toda parte, alcançamos a equação completa para a epidemia de cólera de 1854, com um componente nunca antes visto: a mortalidade alcançada, equivalente a meses da doença em outras épocas, foi atingida em questão de dias. Pessoas passavam de um estado de saúde perfeita para a morte em menos de doze horas. Mesmo que as vítimas fossem assistidas por médicos da época, o que não ocorreu na maioria dos casos, corpos começavam a ser empilhados no meio da rua à espera da remoção para covas públicas.

O médico britânico Thomas Latta já tinha encontrado um tratamento eficaz há 22 anos, em 1832, injetando água salgada na veia dos enfermos. Porém, o tratamento permaneceu perdido por décadas de uma imensa variedade de falsas curas, que emergiam a cada dia. Naquela época, a medicina não primava pelo rigor científico e jornais como o Times e o Globe publicavam uma enxurrada de anúncios pagos por cirurgiões, boticários e qualquer um que quisesse promover novas curas infalíveis, inventadas no quintal de casa. Mesmo o jornal que representava a classe médica, The Lancet, não possuía qualquer rigor para publicar suas matérias e, na época, nem mesmo exigia um diploma dos seus autores.

Assim, os charlatões inundavam os meios de comunicação e ofuscavam cientistas realmente esforçados e metódicos. Principalmente porque a sociedade em geral não se importava com os critérios científicos empregados na fabricação destas supostas curas.

Embasados na Teoria Miasmática, predominante na época e que imputava aos odores pestilentos a causa das doenças, uma variedade interminável de odorizadores, ervas e perfumes eram anunciados como a derradeira salvação naquela semana e na outra, sendo alvo de cartas enfurecidas de consumidores e médicos, que não observavam qualquer melhora dos pacientes, que morriam em menos de um dia do início dos sintomas, esvaídos em suas próprias secreções.

Uma jovem de Viena que morreu de cólera, retratada quando saudável e quatro horas antes da morte. Gravura pontilhada colorida. Crédito: Coleção Wellcome.

Em meio ao caos da desinformação, havia um morador do bairro de Soho que já havia presenciado outros surtos e estudado os padrões de transmissão do cólera. John Snow era um médico cirurgião que já tinha alcançado prestígio no uso do éter e do clorofórmio como anestésicos pré-cirúrgicos. Mesmo após ter participado do parto da – ninguém menos – rainha Vitória, ele foi ridicularizado pelos seus pares ao defender que a doença era transmitida pela ingestão de água contaminada e não pelos ares podres das ruas londrinas.

Até seu amigo, o epidemiologista Willian Farr, era um ferrenho defensor da Teoria Miasmática, mas acabou fornecendo os dados demográficos necessários para que Snow traçasse um mapa de todos os enfermos do bairro de Soho. E, mesmo sendo incapaz de isolar ou visualizar as bactérias na água, Snow apontou para a bomba da Broad Street como causadora do surto de cólera em 1854.

Com confiança e persistência, ele conseguiu apresentar suas teorias para o Conselho Administrativo Paroquial de St. James, convencendo os seus membros a desativar o poço da Broad Street, uma semana após o início do surto. No entanto, nem a imprensa, nem as autoridades chegaram a correlacionar esse ato com a redução gradativa dos casos que se iniciou posteriormente.

Poucos perceberam que, pela primeira vez, uma pesquisa científica se desvencilhou de lendas e preconceitos sociais para agir, não no atendimento de um enfermo, mas de forma ampla dentro da comunidade. Posteriormente, o mesmo raciocínio seria usado para resolver outros surtos na Inglaterra e a desativação daquela bomba d’água seria considerada como o marco histórico da Epidemiologia.

Um cadáver é retirado da traseira de uma carroça durante a epidemia de cólera em 1832. Litografia colorida, c. 1832. Crédito: Coleção Wellcome.

Ainda naquele ano, contudo, o mapa de John Snow não convenceu mais do que alguns conselheiros e o pároco Whitehead. Esse último remontou toda a cascata de pacientes acometidos, até encontrar o bebê Lewis e classificá-lo como o “paciente zero” e, assim, ter provas concretas para exigir que uma escavação fosse feita no local. Por meio de uma análise mais detalhada, confirmou-se a má conservação da fossa e dos encanamentos da bomba.

Mesmo com tantas evidências, a teoria de contaminação pela água ainda teria muito trabalho, contra décadas de Teoria Miasmática. A própria revista Lancet dedicou um editorial de várias páginas atacando as afirmações de John Snow e terminou o texto afirmando que tais ideias realmente fediam e que, provavelmente, teriam vindo mesmo do esgoto.

O pródigo médico faleceu no ano de 1858, sem receber os devidos créditos pelas suas teorias. Nesse mesmo ano, os terríveis odores que empesteavam as ruas de Londres alcançaram o pomposo parlamento, no que foi conhecido como o “Ano do Grande Fedor”, obrigando as autoridades a investirem em obras de saneamento.

Joseph Bazalgett foi o engenheiro responsável pela construção que impactou 3 milhões de pessoas, além de redirecionar ferrovias e edifícios. O mais elaborado sistema de esgoto do mundo ficou pronto apenas em 1865, com 132 quilômetros de extensão e o gasto de 300 milhões de tijolos. Tudo para impedir que a água que abastecia a cidade fosse contaminada pelos próprios dejetos urbanos.

Hoje, um terço da população mundial ainda não tem acesso a água potável ou saneamento.  A Broad Street mudou de nome e a bomba interditada por John Snow também não existe mais. Uma réplica foi instalada a alguns quarteirões da original, com uma pequena placa, recordando os fatos de 1854 para moradores e os quase 20 milhões de turistas estrangeiros que visitam a capital anualmente e ficam extasiados com atrações como o Big Ben, o Palácio de Buckingham e o museu de cera Madame Tussaud. Enterrada pelo tempo, não há menções de que, no subterrâneo, está um dos maiores adventos da engenharia britânica. Encanamentos de tijolo não recebem mesmo muitas curtidas.

Onde encontrar mais informações:

  1. JOHNSON; Steven. O mapa fantasma: como a luta de dois homens contra o cólera mudou o destino de nossas metrópoles. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008. 271 p.
  1. Herculano, Selene. (2010). O mapa fantasma: como a luta de dois homens contra o cólera mudou o destino de nossas metrópoles. Ambiente & Sociedade, 13(2), 429-431. https://doi.org/10.1590/S1414-753X2010000200014
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4 comentários em “Ciência em tempos de cólera”

  1. Guardada as proporções de cada época, e tomando conhecimento de fatos atuais, temos linhas de situações, muito semelhantes. Não seria exagero considerar algumas particularidades, como iguais.
    Incrível como temos repetições nesse mundo. Das atitudes erradas também.
    Ótima narrativa dos fatos ocorridos.

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