Frederico Brandini
Oceanógrafo e líder Avina que participou de várias expedições do Programa Antártico Brasileiro. Trabalhou como Professor do Centro de Estudos do Mar da Universidade Federal do Paraná.

Estupidez no fundo do mar

Frederico Brandini
quarta-feira, 29 setembro 2004 17:49
Corpo de tartaruga enrolada em rede de pesca. Foto: Wikipédia.

“O que os olhos não vêem, o coração não sente”.

Esse ditado cai como uma luva quando se discute a degradação ambiental. Assim como a Amazônia, o Cerrado e o Pantanal, o fundo dos oceanos é tão remoto para a maioria das pessoas quanto o solo de um planeta distante.

Há uns dois anos levei meu filho para assistir Procurando Nemo, da produtora Pixar. Uma das cenas que mais me chamou a atenção foi aquela rede de cerco que, quase no final da história, capturou o peixinho protagonista e todas aquelas anchovas inocentes. Achei louvável a iniciativa dos produtores ao ilustrar em um filme infantil (?), ainda que por poucos segundos, um dos piores crimes ambientais praticados no mar: a pesca industrial, ainda endossada pela comunidade global, mais por ignorância da maioria do que pela ganância de poucos. Essa indústria dispõe de uma esquadra de aproximadamente 38.000 embarcações de grande porte e movimenta US$ 75 bilhões anualmente.

Vou tentar contar essa história desde o começo. A humanidade aprendeu a cultivar a terra e a domesticar animais, garantindo proteína para bilhões de pessoas. Mas a comunidade costeira manteve-se caçadora. Pescar nada mais é do que “caçar peixe”, e o homem desenvolveu técnicas artesanais eficazes para pescar. Desde as mais simples e seletivas, como a coleta manual, o anzol e o arpão esquimó, o arco-e-flecha tupiniquim e o covo de bambu, até as pequenas redes de arrastão de praia, de espera ou os cercos fixos da Ásia e dos povos mediterrâneos. Mas a população mundial cresceu exponencialmente e a necessidade de alimento aumentou nas últimas décadas. Isso inclui peixes, crustáceos, moluscos e toda a sorte de invertebrados marinhos que os chineses conseguem comer. A maricultura ainda não produz o suficiente para atender a demanda.

“(…) nos últimos 50 anos a indústria pesqueira mundial reduziu a população de peixes oceânicos em 90%; os mais ameaçados são o atum, cujos estoques decresceram em 50%, o bacalhau e o espadarte; das 25 mil espécies marinhas, 30% estão ameaçadas de extinção; setenta milhões de tubarões são capturados anualmente só para a retirada da barbatana; de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), 80% da biomassa marinha já foi capturada e, mesmo assim, continuamos a explorar incessantemente os 20% restantes”.

Após a Segunda Grande Guerra, a pesca industrial, antes restrita à caça de baleias nos oceanos austrais, tomou um novo rumo. Com apoio de novas tecnologias, a indústria pesqueira começou a pescar em grande escala recursos de vários níveis da cadeia alimentar marinha, para atender ao mercado consumidor, utilizando redes de diversos tipos e tamanhos, varas e long-lines com anzóis enormes. O alvo principal têm sido os pequenos e grandes peixes pelágicos de plataformas rasas (sardinhas e anchovas), das áreas oceânicas mais profundas (atuns, bonito, espadarte), peixes de fundo (linguado, abrotea, bagres, corvinas, raias, etc.), tubarão e o mais valioso de todos: o camarão, esse invertebrado tão cobiçado na culinária de todo o mundo.

Essa tecnologia de pesca contemporânea trouxe consequências desastrosas para a biodiversidade marinha e para os recursos pesqueiros que dependem dessa mesma biodiversidade. Algumas estatísticas alarmantes podem dar um quadro mais preciso da situação: nos últimos 50 anos a indústria pesqueira mundial reduziu a população de peixes oceânicos em 90%; os mais ameaçados são o atum, cujos estoques decresceram em 50%, o bacalhau e o espadarte; das 25 mil espécies marinhas, 30% estão ameaçadas de extinção; setenta milhões de tubarões são capturados anualmente só para a retirada da barbatana; de acordo com a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO), 80% da biomassa marinha já foi capturada e, mesmo assim, continuamos a explorar incessantemente os 20% restantes.

A explicação dessa exploração irracional do ponto de vista ambiental é o fato de os recursos pesqueiros marinhos não terem dono. É a “tragédia dos comuns”, como dizem os oceanógrafos e biólogos pesqueiros. Exceto em águas internacionais e estoques migratórios, sobre as plataformas continentais da Zona Econômica Exclusiva, parece que qualquer um pode pegar o que quiser, sem se responsabilizar pelo estrago. Domina a mentalidade do “se eu não pegar, outro pega”.

“Mas o pior de tudo é, sem dúvida, o rejeito da pesca. Ou seja, tudo aquilo que cai nas redes e que a indústria pesqueira não aproveita porque não tem valor comercial.”

Mas o pior de tudo é, sem dúvida, o rejeito da pesca. Ou seja, tudo aquilo que cai nas redes e que a indústria pesqueira não aproveita porque não tem valor comercial. E o grande vilão dessa inútil mortandade em massa é o arrasto de fundo com portas ou parelhas de barcos. A devastação das comunidades bênticas por onde a corrente das redes de porta passa é catastrófica e, em escala global, pode ser considerada pior do que a derrubada de florestas (www.mcbi.org/destructive/Destructive.htm). O barco puxa uma rede de pesca em forma de saco, com portas presas nas extremidades opostas, de tal forma que as portas são obrigadas a se separar devido à resistência com a água (como quilhas de veleiros). Desse modo a boca da rede se mantém aberta, com cerca de 15 metros de extensão. O lábio inferior é uma corrente que revolve o fundo, ressuspendendo sedimentos, peixes e invertebrados. O “lábio” superior é uma corda com bóias pequenas que flutua, mantendo a boca aberta.

Tudo o que entra pela boca da rede é comprimido e concentrado no fundo do saco. Em fundos arenosos, são caranguejos, siris, juvenis de peixes de fundo, estrelas, patas de cabra, vermes e milhares de outras formas de vida que tiveram o azar de co-habitar o mesmo espaço do camarão e foram surpreendidas por essa rede devastadora. No final do arrasto, o produto da captura é selecionado. isto é, camarões e peixes grandes. O restante só tem valor ecológico, e não pode ocupar o espaço e o gelo do porão destinado ao camarão. Exceto algumas espécies de peixes de maior valor econômico, que passaram a ser aproveitadas desde que os estoques de camarão diminuíram. Esse racismo comercial rejeita anualmente cerca de 25% da captura global, que foi de cerca de 80 milhões de toneladas em 2001. Ou seja, no mínimo 20 milhões de toneladas de pequenos peixes, juvenis e invertebrados, foram lançados mortos de volta ao mar, causando mais poluição orgânica e desequilíbrio ecológico.

“A queda dos estoques e a escassez do produto fazem o preço aumentar. Com o aumento de preço a busca se intensifica e a degradação aumenta, reduzindo ainda mais os estoques. O preço sobe ainda mais e assim por diante”.

No Brasil os dados são igualmente pessimistas. O arrasto e o descarte da pesca começaram na década de 50 na região Sul. Na década de 70 estenderam-se para o Nordeste. Nos últimos 30 anos o arrasto se intensificou com o uso de barcos mais potentes e redes maiores. Devido à pressão da pesca desordenada em nosso país, 75% das espécies de peixes de nossa plataforma continental e baías estão ameaçadas. E 7% estão em colapso, provavelmente irreversível. O descarte pode ser de até 90%. No Norte e Nordeste, a cada quilo de camarão capturado, são descartados em média 7,2 quilos de biomassa de espécies “acompanhantes”. No Sul são 4 quilos de fauna rejeitada e morta para cada quilo de camarão.

Nos últimos 40 anos (pelo menos) o arrasto de pesca é praticado quase todos os dias do ano, exceto nos defesos paliativos, em todas as plataformas continentais do mundo. O camarão é um forte commodity do comércio mundial de pescado, cujo preço flutua com a oferta e a demanda. A queda dos estoques e a escassez do produto fazem o preço aumentar. Com o aumento de preço a busca se intensifica e a degradação aumenta, reduzindo ainda mais os estoques. O preço sobe ainda mais e assim por diante. É um círculo vicioso cruel e injusto para com a natureza. Como diz o dr. Jorge Castello, um dos maiores biólogos pesqueiros de nosso país, o camarão pode ser comparado à cocaína.

É preocupante o destino da biodiversidade marinha e dos recursos pesqueiros em nosso país. O arrasto de pesca em áreas ilegais e praticado sem controle é o pior crime ambiental “legalizado” que se pode praticar contra a integridade física e biológica dos ecossistemas marinhos. Vai contra a maré do desenvolvimento sustentável da região costeira. Minha única esperança é que a pesca industrial, por ser estúpida e ao mesmo tempo suicida, esteja condenada a ser extinta nas próximas décadas. Tomara!

 

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