A história de Ullas Karanth e a recuperação do tigre indiano
Fernando Fernandez
Biólogo, PhD em Ecologia pela Universidade de Durham (Inglaterra). Professor do Departamento de Ecologia da UFRJ, seu principal interesse em ensino e pesquisa é a Biologia da Conservação.

A história de Ullas Karanth e a recuperação do tigre indiano

Fernando Fernandez*
segunda-feira, 13 agosto 2018 17:22
Ullas Karanth, em palestra na Índia em 2015. Foto: Omshivaprakash H L/Flickr.

No dia 7 de maio último, o pesquisador indiano K. Ullas Karanth (Wildlife Conservation Society), que há décadas tem lutado pela conservação dos tigres em seu país, deu uma palestra na Semana de Biologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a convite do Instituto Luísa Pinho Sartori (ILPS). No dia seguinte, ele concedeu esta entrevista sobre a conservação do tigre ao ((o))eco e ao ILPS.

Fernando Fernandez: Dr. Ullas Karanth, você poderia, por favor, falar um pouco para nós sobre sua vida e sobre como você se envolveu com conservação e com tigres?

Ullas Karanth: Eu nasci em uma pequena propriedade no oeste da Índia, no estado de Karnataka. Era uma paisagem rica, com muitas florestas, muita vida selvagem que estava sendo muito caçada; isso era no início dos anos 50, quando eu estava crescendo. Mas eu sempre tive um fascínio por tigres porque a cultura local incluía os tigres de diversas formas. Meu pai tinha algum interesse em natureza, então ele leu para mim os livros de caça de Jim Corbett, ele era um famoso caçador britânico de tigres comedores de homens, e eu me interessei por tigres a partir daí. Então, mais tarde, quando eu era um estudante de engenharia aos 17 anos, eu li um artigo do grande biólogo George Schaller, que tinha feito o primeiro estudo científico de tigres, e naquela época eu me convenci que eu iria, em algum momento, largar a engenharia e me tornar um biólogo de tigres. Isso se tornou meu sonho; demorou 20 anos, mas aconteceu.

FF: Então você se envolveu com isso, e você tem feito pesquisa sobre tigres por décadas. Você poderia nos falar sobre o status atual dos tigres na Índia, e como está a situação na parte da Índia onde você trabalha, e em outras partes também, no centro e no nordeste do país?

“Olhando para trás para os anos 60, em 1964 ou 1965, parecia que os tigres iriam se extinguir. Eles estavam sendo caçados, suas presas estavam sendo mortas, o habitat estava sendo destruído para fazendas e produção de madeira”.

UK: Olhando para trás para os anos 60, em 1964 ou 1965, parecia que os tigres iriam se extinguir. Eles estavam sendo caçados, suas presas estavam sendo mortas, o habitat estava sendo destruído para fazendas e produção de madeira, então tigres estavam realmente desaparecendo. Então em 1974, a Primeira Ministra Indira Gandhi começou a prestar atenção aos conservacionistas, ela fez leis muito fortes, e o Departamento Florestal da Índia fez um excelente trabalho ao implementar as leis, então em 1974 a população de tigres começou a se recuperar. Ao longo do tempo ela tem se recuperado aos poucos, com alguns altos e baixos. Se você olha para a situação atual, as maiores populações de tigres está no sudoeste da Índia, nas montanhas Western Ghats, que são parte da minha área de estudo; e na Índia central, nos estados de Madhya Pradesh e Maharashtra, onde há populações substanciais de tigres em algumas reservas. Além disso há populações isoladas mas boas em parques do oeste da Índia, como Ranthambore, e em Kaziranga no nordeste. Porém em vastas partes da Índia onde você vê muito verde no mapa, extensas florestas no nordeste do país, por exemplo, a caça é muito intensa, a caça de espécies que são presas dos tigres é muito intensa, e os tigres não estão indo bem lá. Então a situação varia dependendo de que parte do país você olha.

FF: Mas no todo, você diria que a tendência atual para a população como um todo é aumentar, porque os ganhos no sul mais do que compensam as perdas no nordeste da Índia, você diria isso?

UK: Sim. As perdas no nordeste aconteceram ao mesmo tempo que as perdas em outros lugares. Mas no sudoeste, partes da Índia central e partes do norte, como o Kaziranga, os tigres começaram a se recuperar nos anos 70, 80, e 90. Nas outras áreas eles não se recuperaram. Então, a concentração de tigres é bem discrepante. Uns 90% dos tigres indianos estão em reservas, eles não estão nas florestas utilizadas pelos humanos.

Ullas perto de uma armadilha fotográfica. Foto: WCS.

FF: No começo, quando você começou a trabalhar com tigres, as estimativas de abundância eram muito cruas, mas depois você foi um dos pioneiros no uso de armadilhas fotográficas e métodos de captura-e-recaptura para estimar tamanhos populacionais de tigres. Você poderia nos falar um pouco a respeito?

UK: Sim. Em 1974, quando a recuperação dos tigres começou com a forte implementação [das leis ambientais], oficiais do governo também tinham que contar tigres e reportar seus números. Mas eles não eram cientistas, não eram cientificamente treinados. Eles usavam rastros e afirmavam que conseguiam identificar tigres individualmente usando o método de censo de pegadas, que não funcionava de maneira alguma. Usando este método, os números deles começaram a subir e, em algum ponto, atingiram 4,500 tigres na Índia em 2004! E desde 1994, quando eu tive formação de biólogo, eu comecei a dizer ‘esse método não funciona’. É muito falho. Mas demorou 20 anos, e custou a perda de algumas populações significativas, até que eles reconhecessem que o método era ruim. Enquanto isso, eu estava muito interessado em trabalhar com as estimativas, desde 1990 quando as primeiras armadilhas fotográficas mais baratas chegaram na Índia. Eu sabia que o futuro estava ali, então comecei a usá-las para contar tigres em 1993-1994 e comecei a ter imagens dos tigres, me tornando capaz de identificá-los. Por causa do meu interesse em engenharia, eu não tinha medo de números e equações. Então eu percebia que, embora eu estivesse conseguindo algumas imagens, eu não sabia que proporção dos tigres eu estava capturando pelas câmeras. Logo, a segunda pergunta deveria ser “ok, eu tenho 10 tigres, mas quantos mais eu não capturei?”. E é aí que entra a captura-recaptura, e eu busquei uma colaboração com Jim Nichols, que era um dos pioneiros nesse tipo de método e na análise de seus dados. Começamos a trabalhar juntos no início dos anos 90, usando as câmeras fotográficas e o método de captura-e-recaptura, e pelos últimos 23 anos eu estudei uma população bem grande de tigres continuamente usando este método.

FF: E para identificação você usa os diferentes padrões de listras dos indivíduos de tigres, as marcas naturais deles, correto?

“Uma das coisas únicas da Índia é que existe essa religião profunda, muito antiga, o Hinduísmo, que aceita que a natureza não foi criada apenas para a humanidade.”

UK: Sim. Ao invés de capturar tigres e colocar números neles, usamos as listras naturais para reconhecer indivíduos e, a partir de quão frequentemente esses indivíduos “marcados” reaparecem, somos capazes de estimar a proporção que capturamos na amostragem. Isso permite que digamos ‘capturei 50 animais, e a taxa de captura é de 25% dos animais’, o que significa que existem 200 animais na área. Este é o poder do método: permite levar em conta também os animais que você não detectou.

FF: Excelente. Outra coisa que gostaríamos de perguntar a você é sobre a atitude dos indianos em relação à conservação: como as pessoas na Índia vêem a conservação de grandes animais? Porque, claro, este é um fator muito importante a considerar.

UK: Uma das coisas únicas da Índia é que existe essa religião profunda, muito antiga, o Hinduísmo, que aceita que a natureza não foi criada apenas para a humanidade. Humanos são apenas uma parte da natureza mais selvagem. Então, em um nível psicológico fundamental, as pessoas aceitam que outros animais tenham um direito à vida. É claro que eles caçam, eles matam animais, eles têm problemas. Mesmo assim, a atitude social nos permite fazer conservação um pouco mais facilmente do que em outros lugares onde as pessoas sentem que é tudo para eles, que animais não têm direito à vida. Este foi o ponto inicial; mas houve muita caça, tanto para proteína desesperadamente necessária à alimentação, quanto caça comercial em safáris indianos. Mas quando as leis fortes vieram, em 1974, elas vieram por causa da primeira classe média educada indiana apelando para a conservação. E agora, por causa do sucesso da conservação, por causa da mídia e da curiosidade que as pessoas têm pela vida selvagem, o apoio da opinião pública à conservação em geral e pelos tigres é muito alto, particularmente em áreas urbanas. Agora está se espalhando também pelas áreas rurais, porque as populações rurais estão se tornando mais ricas e alimentando-se de proteína animal da pecuária, e não mais de animais silvestres. Então a caça diminuiu, há mais tolerância, e geralmente eu vejo uma mudança positiva na atitude, embora indivíduos ainda possam reagir violentamente quando tigres matam seu gado.

Ullas Karanth. Foto: Omshivaprakash H L/Flickr.

FF: Eu estava pensando sobre o problema do tráfico, porque além dos problemas internos da Índia, existe um mercado internacional para partes de animais traficados. Para você, qual o problema do tráfico internacional para os tigres, e quão intenso é este tráfico?

UK: Bem, o tráfico é uma grande ameaça, mas uma diferença fundamental é que a lei na Índia é muito forte; todos os animais selvagens são propriedades do governo, mesmo que estejam em sua terra, e toda a caça é considerada ilegal. Não há caça legal na Índia, o que faz a implementação da lei muito mais fácil. Não há áreas cinzas para um caçador argumentar que “estava caçando cervos e acabei matando um tigre”; você não tem nenhum espaço de manobra para contornar a lei. Em segundo lugar, há uma forte execução da lei em todas as esferas, e depois que a ameaça do tráfico chegou, o governo bombeou muito dinheiro para aumentar a proteção. Então essas são coisas boas. No começo dos anos 90 houve uma recaída com o crescimento da demanda do tráfico, mas desde então o governo reagiu fortemente e eu não acho que a caça direta de tigres seja um problema tão grande quanto era há 20, 25 anos; o problema diminuiu. Mas a caça de presas dos tigres é uma pressão grande; esta continua espalhada pelas florestas vazias onde deveríamos ter tigres, mas não temos tigres. Temos no momento de 3.000 a 3.500 tigres na Índia, mas se pudermos recuperar e policiar melhor essas áreas poderemos chegar facilmente a 10 mil.

FF: É muito bom ter boas notícias em conservação de vez em quando.

UK: Sim, e as boas notícias têm se repetido na Ásia, eu acho que na Rússia a situação melhorou, e na Tailândia. Definitivamente, fora da Índia bons esforços também têm sido feitos em grandes blocos florestais. O Nepal está fazendo um trabalho melhor em proteger seus tigres; até mesmo em uma parte de Bangladesh há um bom trabalho de proteção… Então eu acho que, devagar e sempre, em alguns locais pelo menos, os tigres estão resistindo, e em alguns locais suas populações estão aumentando.

FF: Para terminar, gostaria de te perguntar… Em sua palestra, você enfatizou muito o papel da ciência na conservação e eu pessoalmente penso que ciência é fundamental para fazer conservação. Mas eu gostaria que você falasse um pouco dos papéis relativos da ciência e da paixão pela natureza na conservação.

“(…) eu acredito que paixão é essencial, uma espécie de base sobre a qual podemos construir a casa da conservação. Mas sem os tijolos, a argamassa, a estrutura, os cálculos, a casa não pode ser construída, e isso é feito pela ciência”.

UK: Eu acho que ambos são essenciais. Você começa a conservar porque você valoriza algo, e a paixão vem daí. Pode vir de uma razão econômica, uma razão estética – é um lindo animal e você quer observá-lo – ou pode vir de uma busca espiritual ou religiosa… Mas eu acredito que paixão é essencial, uma espécie de base sobre a qual podemos construir a casa da conservação. Mas sem os tijolos, a argamassa, a estrutura, os cálculos, a casa não pode ser construída, e isso é feito pela ciência. Embora existam conhecimentos tradicionais que possam ser aplicados, muito do trabalho tem a ver com investigação apropriada, seja ela investigação básica em veterinária, agropecuária, vida selvagem; ciência tem de ser fundamental para conservação. Caso contrário, nós fazemos coisas erradas. Nós saímos do caminho, talvez com a melhor das intenções, mas acabamos no lugar errado.

FF: Se você não tem ciência…

UK: Sim, se você não tem ciência. É como ir para a floresta sem uma bússola. Você pode achar que está indo para o Norte, mas você está indo para o Sul. A ciência é essa bússola que nos leva ao nosso objetivo de conservação.

FF: Concordo completamente com você. Muito obrigado, Ullas, foi um grande prazer falar com você.

UK: Sim.

 

*Fernando Fernandez realizou a entrevista. Giuliana Ferrari fez a transcrição e a tradução e Bernardo Araújo fez a gravação e a filmagem.

 

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2 comentários em “A história de Ullas Karanth e a recuperação do tigre indiano”

  1. Fernando,
    Que entrevista animadora. Como a ciencia e mesmo a base para se fazer conservacao da biodiversidade. Ativistas ajudam muito mas a base tem de ser cientifica. Que bom ainda saber que na India a legislacao forte de 1974 tem sido implantada no campo. Parabens a voce e ao ilustre entrevistatdo. Parabens!!!!

  2. Me desculpem, mas apesar do uso da ciência de conservação na Índia estar anos-luz a nossa frente, a GRANDE diferença é esta:

    " você não tem nenhum espaço de manobra para contornar a lei… há uma forte execução da lei em todas as esferas, e depois que a ameaça do tráfico chegou, o governo bombeou muito dinheiro para aumentar a proteção. Então essas são coisas boas. "

    Coisas boas que aqui não rolam. Nem rico nem pobre vai preso se flagrado caçando.

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