Vacinação de 500 micos-leões-dourados deverá durar 3 anos
Emanuel Alencar
Jornalista, editor de Conteúdo do Museu do Amanhã e mestre em Engenharia Ambiental.
Twitter: @Emanuel_Alencar | E-mail: emanuel.ambiente@gmail.com

Vacinação de 500 micos-leões-dourados deverá durar 3 anos

Emanuel Alencar
quinta-feira, 19 setembro 2019 19:24
Foto: Jeroen Kransen/Wikimédia.

A epidemia de febre amarela que derrubou em 32% a população de micos-leões-dourados no país mobilizou especialistas, que finalizam uma força-tarefa para salvar os 2.500 primatas da espécie que resistiram ao surto da doença. Mas a vacinação dos bichos, que ainda precisa passar por conselhos de éticas e pelo Sistema de Autorização e Informação em Biodiversidade (SISBio), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), será um processo cuidadoso e lento, se estendendo por três anos. Mais do que assegurar o uso de uma vacina humana com vírus atenuados em micos-leões (algo inédito), a equipe da qual faz parte o assessor científico de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Marcos Freire, quer saber se os micos sobreviventes pegaram a doença mas não sucumbiram – e portanto estão imunizados, com anticorpos – ou se permanecem completamente vulneráveis a novas ondas de febre amarela silvestre.

Conversei com Marcos Freire na quarta-feira, 18 de setembro, oito dias depois da revista “Nature Scientific Reports” detalhar os efeitos do pior surto de febre amarela no Brasil dos últimos 80 anos na população do mico ameaçado de extinção. Veterinário e doutor em Biologia Parasitária pela Fiocruz, Marcos explicou que não existe projeto de desenvolvimento de uma vacina específica para símios. A ideia é usar a vacina humana mesmo, com doses menores, nos primatas.

“O caminho para se fazer vacina específica é via Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), e no entendimento deles são necessários muitos estudos clínicos, espécie por espécie, de fases 1, 2 e 3. Seria, no mínimo, uma vacina muito cara”, explicou.

“O caminho para se fazer vacina específica é via Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), e no entendimento deles são necessários muitos estudos clínicos, espécie por espécie, de fases 1, 2 e 3. Seria, no mínimo, uma vacina muito cara”, explicou.

A saída seria, portanto o uso off label da vacina para humanos nos Leontopithecus rosalia. Ou seja, um uso “fora da bula”. E aí entra a primeira boa notícia: testes feitos no Centro de Primatologia do Rio (em Guapimirim) apontam que a vacina é bastante segura para três espécies de primatas testadas: mico-leão-da-cara-dourada, mico-leão-dourado e mico-leão-preto. Indivíduos dessas três espécies foram vacinados há mais de um ano e tudo indica que o teste de duração da imunidade trará bons resultados.

Agora, diz Marcos, conselheiro da Associação Mico-Leão-Dourado, o caminho indica vacinação de 500 micos-leões-dourados de Silva Jardim (RJ), com doses humanas diluídas, além de um grande inquérito sorológico desses animais. Os cientistas querem saber o quanto (e se) estão protegidos, se tiveram contato com o vírus selvagem. Mas quem espera resultados imediatos pode se frustrar.

“Vamos demorar cerca de 3 anos para vacinar os 500 animais. Não temos pressa, precisamos fazer de forma gradativa. A cada captura, que não é um processo simples, haverá monitoramento. Mas a ideia é imunizar um quinto da população (sobrevivente), com exceção de [micos] muitos jovens e fêmeas prenhas”, conta o especialista. “Se funcionar, teremos condições de publicar um uso off label para prescrição”.

O mico-leão-dourado é endêmico (exclusivo) da Mata Atlântica fluminense, com populações concentradas nos municípios de Silva Jardim, onde fica a Reserva Biológica de Poço das Antas, Rio Bonito e Casimiro de Abreu. O enorme risco de novos ciclos da febre amarela nesses locais alarma quem luta há quatro décadas para a preservação da espécie. Marcos Freire pode ter descoberto um caminho nessa batalha. Difícil, demorado. Mas eficiente.

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