Rafael Teixeira
Presidente da AMPM

Você já ouviu falar na tal TransMantiqueira?

Rafael Teixeira*
sexta-feira, 18 maio 2018 18:54
Mutirão da AMPM de manejo da trilha de acesso ao Pico dos Marins. Foto: Monique de Oliveira.

Certamente não é novidade para muitos. Iniciativas no passado já falavam desta que é uma das principais e mais expressivas trilhas de longo curso no Brasil, percorrendo toda a crista da Mantiqueira, conectando várias caminhadas e travessias já existentes. Seu ponto inicial ou de chegada e o seu traçado exato sempre geram calorosos debates entre os mais apaixonados. Isso porque depende se você está indo de bike, a pé ou até mesmo de carro, se está preparado para enfrentar os trechos de travessias pelas cristas mais altas ou se prefere seguir pelas estradas marginais conhecendo povoados e atrativos ao longo do espigão central que forma este cenográfico acidente geográfico.

Para termos ideia da dimensão do território que a TransMantiqueira engloba, uma proposta bem aceitável seria desde a Serra do Lopo, em Extrema/MG, passando pela afamada região de Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí, adentrando nas terras altas dos maciços do Pico dos Marins e do Itaguaré, seguida da deseja Travessia da Serra Fina, depois pelo Parque Nacional do Itatiaia e Parque Estadual da Serra do Papagaio, até chegar em Aiuruoca/MG. Estamos falando de aproximadamente 600 km de trilha, com possibilidade de chegar a mais de 1.000 quilômetros de extensão em versões que ampliam seus pontos extremos, cruzando 31 unidades de conservação e 38 municípios de 3 estados.

Trilha Transmantiqueira – Visão geral do traçado preliminar. Elaboração: Hugo de Castro.

Embora a ideia não seja uma novidade, pouco se avançou nas últimas décadas para consolidar este sonho, ainda restrito aos montanhistas mais experientes e que ainda assim enfrentam dificuldades para passar por propriedades privadas, unidades de conservação ou mesmo por locais mais ermos que não dispõem de pontos de apoio e serviços ao usuário. Por outro lado, nos últimos 5 anos um movimento de criação de Trilhas de Longo Curso no Brasil vem ganhando cada vez mais força e já são diversas as iniciativas de demarcação, sinalização e manejo destas trilhas.

Em 2017 foi oficialmente inaugurada a Trilha Transcarioca, a primeira trilha de longa distância a ser implementada e sinalizada no Brasil! A trilha cruza o Rio de Janeiro por um percurso de aproximadamente 180 km, saindo da Barra de Guaratiba até o Morro da Urca, aos pés do Pão de Açúcar e sua implementação envolveu uma grande mobilização de voluntários e profissionais de unidades de conservação das três esferas de governo. Cada trecho foi adotado por um grupo de voluntários, que realizam todo o trabalho de manutenção e sinalização das trilhas, enquanto o manejo fica a cargo das equipes dos Parques.

Por todo o Brasil este movimento não para de crescer. São diversos os exemplos em andamento, em diferentes estágios de implementação, que dão uma amostra do enorme potencial deste emaranhando de caminhos que vão do Oiapoque ao Chuí. Só pra citar os mais conhecidos, além da Trilha Transcarioca, temos a Rota do Descobrimento, o Caminho da Serra do Mar, o Caminho de Cora Coralina, a Rota Darwin, a Trilha Missão Cruls, o Caminho da Mata Atlântica, a Trilha TransEspinhaço e o Caminho das Araucárias.

Manejo da trilha de acesso ao Pico dos Marins. Foto: Monique de Oliveira.

Aliás, o próprio ICMBio, alerta a essa tendência, vem fomentando a criação do Sistema Brasileiro de Trilhas de Longo Curso, inicialmente com quatro grandes trilhas nacionais: Caminho dos Goyases, Trilha Oiapoque x Chui, Peabiru e Estrada Real, de modo que cada trilha nacional seja formada por uma sucessão de trilhas de longo curso regionais. Enquanto isso, no cenário internacional, desde a pioneira Appalachian Trail, criada nos EUA na década de 1920, já se tornaram realidade mais de 1.000 trilhas de longo curso espalhadas pela América do Norte, Europa, Oceania e Ásia, além de nossos vizinhos Panamá, Peru, Chile e Argentina.

E a TransMantiqueira? Ah sim, é dessa que estamos falando. Ou melhor, estamos diante do MOVIMENTO Trilha TransMantiqueira. “Movimento” porque não é nenhum projeto institucional de cima pra baixo, não pertence ao ICMBio e nem a APASM (Área de Proteção Ambiental Serra da Mantiqueira) ou qualquer outra entidade do setor público ou privado. É um movimento orgânico, de articulação de diversos atores da sociedade civil, incluindo montanhistas, guias e lideranças locais, representantes do ICMBio, dos Estados, de Prefeituras, de conselhos municipais de Meio Ambiente e Turismo, gestores das Unidades de Conservação, ONGs e principalmente, uma legião de voluntários em prol da preservação do ecossistema de montanha aliado ao ordenamento do uso público sustentável.

E melhor, do plano das ideias para a ação. Prova disso é que neste mês de maio será realizado o 3º Seminário e 2º Mutirão de Sinalização da Trilha TransMantiqueira dos setores de Campos do Jordão e São Bento do Sapucaí. Dividida por setores e cada setor com sua Governança, os grupos de discussão vão se formando pelas redes sociais, pelos grupos de WhatsApp, em encontros presenciais, seminários e por fim, dão vida a mutirões de sinalização.

Guias, lideranças locais e representantes de diversas instituições durante o 1º Encontro de Voluntários da APASM.
Foto: Acervo APASM.

É justamente neste ponto que a AMPM entra na história, assumindo a ponta da corda para os setores dos maciços Marins-Itaguaré e Serra Fina, território prioritário de atuação da nossa Associação. Em parceria com a APASM foi aprovado através do Programa Nacional de Voluntariado do ICMBio, um plano de ação com recursos para implantação da TransMantiqueira nestes setores. A primeira ação aconteceu no último dia 11 de maio durante o 1º Encontro dos Voluntários da APASM, na Floresta Nacional de Passa Quatro, quando então foram debatidos temas sobre manejo, sinalização, educação ambiental e comunicação.

E por que apoiamos este Movimento? É a principal pergunta. Acreditamos nas pessoas para além das instituições. Acreditamos na preservação através do ordenamento do fluxo de visitantes que a cada dia aumenta nas cristas mais altas da Mantiqueira. Que diante do atual cenário de condutas inadequadas de muitos usuários que deixam seu lixo, fazem fogueira (com alto risco de incêndio), suprimem vegetação para novas áreas de acampamento ou com abertura de novas trilhas e que não manejam seus dejetos (principalmente próximo aos cursos d’água), acreditamos que somente um grande esforço de conscientização, de monitoramento e manutenção será capaz de mudar essa realidade.

Ademais, compartilhamos que as trilhas de longo curso se levadas a cabo são uma poderosa ferramenta de Conectividade de Paisagens, de fomento dos Corredores Ecológicos e de conexão e estímulo da economia local em comunidades mais isoladas. Outros resultados positivos já são visíveis como a sinergia de ações entre as unidades de conservação que a trilha atravessa e a mobilização de parceiros interessados em apoiar o movimento com os recursos necessários para mitigar os impactos existentes.

Foto: Monique de Oliveira.

E tudo isso tem um jeito muito simples de começar… é colocando a Trilha no chão. Sem inventar a roda, mas a partir de experiências nacionais e internacionais, o método de sinalização rústica, seguindo a padronização nacional, com pegadas amarelas (ou pretas dependendo da direção) dentro de setas é sem dúvida a melhor opção para iniciar a materialização de todo este sonho. A seta e a pegada são um símbolo universais, indicam a direção do caminho, impedindo a criação de atalhos e novos processos erosivos, ajudando ainda no mapeamento das áreas que necessitam manejo, entre outros benefícios.

A sinalização rústica tem baixo custo, não depende de grandes aportes financeiros e sua técnica de aplicação pode ser facilmente multiplicada entre os voluntários. Fazendo uso de tinta e estêncil, a pintura da sinalização rústica utiliza suportes físicos pelo caminho, muitas vezes em troncos ou rochas, mas sempre norteada por critérios técnicos para a escolha dos locais de aplicação. A intensidade da sinalização varia de acordo com a classificação de cada trilha, medida conforme o nível de intervenção antrópica que cada uma apresenta.

Para concluir, é com a Trilha no chão, sinalizada, que ela de fato passa a existir. E uma vez sinalizada, juntamente com as governanças organizadas através de uma Associação, teremos força de pleitear recursos, atrair apoiadores e implementar ações necessárias de preservação da Mantiqueira, aliada ao desenvolvimento socioeconômico e ao direito de caminhar e desfrutar com segurança e responsabilidade. Essa é a estratégia. A quem interessar, Seja Bem Vindo ao Movimento!!!

Primeiro mutirão de sinalização rústica da Trilha Transmantiqueira no Parque Nacional do Itatiaia. Fotos: Hugo de Castro.

 

*Colaborou: Pedro da Cunha e Menezes e Hugo de Castro.

 

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11 comentários em “Você já ouviu falar na tal TransMantiqueira?”

  1. Show! Iniciativas excelentes.
    Uma ponderação que deve ser feita, face ao atual e expressivo aumento da exploração "turística" das propriedades nos entornos (acessos) às UC's é estreitar os laços com os atores locais, proprietários de terras para não gerar conflitos em relação aos acessos. Infelizmente está se criando uma cultura de superexploração de "pedágios" em áreas privadas contíguas aos parques e áreas de especial interesse, cerceando o direito de ir e vir dos montanhistas.

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  2. Parabéns pela iniciativa e projeto.
    atualmente realizei a transmantiqueira no cicloturismo e concomitante realizando as trilhas das cumieiras e foi fantástico, estou trabalhando uma palestra para divulgar aos cicloturistas essa possibilidade e alternativa.
    Obrigado
    Everton Vinhedo

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  3. Boa tarde, gostaria de saber o de faço mi há inscrição para participar do 10 seminario da trilha transmantiqueira, na programação não tem essa i formação ou um link para tal.
    Att,
    Marcelo Mendonça

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