Você apoia queimadas e desmatamentos?
Leopoldo Vieira
Jornalista, analista político, especialista em Administração Pública e chefe-executivo da IdealPolitik, agência de análise e assessoria.

Você apoia queimadas e desmatamentos?

Leopoldo Vieira, Os Divergentes
quinta-feira, 3 outubro 2019 18:27
Foto: Vinícius Mendonça/Ibama.

Você, está ao lado da soberania do Brasil sobre a Amazônia ou acredita que a defesa dela é maior dos que as fronteiras nacionais?

Essas são as primeiras exigências que o seu ego e talvez os seus grupos de trabalho, família e amizade fazem para você, pressionados pelo dia a dia ansioso e polarizado. Mas, já pensou se é realmente necessário? É preciso ter cuidado, por exemplo, para não cair na Janela de Overton.

Essa é uma técnica que consiste em fazer setores da sociedade aderirem gradualmente a opiniões das quais discordam, atraídos pela simpatia por um argumento secundário agregado ao original. É uma das ilusões que faz com que você, digamos, seja contra o desmatamento e as queimadas, mas diante de uma ameaça real ou imaginária de ver a Amazônia gerida por estrangeiros, apoia uma retórica nacionalista abertamente antirregulatória.

Há, porém, outros estados de consciência que podem ser acessados se você, ao encarar uma notícia, parar, respirar e buscar outros ângulos.

Um deles é se colocar como expectador de si mesmo no contexto em que você está inserido aqui e agora, como observador de como a sua opinião se forma sobre a conjuntura e buscar compreender um assunto com atenção plena e curiosidade. É uma opção para conhecer a verdadeira natureza de qualquer establishment político: governar você em vez de ser a manifestação do seu poder interior de ser o governo.

Concentre-se em quem é você neste jogo? Você é alguém que tem terras no Norte, no Centro-Oeste, que quer expandir sua produção? É um investidor em empresas que seriam beneficiadas com a expansão da fronteira agrícola?

É melhor para você fazer coro com a ideia de que os países desenvolvidos usam o ambientalismo para reduzir o espaço do Brasil no comércio mundial ou se somar aos fundos e bancos que estão se comprometendo com a sustentabilidade e se afastando de países com dificuldades em cumprir tratados internacionais?

“Esqueça por um minuto que bilionários globalistas financiam ambientalistas e que bilionários nacionalistas financiam o negacionismo climático, a contradição fundamental é se, nessa impermanência, sua ação fará a vida progredir ou regredir; e o aspecto principal da contradição é para qual dos dois destinos você construirá condições favoráveis.”

Se grandes capitalistas deixam claro que podem e querem adaptar seus negócios à proteção ambiental, o que isso tem de ruim e inviável? Sendo assim, em vez de se preocupar com o potencial econômico desperdiçado pela proteção ambiental, não é melhor prestar atenção, antes, no potencial desperdiçado pelo desemprego?

Um outro estado de consciência é quando você silencia a mente sozinho, pode sentir a vida pulsando em você, ali, quietamente, sem precisar estar em uma atividade eletrizante. O que você sente é o mesmo que, à sua maneira, sentem os animais e plantas que estão em áreas devastadas, queimadas ou ameaçadas atualmente. A vida é real e única, como é para você.

Por quê apoiar a destruição gratuita da vida? Pela ideologia desenvolvimentista, pela ideologia liberal, pela ideologia conservadora? É como aquele ardoroso opositor da lei da palmada: de onde vem tanta vontade de agredir um filho e de exigir que todos o imitem?

Uma ideologia muito popular até recentemente era de que grandes projetos hidrelétricos trariam desenvolvimento e, por isso, eram defendidos como mais importantes do que artefatos arqueológicos, ciclos naturais dos animais e vegetais ou mesmo que certas espécies. Depois, soube-se que muitos desses grandes projetos foram fontes intermináveis de propina e malefícios aos próprios centros urbanos de seu entorno, como o incremento da violência, do tráfico de drogas e da exploração sexual infanto-juvenil.

São apenas ideias que passam e voltam no ciclo de impermanência da vida não só natural, como da social. Um dias desses governava o PSDB, em seguida o PT, logo mais o MDB, hoje Bolsonaro e amanhã haverá novos arranjos. Esqueça por um minuto que bilionários globalistas financiam ambientalistas e que bilionários nacionalistas financiam o negacionismo climático, a contradição fundamental é se, nessa impermanência, sua ação fará a vida progredir ou regredir; e o aspecto principal da contradição é para qual dos dois destinos você construirá condições favoráveis.

Antes do politicamente correto x o politicamente incorreto, tem o respeito, a compreensão e o despertar para as infinitas possibilidades do exercício da liberdade de pensar com a própria cabeça.

 

*Texto publicado originalmente em Os Divergentes e republicada por ((o))eco.

 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

 

Leia Também 

Tocantins fica para trás na adoção de principal controle do boi de desmatamento

Não adianta fazer restauração florestal e não proteger mata nativa

Paulo Barreto: “Bolsonaro brigar com os dados não vai enganar o resto do mundo”

 

Deixe um comentário

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.