Rogerio Galindo
Rogerio W. Galindo é jornalista e tradutor. Responsável pelo blog Caixa Zero, é um dos profissionais que criaram o Plural.jor.br

Se Ratinho acha que vai reabrir Estrada do Colono com consenso, está iludido

Rogerio Galindo, do Plural
domingo, 9 fevereiro 2020 10:50
Imagem de cima da antiga Estrada do Colono. A floresta já tomou conta. Foto: ICMBio.

Não sei se ainda existe o troféu Motosserra de Ouro, que era entregue por ambientalistas a políticos que se especializavam em prejudicar a fauna e a flora brasileiras. Se existir, Ratinho Jr. (PSD) desponta como bom candidato à honraria.

Em pouco mais de um ano de mandato, o governador já avança, com palavras ou obras, sobre vários dos principais biomas do Paraná. Ataca de ponta a ponta: desde o litoral, com o corte da área protegida de restinga e a promessa de uma estrada devastadora em Pontal, até o extremo Oeste, onde passou a defender de forma mais clara a Estrada do Colono.

As declarações sobre a Estrada do Colono vieram em uma coletiva dada em Cascavel, durante uma exposição rural na cidade. Em meio aos ruralistas, Ratinho disse que acredita em uma solução de consenso para a reabertura da estrada, desde que se consiga um projeto ambientalmente correto.

“Essa decisão passa pela política mas é muito mais técnica, no sentido de acharmos uma solução adequada ambientalmente”, disse.

“A partir do momento que criar um projeto para que essa estrada seja usada para turismo, colocando uma série de regras em volume de carga, o perfil do carro ou da caminhonete que vai passar ali, eu acho que temos ambiente para avançar”, afirmou.

Fechada desde 1986, a Estrada do Colono já foi coberta pela mata. Foto: Marcos Labanca/Rede Pró UC.

Há duas possibilidades. O governador não anda se informando sobre o assunto ou então decidiu simplesmente ignorar o que vem afirmando o Ministério Público.

Os pareceres já emitidos são claros: há apenas uma solução correta do ponto de vista ambiental, que é deixar as coisas como estão. Ou seja: sem estrada.

Fechada há três décadas, a antiga estrada, que cortava o Parque Nacional do Iguaçu, tinha dezessete quilômetros. Mas sobrevoos no local mostram que a floresta já tomou todo o antigo trecho. O que existe foi definido pela expressão “cicatriz”.

O MP também disse que os ambientalistas têm razão quando afirmam que a proposta de estrada-parque, em discussão no Senado, é uma impossibilidade jurídica. E que não há como fazer uma estrada turística que não prejudique a fauna e a flora de uma região protegida por lei.

No entanto, Ratinho, como sempre, decidiu tomar o lado de quem acha que meio ambiente não é assim tão importante.

“Se avançar no Senado, e da minha parte tem meu total apoio, podemos discutir com a sociedade e com os ambientalistas”, afirmou.

Quem acompanha a discussão sabe que esse consenso é impossível. Ratinho e os demais políticos que são favoráveis à estrada, liderados por Alvaro Dias (PODE), até têm como conseguir reabri-la: sabe-se que os ruralistas, no Brasil, têm força para conseguir o que quer que venham a desejar.

Mas se acredita que terá aval de ambientalistas para isso, Ratinho está tremendamente iludido.

 

*Este texto é original da coluna Caixa Zero, do Jornal Plural.

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