Silvana Campello
Presidente do Instituto Araguaia de Proteção Ambiental. Membro da Comissão Mundial de Parques, Comissão de Sobrevivência das Espécies e Grupo de Especialistas em Conservação da Conectividade Biológica da IUCN.

Precisamos mudar a forma como lidamos com a Natureza

Silvana Campello
quarta-feira, 22 abril 2020 16:58
N.pigmaeus, vítima do tráfico de animais silvestres. Credito: Global Wildlife Conservation.

As chuvas no médio curso do rio Araguaia costumam chegar em outubro, mas em 2019 uma grande seca se alastrou até fevereiro de 2020.  Quão estranho foi observar pessoas ateando fogo no Cerrado em pleno mês de janeiro! Aqui no Cantão, ariranhas estavam procriando em suas tocas, mas os incêndios queimaram vários barrancos, e muitos filhotes não sobreviveram. As chuvas só chegaram em fevereiro, e com magnitude fora do normal: o rio do Coco, onde se situa nossa base de pesquisas no Cantão, e cujo baixo nível até então nos causava preocupação, de repente chegou a subir cerca de 25 centímetros por dia, com uma diferença de mais de 6 metros somente entre final de janeiro e março. Os ninhos de solta-asa (Hypocnemoides maculicauda) e de jacús-cigana  (Opisthocomus hoazin), construídos nos galhos das árvores acima da água, acabaram submersos e muitas ninhadas se perderam. 

Esses exemplos, entre muitos, servem de indicador alarmante das alterações que estamos vivendo. De todo lado nos chegam as notícias do caos ambiental: aquecimento, derretimento, resfriamento, tormentas, extinções. A Natureza, que até aqui era uma vítima calada dos nossos malfeitos, está reagindo. Não podemos mais ignorar seus sinais.  Finalmente um de seus alertas vermelhos chamou a atenção, por meio do COVID-19.

Esse vírus surgiu a partir do consumo legal de animais silvestres na China, vendidos em mercados chamados de “wet markets” ou “mercados molhados”, por causa do sangue dos animais abatidos ali mesmo, correndo pelo chão. Falamos de cachorros, macacos, cobras, morcegos, sapos, tartarugas, pangolins, cigarras, porquinhos-da-índia, ratos-de-bambu, texugos, ouriços, lontras, civetas e até filhotes de lobo, empilhados vivos em gaiolas, defecando uns sobre os outros, aguardando o momento de serem cruelmente abatidos ali mesmo, em total insalubridade.  

Exemplo de Wet Market, localizado em Hong Kong. Foto: Wikipédia.

Infelizmente, grande parte dos animais silvestres consumidos como alimento ou remédio na Ásia ainda provém de unidades de conservação mal fiscalizadas ou mal gerenciadas ao redor do mundo. Por conta desse desatino, o pangolim-chinês (Manis pentadactyla) se encontra classificado como Criticamente Ameaçado (CR) pela IUCN. O pequeno e carismático primata da foto acima é o lóris lento (do gênero Nycticebus). Loris são vendidos em mercados chineses para uso medicinal e para consumo, ou para serem criados como animais de estimação. Seus dentes são removidos com métodos cruéis, usando alicates ou até mesmo cortadores de unhas, para que possam ser vendidos sem o risco de mordida. Na China, três parques são responsareis por manter 80% da população do ameaçado N.pigmaeus, mas mesmo nelas a especie é arrebatada pelo tráfico ilegal, local e internacional. O Rinoceronte Branco do Norte da África (Ceratotherium simum cottoni) cujas supostas virtudes medicinais atribuídas pelos asiáticos a seu “chifre” alimentaram uma implacável caça ilegal, foi levado à extinção, com os últimos 15 animais em vida livre sendo abatidos no Parque Transfronteiriço de Limpopo, Moçambique, em 2013.

Não bastasse a metade de todas as espécies de tubarão de alto mar enfrentar risco de extinção por causa do comércio de sua carne e pele, recentemente foi deflagrado o tráfico ilegal de pepinos-do-mar para a China, extraídos de santuários marinhos de todo o mundo, inclusive do Parque Estadual da Ilha Grande, no Rio de Janeiro. Em pouco tempo várias espécies da holotúria ficaram ameaçados de extinção.

O governo chinês alega que baniu a venda de animais silvestres. Se esses mercados tornarão a abrir ou não, dependerá do surgimento de uma nova consciência mundial sobre nossa relação com nossos companheiros não-humanos nessa viagem que chamamos Vida.  

E não apenas na forma que os consumimos como alimento ou suposta medicina. Em nome do avanço da ciência, terminamos por perpetrar grande sofrimento a muitos animais: em laboratórios de pesquisa para benefício humano, animais são submetidos a atrocidades que lhes causam enorme dor e aflição; dezenas de milhares de cães são dissecados vivos para estudos, sem nenhum tipo de anestesia; muitos tipos de primatas, por serem tão “parecidos” conosco, são os mais usados em estudos de comportamento nos quais são submetidos a todo tipo de privação (materna, social, alimentar, de água, de sono etc.), inferência de dor para observações do medo, choques elétricos para aprendizagem e indução a estados psicológicos estressantes.  

Diante da hipocrisia do egocentrismo humano, que, do alto de sua autoproclamada superioridade, aceita como normal que animais sejam submetidos a práticas repugnantes porém inaceitáveis para nossa espécie, penso que a Natureza quer combater o “vírus Homem” que a abate. Devemos ouvi-la e entender que embora não reaja na hora, mais cedo ou mais tarde Ela se vinga.

  

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6 comentários em “Precisamos mudar a forma como lidamos com a Natureza”

  1. Excelente artigo! Custei muito a admitir esse egoísmo tão explícito que vem sendo deflagrado no mundo. Sempre quis acreditar que a maioria da humanidade fosse boa em sua essência, mas hoje questiono por tantas evidências. Mas o Covid tem, por outro lado, tem trazido à tona muita generosidade em doações como nunca visto. Todavia, em relação à natureza o estímulo é bem menor, o que mostra a separação ainda marcante entre gente e natureza. Esta, como a autora aponta, sofria calada e agora não mais.

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  2. Precisamos aprender a respeita-la! Deveria ser obrigatório educação ambiental (feita por especialista no assunto) desde o ensino fundamental! Quem não respeita sua casa e seus co-moradores não entendeu nada sobre educação, respeito e amor!

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  3. Parabéns pelo texto, porém acredito que devemos incentivar ideias que sejam mais conciliadoras… o homem não pode continuar a ser visto como algo separado da natureza, nós somos mais um animal, mais uma espécie que interage e vive na Terra. Acho q o ponto que é necessário aqui é integrar o homem com o meio, o egoísmo vem da prepotência de q somos superiores, quando o certo é entender q somos complementares. As ações só vão mudar quando nós compreendermos q temos a responsabilidade de cuidar do planeta, de interagir com todas as formas de vidas e q elas são tão importantes quanto a nossa própria. Enfim, nós tmb somos natureza, não podemos esquecer disso.

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    • Oi Gabriel. Já acreditei muito, mas as vezes acho que esse equilíbrio Homem-Natureza é uma utopia. Tenho refletido sobre isso. Quando um virus é "normal" como o da gripe comum ou as proferidas "viroses" que os medicos hoje em dia atribuem a quase tudo, a gente se adapta, convive com ele. Mas quando vem um virus de forma absurdamente destrutiva, como o COVID 19, a gente não tem outra saída senão buscar se livrar dele, extirpa-lo. Não sabemos se será possível, mas seria o desejado. Do mesmo modo, quando a Natureza se vê tão ameaçada – afinal as alteraçōes climáticas e o desrespeito à Vida ameaçam o equilíbrio daTerra! – acho que Ela deve "pensar" do mesmo jeito. TUDO DEPENDE DO GRAU DE DESTRUIÇÃO. E nesse caso, somos nós, sim, os COVID da Natureza… uma pena!

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