André Jean Deberdt
Biólogo, Diretor Técnico do Centro Excursionista Mineiro (CEM) e membro do movimento Trilha de Longo Curso Transespinhaço

Precisamos de mais pesquisadores montanhistas no Espinhaço mineiro

André Jean Deberdt
terça-feira, 18 agosto 2020 16:15
Aula de campo em um curso de montanhismo: pesquisador trazendo aos futuros montanhistas informações sobre a riqueza de espécies da Cadeia do Espinhaço. Na foto um exemplar de Heterocoma albida, categorizada como Criticamente em Perigo (CR), com ocorrência restrita à Serra do Caraça. Foto: André Deberdt

Teve início no dia 27/07/2020, mais uma etapa da oficina de elaboração do Plano de Ação Territorial Espinhaço Mineiro, parte integrante do Programa Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção – Pró-Espécies¹, que tem como objetivo identificar e orientar ações prioritárias para combater os vetores de pressão que colocam em risco espécies da fauna e da flora categorizadas como Criticamente em Perigo (CR) e que não contam com nenhum instrumento de conservação. A iniciativa é coordenada pelo Instituto Estadual de Florestas – IEF, com apoio técnico e supervisão do WWF, Ministério do Meio Ambiente, ICMBio e Jardim Botânico do Rio de Janeiro, em colaboração com representantes de diversos setores da sociedade civil, comunidade científica, ONGs, entre outros.

A Cadeia do Espinhaço é um importante acidente geográfico, formado predominantemente por rochas quartzíticas, que se estende da macrorregião sul de Belo Horizonte até o norte da Bahia. Apresenta um relevo acidentado, com altitudes geralmente superiores a 1.000 m, sendo o Pico do Sol (2.072 m), o Pico Inficionado (2.068 m), ambos na Serra do Caraça, e o Pico do Itambé (2.052 m), situado entre os municípios mineiros de Serro e Santo Antônio do Itambé, os pontos de maiores altitudes em Minas Gerais. Por suas características climáticas, geológicas e ao seu isolamento, apresenta um elevado grau de endemismo da flora, onde se destacam as “sempre-vivas” (Eriocaulaceae), as canelas-de-ema (Velloziaceae), as bromélias (Bromeliaceae) e as orquídeas (Orchidaceae).

Para a iniciativa, também foi convidado um representante do movimento Transespinhaço (TESP), trilha de longo curso que deve interligar mais de 50 unidades de conservação distribuídas ao longo dos cerca de 1.000 km de seu percurso no Espinhaço Meridional, dos quais 200 km já estão sinalizados com as pegadas amarelas e pretas que caracterizam as trilhas que integram a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso. O convite deixa claro, mais uma vez, o entendimento da importância das trilhas de longo curso como ferramenta de conservação, exercendo importante papel na conectividade de áreas protegidas, conforme já foi discutido em algumas oportunidades em ((o)) eco².

Mas há uma outra vantagem resultante da implantação dessas trilhas que ainda não foi mencionada: elas também facilitarão o acesso de pesquisadores às áreas naturais mais remotas, especialmente no caso da Cadeia do Espinhaço, representadas principalmente pelos altiplanos e cumes de montanhas e morros ocupados por campos rupestres, que abrigam uma rica flora endêmica, possivelmente com espécies ainda não descritas pela ciência.

Um artigo publicado por Madeira, et al. (2009)³, traz um diagnóstico da distribuição espacial do esforço de pesquisa biológica na região abrangida pelo Parque Nacional da Serra do Cipó, com base na bibliografia existente. O estudo corroborou uma tendência já verificada em outras unidades de conservação: que a coleta de material biológico ocorre em locais de acesso relativamente mais fácil, normalmente na proximidade de estradas ou trilhas bem marcadas. No caso específico da Serra do Cipó, foi evidenciada uma concentração das coletas nas proximidades da rodovia MG-010. Cerca de 75% dos registros foram obtidos próximo a estradas, enquanto apenas cerca de 17% foram obtidos no interior do Parque Nacional. Destes últimos, grande parte está próxima às sedes administrativas.

Phlegmariurus ruber, espécie categorizada como Criticamente em Perigo (CR), com ocorrência restrita a alguns poucos picos da Serra do Caraça. Foto: André Deberdt

A Serra do Caraça, situada na porção Sul da Cadeia do Espinhaço, região conhecida como Quadrilátero Ferrífero, abriga algumas das mais altas montanhas de Minas Gerais, com altitudes que superam os 2.000 m. Os cumes destas montanhas, que já costumavam ser visitados por religiosos desde o século XVIII e por montanhistas em tempos mais recentes, ainda abrigam diversas espécies endêmicas, raras e ameaçadas da flora, adaptadas ao microclima e às condições limitantes deste tipo de ambiente altimontano. Porém, a maioria está fora do alcance dos pesquisadores.

Somente em 1998 o biólogo e montanhista não assumido, Marcelo Ferreira de Vasconcelos, realizou coletas nestes locais, em altitudes superiores a 1.800 m, ocasião em que teve a felicidade de redescobrir a licopodiácea Phlegmariurus ruber, espécie facilmente identificada pelas suas folhas e caules de coloração vermelha, até então considerada como provavelmente extinta, devido à sua restrita área de distribuição e à falta de coletas recentes⁴. Junto com ela, outras novas espécies também foram coletadas e descritas posteriormente, boa parte restrita aos cumes de montanhas, dentre elas uma bromélia que recebeu o nome do seu coletor, Vriesea marceloi.

Em setembro de 2006, o pesquisador integrou uma expedição que partiu de Ouro Preto (MG) com destino à cidade de Diamantina(MG), com o objetivo de estabelecer a maior travessia a pé sobre montanhas do Brasil, realizar um levantamento preliminar da biodiversidade dos topos de montanha do Espinhaço e registrar a fauna, a flora e as paisagens ao longo dos caminhos percorridos. Após 22 dias e 416 km de caminhada, a expedição motivou a criação da Associação Montanhas do Espinhaço⁵, uma organização de base voluntária e sem fins lucrativos, que possui como objetivo a conservação dos ambientes de montanha ao longo da Cadeia do Espinhaço. Embora não tenha se concretizado, um dos projetos da associação era a “Grande Trilha do Espinhaço” que, anos mais tarde, em 2018, foi um dos motivadores para a criação da trilha Transespinhaço.

Não é, de forma alguma intenção deste texto passar a ideia de pesquisadores preguiçosos ou acomodados. Em muitas ocasiões, o deslocamento até as unidades de conservação já requer um grande investimento em tempo, dinheiro e energia. Ao chegar no local, pensar em se embrenhar por áreas remotas e ermas, nem sempre é a decisão mais sensata, o que motiva muitos pesquisadores a otimizar a logística para suas coletas, que acabam sendo realizadas em áreas mais próximas e acessíveis.

Trecho sinalizado da trilha de longo curso Transespinhaço, no interior do Parque Nacional da Serra do Cipó. Foto: Giselle Melo

Por outro lado, é cada vez maior o número de montanhistas que buscam os cumes e regiões mais intocadas, porém, a grande maioria sem o conhecimento necessário para distinguir uma espécie rara da flora ou da fauna em meio a tantas outras semelhantes. Neste sentido, podemos presumir que é mais fácil um pesquisador, com anos de experiência acadêmica, tornar-se um montanhista, e não o contrário, embora ambos compartilhem um sentimento em comum: a paixão pelo ambiente natural, suas paisagens e sua biodiversidade.

Fomentar o uso público de nossas unidades de conservação por meio de atividades, como o montanhismo, que possibilitam um contato mais responsável e menos impactante com o ambiente natural é, sem dúvida, uma das formas mais eficazes e baratas de promover a conservação. Além de despertar nas pessoas um vínculo afetivo e uma sensação de pertencimento com os locais visitados, também contribui para inibir atos ilícitos.

Fechar os olhos para a caça, a coleta furtiva de espécies vegetais, presença de gado, queimadas, entre outras tantas atividades que ameaçam nossas unidades de conservação é algo intolerável. Em um momento em que a falta de recursos humanos e financeiros necessários para garantir a integridade física de nossas áreas naturais torna-se crítica, poder contar com o apoio voluntário de pessoas de bem, dentre elas montanhistas e pesquisadores, é algo extremamente desejável. Cabe aos gestores das unidades de conservação abrir o caminho para que isso se concretize.

Referências:

¹ Programa Nacional para a Conservação de Espécies Ameaçadas de Extinção – Pró-Espécies

² Colunas publicadas em ((o))eco: “As trilhas de longo curso e as unidades de conservação: sinergia pela natureza” e “Pesquisadores se unem para dar rumo às trilhas do Brasil

³ MADEIRA, J. A. et al. Distribuição espacial do esforço de pesquisa biológica na Serra do Cipó, Minas Gerais: subsídios ao manejo das unidades de conservação da região. Megadiversidade, v. 4, n. 1-2, p. 255-269, 2008.

⁴ VASCONCELOS, M. F.; SALINO, A.; VIEIRA, M. V. O. A redescoberta de Huperzia rubra (Cham.) Trevisan (Lycopodiaceae) e o seu atual estado de conservação nas altas montanhas do sul da Cadeia do Espinhaço, Minas Gerais. Unimontes Científica, v. 3, n. 3, p. 45-50, 2002. Disponível no link (Acesso em 05/08/2020.)

Associação Montanhas do Espinhaço

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4 comentários em “Precisamos de mais pesquisadores montanhistas no Espinhaço mineiro”

  1. Gostei da reflexão sobre a forma de trabalho dos biólogos em campo. Sou botânico, faço doutorado na USP e trabalho com a flora da Cadeia do Espinhaço, em especial com as sempre-vivas. Também estou participando do Plano de Ação Territorial do Espinhaço Mineiro e vejo ali uma reunião muito positiva para pensarmos formas do desenvolvimento sustentável nessa região importantíssima para a biodiversidade e recursos hídricos.

    Eu concordo com a necessidade de se ampliar as áreas de coleta, saindo dos caminhos óbvios e de fácil deslocamento, indo a áreas pouco coletadas. Pessoalmente sempre busco isso, seja no 4×4, a cavalo ou a pé, com barracas no mochilão (esse último mais raro; é muita tralha pra carregar).

    Mas é importante também entender a forma de fazer pesquisa e também a realidade da pesquisa no Brasil. Muitos reclamam que a pesquisa não trás um retorno imediato, mas nesse projeto do PAT Espinhaço, estamos reunindo dados de mais de 200 mil registros para ter um melhor entendimento da biodiversidade vegetal nessas serras mineiras. Pra isso, usamos ferramentas de big data, com análises dos bancos de dados públicos da biodiversidade. É muita coisa que já foi coletada e esses registros são amostras de plantas conservadas nos herbários. São trabalhos de síntese, que fazemos em grupos de pesquisa, com zero ou muito pouco financiamento, nesses casos.

    Uma forma que eu achei legal, de integrar o conhecimento dos pesquisadores com o trabalho dos guias, foi um curso que dei na Serra dos Alves, organizado pela Dra. Lorena Oporto, justamente para os guias trocarem as suas experiências com os biólogos. Foi super legal e gostaria de repetir. De vez em quando ainda recebo algumas mensagens desses parceiros (mais que alunos), com fotos de plantas para eu tentar identificar. E assim seguimos!

    Grande abraço e parabéns pelo texto.

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  2. Excelente abordagem. Parabéns!
    No entanto, gostaria de saber se nesse grande projeto de trilhas de longa distância existem sub-projetos voltados para a pesquisa sobre as trilhas? Existe uma área específica do conhecimento, bastante difundida nos países centrais, a Ecologia da Recreação, que congrega profissionais não somente das ciências biológicas, mas também das geociências, engenharias, ciências sociais, ciências agrárias, entre outras áreas do conhecimento. No Brasil, dois eventos nacionais sobre o tema formam organizados até hoje, o I e o II Congresso Nacional de Planejamento e Manejo de Trilhas, realizados na década passada, na UERJ.
    O assunto é tema importante, contando nos EUA com um centro especializado, o Aldo Leolpold Wilderness Research Institute, sediado na Montana State University, além do extenso banco de publicações dos pesquisadores dos vários centros de pesquisa do US Forest Service, os dois com extensa contribuição à ER. As trilhas das grandes cadeias montanhas dos EUA e suas áreas protegidas são constantemente investigadas sobre a perspectiva da Ecologia da Recreação (Recreation Ecology). O campo de pesquisa da ER proporciona diversas técnicas internacionais de diagnóstico, monitoramento e manejo de trilhas. Sabe-se que as trilhas são não somente um elo entre as pessoas e a natureza, a via que possibilita esse contato, mas também, é um importante vetor de desequilíbrios ambientais, viabilizando, por exemplo, a introdução de espécies vegetais exóticas, efeitos de borda; o pisoteio advindo do trânsito de pessoas pode compactar o solo, suprimir a cobertura vegetal, destruir a camada orgânica superficial do solo no leito principal das trilhas, tornando a trilha um caminho preferencial para fluxos concentrados do escoamento hídrico superficial (runoff), potencializando processo erosivos concentrados (sulcos, ravinas e até voçorocas).
    Portanto, quem planeja e gerencia trilhas em áreas montanhosas deve conhecer a Ecologia da Recreação e suas contribuições, de modo a garantir um correto manejo, visando mitigar os efeitos ambientais negativos da abertura/sistematização de redes de trilhas.
    Segue link contendo uma amostra da produção científica da área de ER: https://www.researchgate.net/search.Search.html?t

    Caso queiram, posso ajudar no que estiver ao meu alcance.
    Att
    Múcio Figueiredo
    Geógrafo, Doutor em Geologia Ambiental e Conservação de Recursos Naturais.
    [email protected]

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    • Muito bem lembrado Múcio. Ainda não evoluímos a ponto de realizar pesquisas na área da ecologia da recreação, mas, iniciativas voltadas para o manejo das trilhas vêm sendo planejadas e executadas em alguns trechos já implantados. Um curso de capacitação em manejo de trilhas estava previsto para setembro na Serra do Cipó, mas teve que ser adiado devido à pandemia. No entanto, ainda não contamos com nenhum voluntário disposto a desenvolver pesquisas na área. Nesse sentido, sua ajuda será muito bem-vinda.

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