Clóvis Borges e Gilson Burigo Guimarães
Clóvis Borges é diretor-executivo da SPVS e Gilson Burigo Guimarães é professor associado do Departamento de Geociências da Universidade Estadual de Ponta Grossa

Parque Nacional dos Campos Gerais, a catedral dos campos naturais do Paraná

Clóvis Borges e Gilson Burigo Guimarães
domingo, 5 maio 2019 14:35
Águas do rio São Jorge, no Parque Nacional dos Campos Gerais, no Paraná. Foto: Valter Silvio Martins Filho/Wikiparques.

Reduzidos de maneira drástica pelo desmatamento e ampla utilização do território para atividades extensivas de agricultura e silvicultura, os ecossistemas de Floresta com Araucária e Campos Naturais se encontram em uma fatídica trajetória de desaparecimento da paisagem paranaense, acelerada nas últimas décadas. 

Mesmo com as limitações legais, especialmente demarcadas a partir do Decreto Federal da Mata Atlântica 750/93, que alcançava todo o estado do Paraná, a supressão de áreas naturais seguiu intensa, notadamente com avanços descontrolados sobre as últimas porções de Campos Naturais.

A força tarefa criada pelo Ministério do Meio Ambiente no início dos anos 2000 foi uma medida emergencial e absolutamente justificada, em função da necessidade de identificar os últimos remanescentes dessas formações naturais minimamente contíguos e em bom estado de conservação, proporcionando uma perspectiva de proteção de áreas onde a biodiversidade e a geodiversidade fossem mais expressivas. 

As Unidades de Conservação criadas à época representam, portanto, o melhor equacionamento possível de parte do poder público para a implementação de ações protetivas para esses ambientes extremamente ameaçados. Prova contundente da necessidade dessa medida é a constatação da continuidade da pressão de degradação que avança sobre os remanescentes de Floresta com Araucária e Campos Naturais ainda hoje, em locais onde existe uma maior fragmentação. 

Parque Nacional dos Campos Gerais. Foto: Emerson Oliveira.

O Parque Nacional dos Campos Gerais representa um ganho inestimável a toda a população brasileira, em especial pela proteção de áreas naturais contrastantes, inseridas na transição entre o primeiro e o segundo planalto paranaense, no domínio da Escarpa Devoniana. Um maciço ainda bem conservado de ambientes únicos está sendo mantido para as próximas gerações, abrindo espaço para o incremento sem precedentes de atividades de turismo de natureza, garantindo mananciais de água para as cidades próximas, protegendo espécies da flora e da fauna que não sobreviverão sem a presença dessas manchas mais expressivas ainda existentes.

Há, evidentemente, situações de conflito envolvendo um pequeno número de grandes proprietários que devem receber sim uma atenção do Governo Federal em busca de providências envolvendo indenizações pela criação do Parque Nacional. Uma prática corrente, da mesma medida do que ocorre em situações muito similares, como na implantação de grandes obras de infraestrutura, tais como usinas hidrelétricas, rodovias e ferrovias.

Cabe ressaltar que estamos tratando de um desafio que transcende questões pontuais de litígio. É preciso buscar uma aderência maior entre a extraordinária geração de riquezas que identifica essa região do Sul do Brasil, ao compromisso da sociedade em perpetuar os símbolos naturais que caracterizam o território.

A recente movimentação dos jovens de Ponta Grossa e municípios vizinhos em defesa da APA da Escarpa Devoniana deveria ser melhor interpretada pelas lideranças políticas e os empresários que representam o agronegócio. Há de se buscar uma conexão entre iniciativas de interesse público que estabeleçam relações saudáveis e sustentáveis, ancoradas em um verdadeiro “museu a céu aberto” que pertence a todos os paranaenses e brasileiros.

“Que essa pequena fração do território se consolide como a maior catedral natural dos Campos Gerais do Paraná”

A criação de uma Parque Nacional ultrapassa o ato da conversão de áreas privadas em públicas. Trata do reconhecimento e incorporação por parte da sociedade sobre a máxima relevância de uma porção de território, a ser mantida e desfrutada pelas gerações futuras, independentemente de qualquer tipo de condição particular ou passageira. É o registro de nossa identidade que é preservada na forma de bem público. Motivo de orgulho e de qualidade de vida, num arranjo de comum acordo em que a sociedade aporta um resultado maior de sua condição de gerar riquezas e perpetuar sua cultura.

Que essa pequena fração do território se consolide como a maior catedral natural dos Campos Gerais do Paraná. Que seja abraçada por sua população, em especial os jovens, garantindo sua plena implantação e manutenção e seu ingresso na agenda do turismo de natureza internacional. 

Um portal para que a pujança da agricultura e da indústria hoje existente construa uma relação de força em harmonia com um relicto de valor incalculável, de um registro da natureza que um dia cobriu a totalidade dessa região tão especial.

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.
Saiba Mais

O que são a Floresta com Araucária e os Campos Naturais? – Observatório de Justiça & Conservação

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3 comentários em “Parque Nacional dos Campos Gerais, a catedral dos campos naturais do Paraná”

  1. Caros Miguel e Carlos,

    De uma forma ou outra a solução da questão da regularização fundiária, por conta da criação de UCs, nunca foi uma agenda com a qual os ambientalistas discordaram. Muito ao contrário. Ressalte-se que nos últimos anos tem sido criados mecanismos de compensação ambiental que tem direcionamento pretendido para atender a essa premissa. Mas uma das observações do Miguel não deixam dúvidas quanto ao desinteresse do chamado ruralismo (ou o nome que seja mais adequado para identificar quem direciona as políticas do agronegócio e dos governos por extensão) em resolver adequadamente essa situação. Tudo aponta para um interessa maior na desafetação de áreas que hoje são UCs para o seu uso intensivo. Não há, dentro do enorme poder político que têm esse grupo setorial, um dedo de energia sendo gasto para resolver corretamente a situação fundiária dos parques e congêneres. A proposta, ao que tudo indica, nunca foi essa. Sobretudo no momento atual.

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  2. É uma tragédia isso tudo.

    Não teria sido melhor criar o Parque excluindo as áreas privadas já desmatadas? Assim não haveria esta confusão. Não conheço a região, mas conheço bem os Parques brasileiros. Aposto que nada mudou nessas propriedades desde que o Parque foi criado, até porque sem indenização seria inconstitucional.

    Trabalhei na criação de Parques onde extremistas insistiram em incluir grandes áreas de pecuária, que nunca serão indenizadas, quanto mais reflorestadas. Incluiram nesse Parques os íncubos de um conflito eterno, e agora que o pêndulo mudou de lado, talvez a semente de sua destruição. Para que?

    Quanto esforço os gestores de nossos parques não gastam "dando canseira" em proprietários não-indenizados, em processos que irritam mas estão destinados a fracassar? E se essa energia fosse direcionada para do que de fato é natureza virgem pertencente ao Estado?

    Nossos ambientalistas de gabinete tem que parar de criar parques de papel e começar a criar parques de verdade, em campo, em áreas sob as quais tem controle de fato e de jure.

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