George Schaller
Zoólogo e escritor. Conservacionista sênior da Wildlife Conservation Society

Os fantasmas dos Roosevelt – Parte I

George Schaller
domingo, 17 maio 2020 17:19
Theodore Roosevelt com o cadáver de um elefante, durante um safari, na África. Foto: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos/Wikimédia.

Theodore Roosevelt, frequentemente chamado por seus compatriotas de Teddy ou TR, foi o 26º presidente dos Estados Unidos da América, de 1901 a 1909. Eu passei a conhecer sobre o legado deixado por ele na conservação dos recursos naturais do país quando li sobre seu esforço obstinado através da criação de parques nacionais, monumentos naturais, florestas nacionais e outras áreas naturais, garantindo proteção federal a um total de 930.000 km². De uma forma bizarra, durante minha carreira de biólogo de campo em vários países, encontrei repetidamente os fantasmas de Teddy Roosevelt e de sua família, em vários contextos.

Enquanto estudava leões e outras espécies da fauna do Parque Nacional Serengeti, na Tanzânia, durante o final da década de 1960, fiquei sabendo sobre a Expedição realizada pelo Instituto Smithsonian à África. Depois de sair da presidência dos EUA em março de 1909, em menos de duas semanas Teddy viajou para o leste da África para caçar os grandes animais daquele continente. Ele e seu filho Kermit, então com 18 anos de idade, partiram do porto de Mombasa, no Quênia, com 250 carregadores. Eles caçaram principalmente no Quênia, mas também em Uganda, na parte leste do que era então o Congo Belga e Sudão. Teddy e Kermit mataram um total de 512 grandes animais, incluindo 11 elefantes, 17 leões (incluindo 2 filhotes pequenos), 7 guepardos, 9 rinoceronte brancos e 11 pretos, para citar apenas alguns desses animais sacrificados nesse ímpeto de destruição. Mesmo para aquela época, esse resultado foi considerado excessivo, e o efeito da sua atividade “esportiva”, cruel.

Em 1929, a expedição do Museu de Campo de Chicago (Chicago Field Museum) para a Ásia, liderada pelos filhos de Teddy Roosevelt, Kermit e Theodore coletou um pequeno veado escuro do gênero Muntiacus, na cadeia de montanhas Anamitas, no Laos. Era uma espécie nova, mais tarde batizada com o nome Muntiacus rooseveltorum, como uma homenagem à família. Durante as décadas seguintes, enquanto guerras civis e revoluções destruíam a região, não foram mais encontrados exemplares dessa espécie. Então, em 1994, quando meu colega William Robichaud e eu explorávamos as florestas nessas mesmas montanhas, nós notamos uma pele e crânio recentes de um veado pequeno em uma choupana de uma pequena aldeia. Coletamos amostras de DNA e enviamos para análise por George Amato, no Museu Americano de História Natural. Os resultados revelaram que essa era, realmente, a espécie desaparecida, não apenas encontrada novamente depois de 65 anos, mas ainda viva na natureza. 

Kermit Roosevel durante a expedição de 1913 no rio da Dúvida, na Bacia Amazônica. Foto: Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos/Wikimédia.

Quando nos anos 1980 meus colegas chineses e eu estudamos o panda gigante na China, era de nosso conhecimento que Kermit Roosevelt e seu irmão Theodore tinham matado um panda na mesma Província de Sichuan, não muito distante da nossa área de estudo, em 13 de abril de 1929. Eu havia primeiro ouvido falar de Kermit no início da década de 1950, quando eu estudava na Universidade do Alaska em Fairbanks, mas não sabia nada sobre suas aventuras. Em 1943, enquanto servindo no exército em uma base militar perto de Fairbanks, ele cometeu suicídio com uma espingarda.  

O Irã tinha um primeiro ministro democraticamente eleito pelo povo, Mohammad Mosaddegh, mas a administração do presidente Eisenhower não gostava de sua política. Kermit Roosevelt Jr., neto de Teddy, era o chefe da equipe da CIA que coordenou um golpe de estado que tirou o primeiro ministro do poder e instalou Mohammad Reza Shah como ditador daquele país, em 1953. Décadas mais tarde, os EUA ainda vivem as consequências políticas desse ato imprudente e vergonhoso. A animosidade entre o Irã e os Estados Unidos, bem como também as disputas políticas internas, interferiram recentemente nos meus esforços para ajudar a proteger os poucos exemplares remanescentes do guepardo asiático naquele país, os últimos de sua espécie.

Depois que Teddy Roosevelt sofreu uma derrota para Woodrow Wilson ao tentar a reeleição na presidência em 1912, ele estava caracteristicamente procurando por uma válvula de escape na forma de alguma aventura. À época, Kermit estava trabalhando com uma construtora no Brasil. Depois de dar algumas palestras na Argentina, no Brasil, e em outros países, Teddy ouviu falar de um rio desconhecido na Amazônia brasileira, chamado Rio da Dúvida, depois rebatizado Rio Roosevelt. Assim, Teddy descobriu a sua aventura, uma que quase acabou com sua vida. 

Os Roosevelt no Brasil

A expedição Roosevelt-Rondon, como foi chamada, deixou os Estados Unidos de navio em outubro de 1913, levando uma equipe de cientistas do Museu Americano de História Natural, de Nova York. Subindo o rio Paraguai, na divisa entre a Bolívia e o Brasil, eles se encontraram com um dos heróis brasileiros, o Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon. Juntamente com seu destacamento militar, ele havia construído uma rede telegráfica através da Amazônia, enquanto enfrentavam doenças, fome e apaziguavam tribos não-contatadas de indígenas. Da mesma forma que nos Estados Unidos, era costume os colonizadores e os militares naquela época matarem os índios ao menor sinal de hostilidade da parte deles, em confrontos. Em contraste à essa política, Rondon havia estabelecido o Serviço de Proteção ao Índio, com um nobre lema entre seus homens: “Morrer se preciso, matar nunca.” Em dezembro de 1913, o restante dos membros da expedição se juntaram a Roosevelt e Rondon na cidade de Corumbá, nas margens do rio Paraguai.

Da esquerda para direita, sentados: Zahm, Rondon, Kermit, Cherrie, Miller, quatro brasileiros, Roosevelt, Fiala. Expedição pelo rio da Dúbida. Foto: Wikimédia.

Desse ponto, eles se deslocaram até uma fazenda na beira do rio Taquari. Com uma matilha de cães treinados, eles acuaram uma fêmea de onça-pintada em uma árvore, que Teddy matou com um tiro. No dia seguinte, um macho grande foi acuado da mesma forma. “Com o tiro disparado pela arma de Kermit,” escreveu Teddy em seu livro publicado em 1918 Nas Selvas do Brasil, “a onça caiu como um saco de areia através dos galhos.” Matar onças-pintadas ou onças-pardas, estas também chamadas de pumas, quando acuadas em árvores, em que esses felinos sobem para escapar dos cachorros que as perseguem, ainda permanece como a forma mais usada para esse tipo de caçada, e é tão esportiva como matar esses animais em um zoológico. Para compensar, Teddy menciona, de passagem, que achou “a sua carne boa para se comer.” Os dois intrépidos caçadores não gostavam dos jacarés e, portanto, atiravam constantemente neles do barco. “Os brutamontes horrendos ficavam deitados nas praias do rio como troncos…” Para justificar essa atitude condenável, eles alegaram que os jacarés “são com frequência perigosos para os animais domésticos, e destroem os estoques de peixes, portanto era bom que fossem mortos.” No rio Taquari “nós matamos centenas dessas criaturas abomináveis”, deixando seus corpos para apodrecer, sem usar nada como troféu, alimento ou o couro. 

Como tantos outros caçadores, Teddy e Kermit Roosevelt tentavam justificar essas matanças alegando que estavam livrando o planeta de criaturas perigosas ou denegrindo a sua existência. Além disso, faz com que eles pareçam mais viris, como uma expressão de uma ‘vigorosa masculinidade’, conforme expresso por Teddy. Em seu excelente livro publicado em 2015, Theodore Roosevelt in the Field, o autor Michael Canfield descreve Roosevelt várias vezes nesse tema. Que na África “o leão era o rei e que seu reinado era cruel.”  Que a grafia da espécie de urso ‘grizzly’ deveria ser ‘grisly’ — que significa horrível.” O bisão é “uma fera de aspecto sombrio”, e, como observado por Canfield, que Roosevelt “estava determinado a matar um antes que a espécie fosse exterminada.” A sua perseguição dos poucos rinocerontes brancos remanescentes em Uganda foi justificada para ele mesmo da mesma forma. Teddy parecia incapaz de se conter quando o impulso de caçar tomava conta dele. Ele matou 5 hipopótamos em uma única poça. Ele matou 14 pumas e 9 linces em uma viagem ao Colorado, e queria caçar mais pumas dentro do Parque Nacional Yellowstone mas foi dissuadido. Ele era uma complicada contradição entre um caçador descontrolado e um conservacionista. Não é à toa que Mark Twain disse que “ele ainda tinha apenas quatorze anos depois de ter vivido meio século.”

À época da expedição Roosevelt-Rondon, como ainda hoje, a maior parte do Pantanal era dividida em fazendas particulares de pecuária. A expedição continuou subindo o rio Paraguai, entrando em um de seus afluentes, o rio São Lourenço (hoje mudado para rio Cuiabá). Eles subiram esse rio até uma grande fazenda, chamada São João, onde eles ficaram por vários dias.

“À época da expedição Roosevelt-Rondon, como ainda hoje, a maior parte do Pantanal era dividida em fazendas particulares de pecuária.”

Na fazenda São João, Teddy e Kermit caçaram onças-pintadas novamente, dessa vez sem sucesso. Na verdade, Teddy era um bom naturalista que se encantava com a enorme e variada vida animal do Pantanal, como mostra essa citação de seu livro, quando viajando pelo rio São Lourenço: “As anhumas, de um cinza-escuro e tão grandes como perus, se empoleiravam nos galhos mais altos das árvores. Araras-azuis gritavam quando voavam por cima do rio. Entre as árvores havia jacutingas, outra espécie interessante de ave, maior que um faisão. Um jacaré morto flutuava na correnteza, enquanto um urubu-preto o devorava. Capivaras pastavam ou se descansavam nas margens …”  Em seu livro, Michael Canfield descreve muito bem como Teddy, desde a infância, mantinha registros de suas observações sobre os animais.

Desse ponto, a expedição Roosevelt-Rondon chegou pelo rio Paraguai à cidade de Cáceres, no extremo noroeste do Pantanal. Logo depois, a quantidade enorme de equipamentos foi levada por mulas e carros de boi para o norte, passando por comunidades ainda hoje existentes: Tapirapuã, Utiariti, Juruena, e José Bonifácio, esta última próxima à nascente do Rio da Dúvida. 

A expedição pelo Rio da Dúvida

Quando a expedição Roosevelt-Rondon, contando com 22 homens e 7 canoas feitas de troncos (duas delas vazando água) começaram sua descida de dois meses do Rio da Dúvida em 27 de fevereiro de 1914, a equipe não tinha ideia da distância que teriam que viajar e das dificuldades que iriam enfrentar. Eles encontraram muitos perigos e adversidades, sem dúvida mais do que haviam antecipado. Incontáveis corredeiras e cachoeiras foram um problema à parte. As canoas pesadas e desajeitadas tinham que ser baixadas com cordas em algumas das corredeiras mais perigosas, ou eles podiam arriscar e tentar descer embarcados. Várias delas foram perdidas ou quebradas. Isso significava um atraso de vários dias procurando e cortando uma árvore da espécie adequada e trabalhando arduamente fabricando uma nova canoa, usando as ferramentas toscas de que dispunham. Um dos camaradas, como eram chamados o pessoal local, morreu afogado em uma das correntezas. Frequentemente, a equipe tinha que abrir caminho pela mata para uma portagem dos barcos e da bagagem para circundar uma cachoeira. Troncos roliços tinham que ser cortados para que os barcos pudessem ser rolados por cima, puxados e empurrados ao longo da trilha feita. Era um trabalho exaustivo. Faltou comida e a floresta oferecia surpreendentemente muito pouco, em forma de caça, para suprir essa demanda. Por sorte, em alguns lugares, a pesca era boa. “Apesar disso, era bom estar na grande floresta silenciosa”, escreveu Teddy Roosevelt. Um dos camaradas foi pego roubando comida. Quando interpelado, ele acabou atirando e matando outro. A expedição abandonou o assassino na floresta, que foram, assim, o segundo e o terceiro membros a morrer. Minúsculas moscas pretas ou pium, mosquitos, abelhas, formigas-saúvas, e outros insetos atormentavam os homens. Em meio a tudo isso, Teddy cita que ele pelo menos ainda tinha um “lindo surucuá e uma maravilhosa pequena saíra” para admirar na floresta. Havia ainda a preocupação com um ataque com flechas envenenadas pelos índios Nhambiquara ou outras tribos. Para lembrar o risco da presença dos índios, um dos cachorros da expedição foi morto a flechadas quando se afastou do acampamento.

“Teddy havia aberto um corte grande em sua perna em uma pedra, que pegou uma infecção.”

No momento da partida, Teddy Roosevelt escreveu em seu livro que eles entrariam em “um mundo selvagem desabitado ou habitado apenas por selvagens hostis, onde o fracasso de atravessar suas terras significaria a morte por doença ou por fome.” Sua previsão quase se tornou verdadeira. Teddy havia aberto um corte grande em sua perna em uma pedra, que pegou uma infecção. Ele e Kermit, além de diversos outros membros da equipe ficaram quase incapacitados com malária e quase morreram. “Roosevelt ficou deitado imóvel no fundo da canoa, filtrando versos antigos do fundo do seu cérebro delirante e os recitava em voz alta, enquanto flutuávamos rio abaixo,” conforme descrito por Michael Canfield. Mas finalmente, depois de 48 dias, eles chegaram a uma parte do rio habitada por seringueiros. E na confluência do Rio da Dúvida com o Aripuanã, em um lugar chamado Castanho, um time de resgate esperava por eles. Os rios são agora navegáveis e em poucos dias, em 10 de abril de 1914, eles chegam na segurança da cidade de Manaus, na beira do Amazonas. A expedição retorna para os Estados Unidos em meio a grandes celebrações, tendo viajado e mapeado cerca de 600 km de um rio previamente desconhecido.

Diversas expedições, em anos recentes, tem descido diferentes partes do Rio da Dúvida, agora com o nome de Rio Roosevelt. Foi com base nessa sua viagem ao Brasil em 1913 e 1914 que eu pude repetidamente explorar o seu passado no presente, quando estudei a fauna desse país a partir de meados da década de 1970. E foi na fazenda São João que pela primeira vez eu andei mais próximo das pegadas de Teddy e Kermit.

 

*Tradutor e Colaborador: Peter G. Crawshaw Jr. Edição: Bernardo Araujo. 

 

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4 comentários em “Os fantasmas dos Roosevelt – Parte I”

  1. Adoré leer esa reseña. Gracias por publicarla. La personalidad compleja de Theodore Roosevelt no le es exclusiva. Muchísimos cazadores se transformaron a grandes y famosos protectores de la naturaleza y, otros, menos, como Roosevelt, mantuvieron la dualidad de cazar y proteger al mismo tiempo. Hay que recordar que, a pesar de matar números en exceso, él en la época en que vivió, no puso ninguna especie, ni siquiera el rinoceronte blanco, en riesgo de extinción. Finalmente, Roosevelt prácticamente inventó los parques nacionales modernos.

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    • Marc, lendo matérias suas eu imaginava que você soubesse que caçadores esportivos amadores NÃO se transformam em protetores e que NÃO há dualidade entre caçar e proteger. TODOS, SEM EXCEÇÃO, caçadores amadores são ecologistas e os maiores protetores da fauna no mundo inteiro.

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      • Que viagem em Carlos. "maiores protetores da fauna".
        Conheço muitos e muitos protetores da fauna, que se lascaram em defender a vida selvagem , conseguindo muitas vezes , tanto defender os mesmos como os seus habitats e nunca foram caçadores .

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  2. É covardia fazer uma análise dessa completamente fora do contexto histórico. Roosevelt é um herói da conservação, praticamente inventou as UCs e criou inúmeras áreas protegidas em uma época que isso parecia idéia de maluco. Daqui a pouco estão publicando críticas ao Coimbra Filho por ele ter coletado algum primata. Tem muito vilão por aí, deixe nossos heróis em paz, são tão poucos .

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