Observações constrangedoras de uma ecoturista em Fernando de Noronha
Adriana Castro
Instrutora de mergulho, agente de turismo e autodidata na busca pelo desenvolvimento do ecoturismo.

Observações constrangedoras de uma ecoturista em Fernando de Noronha

Adriana Castro
quinta-feira, 1 dezembro 2016 0:06
Fernando_de_Noronha
Pôr do Sol em Fernando de Noronha. Foto: Bruno Melo/Wikiparques

Fazia 19 anos que eu não ia a Fernando de Noronha. Olhando a ilha na aterrissagem, semana passada, concluí que é uma das aproximações mais bonitas que já vivi. A ilha, Patrimônio Mundial Natural da UNESCO, é majestosa. Não deve nada aos melhores destino do planeta.

Chegando lá, peguei a bagunçada fila para comprovação de pagamento da famosa Taxa Ambiental de R$ 64,00 por dia. Mais tarde, efetuei o pagamento de mais uma taxa, a do Parque Marinho, de R$ 89,00. Esta é válida por dez dias. Meu objetivo principal na viagem era o mergulho. Em uma semana, fiz onze no total, combinados com trilhas pelas praias deslumbrantes e também visita a alguns ótimos estabelecimentos turísticos. Como simples observadora, e sem conhecimento suficiente para tirar conclusões, fui embora da ilha com meu encanto misturado a preocupação, além de observações sobre a incoerência de um destino tido como “paraíso ecológico”.

Em terra, na parte mais urbanizada há bastante lixo sem coleta e bueiros abertos. Não há gestão adequada de descarte e, muito menos, coleta seletiva. No mar, de azul intenso e visibilidade que atingiu os cinquenta metros em um ponto de mergulho, é notório que a vida marinha diminuiu drasticamente. De fato, vi muitas tartarugas e barracudas. Golfinhos presentearam nosso grupo com uma aparição em enorme quantidade de indivíduos durante um dos mergulhos. Mesmo assim, percebi um declínio significativo de outras espécies em comparação à minha primeira estadia em Noronha.

Em 1997, lembro-me bem da Laje Dois Irmãos cheia de tubarões bico-fino. Vi apenas dois este ano por ali, e poucos em outros pontos. Além disto, percebi o fundo em grandes áreas coberto por uma única espécie de alga, formando um grande carpete verde. Não era assim antes. Questiono, portanto, se o limite do Parque Marinho e as restrições dentro deste são suficientes para que haja efetiva preservação das espécies marinhas.

“No mar, de azul intenso e visibilidade que atingiu os cinquenta metros em um ponto de mergulho, é notório que a vida marinha diminuiu drasticamente”

Considero que o grande intervalo de tempo entre minhas duas viagens ao local não justifica a diminuição da fauna, principalmente quando comparo com lugares como Raja Ampat, na Indonésia. Há dois anos estive lá em um ecoresort de mergulho que triplicou sua “no-take zone” (zona de nenhuma extração, em tradução livre). Estabelecida em 2005 e inicialmente com 425 km², era um local onde havia shark finning. Hoje dorme-se em bungalows sobre a água, com tubarões galha-preta, dentre muitas outras espécies, nadando sob eles. Sua Área de Conservação Marinha agora engloba 1.220 km² e, como o termo define, nenhum tipo de captura é permitido, com fiscalização feita por guarda-parques contratados e treinados pela Fundação de Conservação Marinha mantida pelo resort e pela equipe de mergulho (muitos destes, antigos pescadores). Tive a oportunidade de presenciar uma abordagem a um pescador próximo ao ponto onde estávamos, que fugiu antes mesmo de pegar qualquer peixe. Pesquisadores em Conservação Internacional afirmam que houve um aumento de 250% na biomassa de peixes na região em apenas 5 anos. É admirável! E ainda mais por ter sido um local que sofreu com a sobrepesca no passado, chegando a ameaçar tubarões e raias-manta (hoje assíduas nas estações de limpeza que se tornaram pontos de mergulho), além de espécies das quais a população local costumava se alimentar. Não é a toa que Raja é um dos melhores destinos de mergulho do planeta.

Mas e as ações em Fernando de Noronha? Bem, lá servem bolinho de tubarão no Museu do Tubarão. Um estabelecimento que, aparentemente tem por finalidade promover o conhecimento sobre os mesmos, incentiva o consumo da carne do animal, mesmo este sofrendo quedas drásticas em suas populações por causa da pesca.  A “iguaria” está presente também em alguns restaurantes. Também é permitido fazer turismo de pesca esportiva. São atividades ilegais? Não, se a pesca for feita fora dos limites delimitados e obedecendo às restrições. Mas, novamente, seriam estes limites do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha e da APA, e suas restrições suficientes? São realmente respeitados? Há fiscalização? Independentemente da legalidade e fiscalização das atividades, não me parece coerente que aconteçam em um “paraíso ecológico”. E pelo que observei e ouvi, a resposta é não para as três perguntas.

Minha estadia na ilha terminou com um diálogo no mínimo esdrúxulo na fila da companhia aérea. Observando pessoas despachando caixas de isopor, eu e minha amiga perguntamos ao homem atrás de nós o que havia dentro delas. Ele prontamente respondeu: “Peixes”. Questionamos: “É mesmo? Você pescou em alto-mar?”. Ao que ele sem o menor constrangimento (aliás, espantado) responde: “Não, nas praias mesmo, nas pedras”.

Dá assim para imaginar o que deve ocorrer em relação à pesca industrial no entorno do Parque Marinho e Área de Proteção Ambiental, que vem sendo denunciada há anos, embora por poucos. E também o que se passa dentro da unidade de conservação, considerando o diálogo acima e o sumiço repentino de dois meros que habitavam as águas dali.

Será que vamos viver o dia em que o Brasil vai acordar e tomar conhecimento do valor que tem o patrimônio natural preservado? Será que a indústria do turismo, que deveria ser a maior interessada nisto, vai agir?

 

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30 comentários em “Observações constrangedoras de uma ecoturista em Fernando de Noronha”

  1. Se o Governo Federal está aberto a tercerizar serviços em Unidades de Conservação, como já é o caso de Fernando de Noronha, só deveria permitir esse tipo de prática a partir de uma condição plena de condições de proteção do patrimônio natural dessas áreas. Hoje praticamente apenas o PN do Iguaçu e Fernando de Noronha apresentam "rentabilidade", o que proporcionou contratos com empresa privada para garantir um receptivo adequado bem como a venda de serviços no interior da Unidade. A gestão das UCs continua sendo responsabilidade do ICMBio. Mas é notório que a capitalização de ingressos não corresponde ao incremento que esses parques deveriam estar recebendo em relação a instrumentos mínimos de conservação, o que inclui a fiscalização e o controle. E a educação, premissa básica para quem visita uma Unidade de Conservação. Cabe uma pergunta ao poder público, que cada vez mais está com uma tendência de liberar as UCs para serviços tercerizados: trata-se da viabilização de um bom negócio, onde o atendimento a prerrogativas mais refinadas fica de fora das prioridades, ou se preconiza um real incremento na gestão dessas áreas? Iguaçu e Noronha deveriam representar, pelo menos esses, um exemplo de excelência do Brasil para o mundo. Mas isso ainda está muito longe de ocorrer.

  2. A concessão não significa nem um pouco que o objetivo principal da UC (conservação da biodiversidade) seja alcançado. Pelo contrário, pode até atrapalhar quando a empresa está apenas interessada no lucro. Ao falar que isso é cargo do ICMBio, os modelos de concessões deveriam favorecer também esse órgão e não virar apenas um grande negócio para uma empresa, como está caminhando no Brasil.

    • É a mesma que explora o PN Iguaçu. Cada UC tem sua realidade para para diferentes tipos de terceirizações, mas o fundamental é o quadro de pessoal do ICMBio e recursos para gestão.

  3. Não foi falta de aviso. Apesar de evidentes melhorias com a concessão de serviços do Parque Nacional, a sobrepesca industrial do entorno, aliada ao descaso e cumplicidade geral com a venda de "bolinho de tubarão" na ilha, fazem do nosso maior "paraíso ecológico" um vexame e uma imensa oportunidade perdida. Quem sabe os atores sociais relevantes de Noronha resolvem, um dia refletir e tomar as providências necessárias pra que isso deixe de ser assim… mas confesso que não tenho muita esperança não.

  4. Boicote…pode soar loucura mas um duradouro boicote (ao menos um ano) certamente causaria um"bom impacto" no conjunto da obra de Noronha…
    E ao menos daria uma folga para a fauna e flora sub e terrestre…

  5. Estou triste. Conheci Noronha ainda virgem, lá coordenei o primeiro levantamento ambiental da ilha nos idos de 1986, ainda sob a guarda do EMFA, quando ainda se mergulhava com os golfinhos e se tirava do mar peixes de 120 kilos. À epoca lagosta era considerada uma espécie de barata do mar, e presenciei um conclave de milhares de lagostas dentro de um naufrágio na baía de Santo Antonio. Vi os pescadores secando filés de turbarão em kilometros de varal, sob o nome "tubalhau", e alertei que isso não era viável. Ouvi o indefectível e desdenhoso " Não acaba, não…Tem muito…" . E assistia o por do sol todo o final de tarde do cume do pico, porque tinha uma escada enferrujada até o topo. Está rudo na minha lembrança. Agora com esse relato eu fico muito triste.

  6. O Museu do Tubarão é uma aberração que já deveria ter sido fechada faz tempo.
    Quando me perguntam se vale visitar Neuronha pergunto de volta se a pessoa é observadora de aves e quer tanto assim ver as duas aves endêmicas. Caso contrário sugiro que não gaste seu dinheiro com um lugar onde exploram o turista, e não turismo e o manejo… Deixa pra lá.
    Melhor gastar seu dinheiro nas ABCs ou nas Bahamas, onde os tubarões são protegidos.

  7. O dono do Museu do Tubarão, o mesmo que criou o Bolinho de Tubalhau e pescou toneladas de tubarão no entorno da ilha da década de 90, agora está jogando espinhel na área do Parque (sim, dentro do Parque) para levar turistas para verem tubarão capturados, sob pretexto de pesquisa. Atividade, esta, que deveria ser restrita a pesquisa puramente, tendo em vista os danos (e até morte pós-soltura) que causam aos indivíduos que são capturados.

  8. Em 2015 propusemos através do Divers for Sharks a criação de um Santuário de Tubarões em Noronha, proibindo o desembarque e a venda de tubarões e raias no arquipélago e criando um atrativo para o mergulho com esses animais ameaçados. Conversamos longamente com o proprietário do Museu do Tubarão, encaminhamos o tema à administração distrital, Governo do Estado, mas foi tudo pra gaveta. Apenas a Águas Claras, operadora tradicional e pioneira de Mergulho em Noronha, se posicionou a favor. Uma pena, mais uma oportunidade perdida num país especializado em estrangular as galinhas dos ovos de ouro que ainda ciscam por aqui. .

  9. Isto é só a ponta do iceberg. A ilha está sendo vendida para grandes empresários usarem como máquina de lavar dinheiro. O Estado de Pernambuco está autorizando um monte de grandes pousadas e bares na praia e o ICMBio está cúmplice nesta jogatina. Mas a Administração e o ICMBio não deixam os ilhéus fazer uma casinha. Para nós é cheio de exigência do ICMBio, do CPRH, do IPHAN, etc…Até artista da globo já é morador permanente e tem pousada em FN.
    O que Noronha merecia era uma boa reportagem nacional mostrando este paraíso fiscal que se tornou nossa ilha.

  10. Eu amo Noronha. Fiz amigos nas 9 vezes que visitei a ilha desde 2005. E por ir, quase que anualmente, percebo todas as transformações e, infelizmente, para o lado ruim. A administração é medíocre! Ruas esburacadas. Excesso de burocracia com coisas simples para moradores comuns e excesso de permissão com moradores "famosos" e que são associados a grandes empresários. Nas últimas 3 vezes que fui não vi golfinhos quando o barco passou pela Baía dos golfinhos, eles agora estão aos montes nas ilhas secundárias! Por que isso está acontecendo? O bar na praia do meio que era acanhado e rústico (a cara de Noronha), agora toca música alta e tem luzes como uma balada! Quando estive lá este ano, em abril, ouvi de moradores a respeito da precariedade do hospital! Tanto para quem mora lá… Quanto para o turista! Estava sem raio-x… A pergunta é: Pra que bolso está indo esse dinheiro todo arrecadado com a TPA? A administração deveria ser eleita como prefeitura…. Que os moradores pudessem participar! É um destino maravilhoso… Dos mais lindos do mundo… Mas não está tendo o cuidado que merece….. Infelizmente….

  11. Fui em fevereiro deste ano (2016). A ilha está um Lixo. Ruas esburacadas, sujas, fiquei mt decepcionado por se tratar de um patrimônio ecológico. Deveria ser um exemplo.
    Mas eh Brasil, neh?!

  12. Concordo plenamente!
    Em 1996, mergulhei pela primeira vez em Noronha. O que se via era um ambiente de tamanha beleza selvagem, com uma vida marinha abundante e intensa.
    Voltei em 2012 e depois em fevereiro deste ano. Em ambas ocasiões, constatei que o comércio e o "progresso" estão degradando esse paraíso.
    Enfatizo que o Caribe, em algumas de suas ilhas, apesar da água ter grande visibilidade e temperatura ótima para o banho e o mergulho, a vida marinha é um tanto escassa.
    Se não cuidarmos agora, Noronha, que em nada perde para o Caribe, estará à sua altura também nessa questão, ou seja, a fauna marinha estará ainda mais comprometida.

  13. Poie é… mais fácil mesmo é mudar de roteio e ir veranear em Fiji ou Vietnã… Arregaçar a manga e propor soluções baseadas em uma compreensão de que as pessoas que estão lá gerindo o patrimônio tem pouco aporte de recursos e menos ainda poder político frente ao que ocorre deslavadamente em todo o país é mais difícil. Melhor é jogar a pedra, deixar de ver que temos um histórico de que as pessoas detestam conservação, detestam o verde, detestam que ponhamos limites em sua "propriedade privada". O parque deveria mesmo ser melhor. Os parques deveriam, As unidades de conservação mais além de parques deveriam. Mas quem quer pagar por isso? E pagar não só no sentido monetário, sentido de assumir que para que dê certo necessita não só mão de ferro, mas acordos e viabilidades de ganhar grana em outras áreas.

  14. Fiscalização ??? Piada, este é apenas um exemplo das UCs federais pelo Brasil afora, a fórmula é simples: falta recursos humanos e logísticos para a fiscalização, assim investimos em uma gestão socioambiental capenga e míope, onde a legislação ambiental é adaptada a diversos interesses, vira muleta, porém a contínua falta de fiscalização e precariedade dos Órgãos gestores desacredita o pouco que a gestão socioambiental capenga consegue, logo a dura realidade salta a olhos vistos, por mais que muitos precisem se enganar que as coisas estão melhorando… mas fácil ser hipócrita.

  15. Concordo com algumas coisas, tais como fiscalização da pesca, tanto esportiva, como envio de peixes para o continente em caixas de isopor (também vi isso)… iguarias de tubarão… Assim como a questão do lixo que não é levado à sério pela administração… Falta educação ambiental da população, falta coletores de lixo, … Uma gestão adequada como um todo… Porém os turistas e eventos Especiais (ex WQS) colocam o seu lixo nas lixeiras… Mas falta investimento nesta área… Com tanta taxa ambiental, onde vai esse dinheiro todo???? Fiscalização quanto as leis… Existem restrições de algumas embalagens de bebidas… Uso de copos / pratos / talheres descartáveis em embarcações… Uso de protetor solar que não são biodegradáveis no atalaia (falta distribuição/venda do produto adequado)… E acrescentando mais um comentário: não sou contra pagar taxas ambientais desde que seja aplicado em prol do meio ambiente… Mas os valores absurdos de mergulhos e aluguel de bugues é impressionante o q as empresas cobram… O valor do mergulho é o dobro do caribe ou outros… O bugue na temporada é 4 vezes o valor de um carro… E pra terminar não concordo com a crítica do "declínio significativo de outras espécies", porque é uma conclusão baseada em duas viagens isoladas e pontuais… Precisa de pesquisas complexas em diversos pontos e diferentes épocas ao longo de anos para afirmar isso… Ainda mais se comparar com outro local na Indonésia!!!!???

  16. Fico muito feliz com o seu relato, pois foi exatamente a indignação que senti ao visitar a ilha este ano!
    Como mergulhadora achei que eu não tinha dado sorte… apesar de no fundo acreditar que é má gestão mesmo e falta de educação ambiental de fato.
    Parabéns pelo texto!!

  17. Estive na ilha quatro vezes sempre para mergulhar e também testemunhei uma queda significativa no número de peixes. Os cardumes de antigamente não aparecem mais. Acontece muito infelizmente não só no Brasil, um local viver mais de sua fama e suas belezas naturais sem a menor preocupação com preservação do meio ambiente.

  18. Colocações Pessoais de uma Moradora de Fernando de Noronha

    Meu nome também é Adriana e meu apelido também é Drica, exatamente como os da autora desse texto. Mas acho que temos visões diferentes sobre essa mesma ilha 😉 e por isso peço licença ao O Eco, e a autora, para fazer as minhas colocações pessoais sobre esse artigo.

    Assim como a autora, também tenho como paixão o mergulho autônomo, tanto que em 2001, depois de uma viagem de 11 dias de mergulho em Noronha, decidi me mudar de “mala e cuia” para a ilha para trabalhar ajudando visitantes estrangeiros a organizarem suas viagens para a ilha devido a barreira da língua (ainda maior naquela época … com pouquíssimas pessoas da ilha falando inglês, e quase nenhuma sinalização em outra língua …).

    Na época, existia apenas a Taxa de Preservação Ambiental, e nem tínhamos a opção de pagá-la online, então essa fila que a autora menciona hoje, era ainda mais bagunçada naquela época 😉
    Hoje pelo menos o visitante conta com a opção de pagar essa taxa online e ir para uma fila geralmente mais curta, coisa que ajudou bastante o processo de chegada dos visitantes nos últimos 10 anos. Além da TPA, visitantes de Noronha também precisam pagar o Ingresso ao Parque Nacional Marinho (esse também disponível para pagamento online) para terem acesso as áreas do Parque (cerca de 70% da área da ilha).

    Muitos reclamam de existir mais uma taxa em Noronha, (implementada em 2012 de acordo com a licitação) mas pelo menos hoje, esses pontos de controle de acesso ao parque contam com banheiros limpinhos, alguns armários para armazenagem de mochilas e objetos pessoais, lanchonetes com estoque de água mineral (e até salada de frutas) sem falar nos chuveiros para os visitantes poderem tirar o sal do corpo antes de seguirem para um restaurante local. Ainda me lembro do banheirinho triste (sem nenhuma manutenção apropriada) que ficava no quiosque próximo a escada de acesso a Praia do Sancho quando cheguei em Noronha e dele não sinto saudades nenhuma …

  19. Saudades, sinto eu de muitas outras coisas … aliás isso é bem comum em Noronha, tanto por parte dos moradores mais antigos, quanto por parte dos mais novos como eu. Uma nostalgia e um saudosismo sempre presentes, mas isso é para uma outra história 😉

    Mas sinto mesmo saudades (e muita!) da outra empresa que cuidava da gestão da Usina de Tratamento de Lixo, logo que cheguei a ilha. Sei que nenhuma empresa é perfeita, e provavelmente essa também tinha lá seus defeitos, mas o que eu posso dizer é que em época de chuva, os sapos que morriam atropelados na BR-363 aos montes eram retirados pelos funcionários dessa empresa logo na manhã seguinte. As laterais da BR eram frequentemente pintadas e estavam sempre branquinhas, as lixeiras verdes e vermelhas estavam ainda em boas condições, talvez por serem novas, mas mesmo assim eram coletadas com frequência, e o lixo perecível não cheirava mal perto dos restaurantes, como hoje acontece. Mas posso afirmar que algo com relação ao sentimento de descaso e abandono da autora sobre os resíduos sólidos de Noronha, já está sendo feito. Um projeto com melhorias na atual gestão dos resíduos sólidos e na própria usina tem sido apresentado para os vários Conselhos da ilha pelo Departamento de Meio Ambiente da Administração de Noronha – ATDEFN (Autarquia Territorial do Distrito Estadual de Fernando de Noronha), inclusive hoje mesmo, 8 de Dezembro esse assunto foi abordado na Reunião do CONTUR de Noronha pela manhã. Esse projeto de reforma da usina também está disponível online: http://www.pe.gov.br/mobile/blog/2016/07/14/ferna

    Esse projeto conta com campanhas de educação da comunidade local sobre descarte adequado de resíduos sólidos, instalação de novas lixeiras adequadas para coleta seletiva, pontos de coleta seletiva para objetos maiores e entulhos de obras, entre outras ações. A comunidade, e participantes dos Conselhos, como o CONTUR, Conselho do Parque Nacional Marinho e APA, estarão acompanhando o andamento desse projeto fundamental não apenas para a qualidade do turismo de Noronha, mas para a qualidade de vida dessa comunidade aqui inserida.

    Comunidade essa hoje, composta por moradores que organizados através de suas associações, participam desses mesmos conselhos e suas reuniões, dando suas opiniões, e representando as suas classes: uma conquista do associativismo local que evoluiu bastante em Noronha desde a minha chegada. Essas mesmas reuniões, no passado, serviam de palco para desabafos pessoais, agendas individuais, e era difícil demais avançar em questões coletivas visando a evolução de Noronha. Principalmente porque a ilha, além de ser a casa de uma comunidade inteira que vive praticamente (direta ou indiretamente) só do turismo, é também a casa de 2 unidades de conservação, uma base da forca aérea brasileira, casa de fortificações (além de um imenso patrimônio histórico) protegido pelo nosso IPHAN, e com o solo gerido pela SPU (Secretaria de Patrimônio da União). “Eita” ilhazinha complexa de se administrar … mas o importante é que esses mesmos fóruns de discussão hoje também evoluíram bastante, andam mais maduros, e mais objetivos, apesar de terem ainda bastante coisa para melhorar e afinar, mas temos que dar crédito aos avanços já conquistados, até mesmo para renovarmos a esperança, e não desistirmos de continuar participando e fazendo a nossa parte, por menor que ela seja …

  20. eu já tinha sentido isto nos anos 90 quando passei uns 4 meses na ilha, saí de lá achando que era melhor ter deixado a ilha como base militar sem permitir acesso. Mas a coisa começou muito antes, ainda quando era prisão, o diretor da prisão um dia mandou queimar toda a vegetação da ilha para que nenhum preso se escondesse … imagina o resultado …

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