Mário Tagliari, Juliano Bogoni, Carlos Peres e Nivaldo Peroni
Mário Tagliari, Juliano Bogoni, Carlos Peres e Nivaldo Peroni são pesquisadores*

O que memes, araucárias, pinhões e conservação têm em comum?

Mário Tagliari, Juliano Bogoni, Carlos Peres e Nivaldo Peroni
quarta-feira, 12 agosto 2020 10:13
A imponência das araucárias em uma área remanescente de Floresta Ombrófila Mista, nos faxinais da região de Guarapuava, Paraná. Foto: Mário Tagliari.

Meme é um conceito brilhantemente cunhado pelo biólogo evolutivo e entomologista Richard Dawkins. Em 1976, Dawkins escreveu uma de suas maiores obras: O Gene Egoísta. Neste livro, meme foi definido como uma unidade de informação que se multiplica de cérebro em cérebro, ou seja, de pessoa em pessoa dentro de uma determinada cultura. A sua continuidade pode ser mantida pela escrita, fala, rituais, simbolismos ou atualmente, pela internet. Em resumo, uma vez surgido o meme, sua ideia pode se autorreplicar. O fenômeno dos memes em redes sociais mundiais não se deve a criatividade de quem os fez, mas sim à sua autorreplicação no mundo virtual.

Mas e as araucárias? Bem, dentro do domínio subtropical da Mata Atlântica, existe uma fitofisionomia chamada de Mata de Araucárias ou Floresta Ombrófila Mista (Mattos, 2011). O principal componente vegetal é a Araucaria angustifolia, popularmente conhecida como araucária ou Pinheiro-do-Paraná. Essas florestas praticamente sucumbiram devido à extensa exploração madeireira no século XX, juntamente com a expansão agrícola e urbanização (Ribeiro et al., 2009; Mattos, 2011). Atualmente, os remanescentes dessa então majestosa floresta cobrem apenas 15% de uma área que outrora estendia-se por mais de 200.000 km², principalmente no sul do Brasil, além de pequenas manchas específicas nos estados de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro (Ribeiro et al., 2009; Rezende et al., 2018).

Além da madeira, outro famoso recurso da araucária, o pinhão – uma semente de alto valor nutritivo –, foi amplamente utilizado por povos indígenas em épocas Pré-Colombianas, como os Kaingang e Xokleng (Reis et al., 2014). Esta longa interação foi fundamental para aumentar a resiliência ambiental da própria araucária frente a distúrbios; a produtividade de suas sementes e até mesmo a expansão da Mata de Araucárias (Robinson et al., 2018). Essa interação humanos-planta também permitiu a autorreplicação da importância das araucárias até os dias de hoje. Contudo, não foram apenas humanos que se beneficiaram deste famoso recurso. A fauna nativa existente da Mata de Araucárias, desde pumas, veados-catingueiros, pacas, cutias, macacos, gralhas-azuis ou papagaios (charão e do peito-roxo), e até mesmo espécies exóticas, como javalis, bois, porcos, se beneficiam do pinhão.

Exemplos de diferentes espécies animais comendo os pinhões das araucárias na área do Parque Nacional de São Joaquim. (a) A gralha-azul; (b) veado-catingueiro; (c) pequenos roedores; (d) coati. Crédito imagens: Juliano Bogoni.

Esta importância do pinhão e da araucária fez com que a espécie pudesse ser estudada como uma espécie-chave (keystone species; Paine, 1969). Uma espécie-chave é aquela que sua população (i.e. conjunto de indivíduos da mesma espécie) se torna imprescindível para a manutenção da biodiversidade e organização de uma comunidade (i.e. conjunto de diferentes espécies interagindo em um ecossistema). Entretanto, como um meme, o termo “espécie-chave” foi se autorreplicando para inúmeras espécies, sem a devida comprovação empírica. Uma premissa não comprovada, que seguiu se difundindo. A araucária como espécie-chave tornou-se um meme.

O conceito de espécie-chave para plantas, por exemplo, deve estar associado com a disponibilidade de recursos críticos, seja néctar, frutos ou sementes, para seus consumidores em períodos de escassez de outros alimentos (Peres, 2000; Kricher, 2011).  Em resumo, uma espécie vegetal que possui seu recurso como chave para a manutenção de uma comunidade (em inglês keystone plant resource). Para resolver esse imbróglio memético com a araucária e seu recurso (o pinhão), nós decidimos testar o conceito de keystone plant resource (Peres, 2000). Nós utilizamos dados de campo com uma revisão abrangente da literatura científica. Deste modo, avaliamos quantitativamente a contribuição do pinhão para a fauna existente na Mata de Araucárias via quatro critérios que definem uma espécie-chave vegetal:

1 – Baixa redundância temporal: o pinhão pode ocorrer em épocas em que outros recursos não estão presentes no ecossistema;

2 – Baixa especificidade do consumidor: o pinhão é consumido por várias espécies distintas;

3 – Confiabilidade do recurso: a produção de pinhão é quase contínua ao longo do ano;

4 – Abundância do recurso, ou seja, alta produção de pinhão pelas araucárias.

Mostramos então em nosso estudo² que a araucária é sim uma espécie-chave para a Mata de Araucárias e, consequentemente, a Mata Atlântica. E responde aos quatro critérios descritos anteriormente. O pinhão é um recurso fundamental para a manutenção da fauna existente na Floresta Ombrófila Mista pois é um recurso com ocorrência garantida; que não se sobrepõe a épocas de amadurecimento de outros recursos da floresta e é consumido por inúmeras espécies de vertebrados.

Época de ocorrência das variedades de pinhão ao longo do ano (variedades locais de araucárias produtoras de pinhão: Macaco, São José, do cedo, do tarde e Cajuvá) comparado com mais de 100 espécies vegetais dentro da Mata de Araucárias. Aqui mostramos como o pinhão é um recurso que ocorre ao longo de todo ano e que não se sobrepõe com a produção de outros recursos por outras espécies, sendo um recurso-chave em épocas de escassez.

Outro ponto relevante de nosso estudo foi identificar quais espécies animais tem interação ainda mais forte com o recurso da araucária. Nesse caso, quatis, pequenos roedores, veado-catingueiro, capivaras e cutias são as espécies que mais consomem pinhões. No entanto, quase 70% da fauna dentro da Mata de Araucárias consome o recurso. Espécies exóticas como o javali e a lebre-europeia também tem se deliciado com o nutritivo pinhão. 

Nos nove locais de coleta de dados (S1, S2, S3 … S9) distribuídos principalmente no sul do Brasil (N=8) e um na região serrana na divisa entre os estados de Minas Gerais e São Paulo, próximo ao estado do Rio de Janeiro, nós quantificamos as interações de aves e mamíferos com o pinhão como recurso alimentício. Créditos imagem: Juliano Bogoni.

E quais as implicações deste nosso estudo ao provar finalmente que a araucária é uma espécie-chave devido ao seu principal recurso na Mata de Araucárias?

Com a retração das florestas com araucárias as populações de diversos animais que dela dependem podem ser influenciadas negativamente, inclusive desaparecendo. Esse processo chama-se de defaunação no bioma da Mata Atlântica (Peres et al., 2016; Bogoni et al., 2018). Essa perda pode levar a consequências graves, como baixa dispersão de sementes e propágulos de espécies vegetais e diminuição da biodiversidade. Apesar do pinhão ser consumido por inúmeros animais, são poucas as espécies que dispersam suas sementes, como a gralha-azul, a cutia ou os papagaios-charão e do peito-roxo. As demais, apenas se alimentam do pinhão. A conta é simples: menos araucária, menos pinhão, menor dispersão e poucos animais beneficiados.

Uma segunda implicação de nosso estudo é que definitivamente quando preservamos a araucária, estamos garantindo a manutenção e regulação da comunidade de animais; a produção de pinhões; assim como da rentabilidade econômica de inúmeras famílias de pequenos agricultores que dependem da venda desse recurso. Ou seja, conservar a araucária é garantir sucesso ecológico, econômico e social.

Uma terceira implicação é que nosso estudo pode servir de base para que inúmeras outras espécies cunhadas de modo prematuro e memético como “espécies-chave” sejam quantitativamente avaliadas no método que propusemos. Isso pode influenciar ainda mais tomadores de decisão, políticas públicas e gestores a resguardar espécies que protegem todo ecossistema favorecendo a conservação da sociobiodiversidade. Que tal passar essa informação adiante¹?

*Mário Tagliari – Pesquisador Laboratório Ecologia Humana e Etnobotânica – ECOHE; Programa de Pós-Graduação em Ecologia – UFSC;

Juliano Bogoni – Pesquisador Laboratório de Ecologia, Manejo e Conservação da Fauna Silvestre (LEMac) e School of Environment Sciences, University of East Anglia (Reino Unido);

Carlos Peres – Scholl of Environment Sciences, University of East Anglia e Departamento de Sistemática e Ecologia – UFPB;

Nivaldo Peroni – Coordenador Laboratório Ecologia Humana e Etnobotânica – ECOHE; Programa de Pós-Graduação em Ecologia – UFSC.

 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

REFERÊNCIAS

¹ Bogoni, J.A., Muniz-Tagliari, M., Peres, C.A., Peroni, N., 2020. Testing the keystone plant resource role of a flagship subtropical tree species (Araucaria angustifolia) in the Brazilian Atlantic Forest. Ecol. Indic. 118, 106778. Acesso livre e disponível até setembro.

Bogoni, J.A., Pires, J.S.R., Graipel, M.E., Peroni, N., Peres, C.A., 2018. Wish you were here: How defaunated is the Atlantic Forest biome of its medium- to large bodied mammal fauna? PLoS ONE 13 (9), e0204515.

Mattos, J.R., 2011. O pinheiro brasileiro. Editora UFSC, Florianópolis, pp. 700.

Paine, E., 1969. A note on trophic complexity and species diversity. Am. Nat. 100, 91–93.

Peres, C.A., 2000. Identifying keystone plant resources in tropical forests: the case of gums from Parkia pods. J. Trop. Ecol. 16, 287–317.

Peres, C., Emilio, T., Schietti, J., Desmoulière, J.M., Levi, T., 2016. Dispersal limitation induces long-term biomass collapse in overhunted Amazonian forests. Proc. Nat. Acad. Sci. 113 (4), 892–897.

Reis, M.S., Ladio, A., Peroni, N., 2014. Landscapes with Araucaria in South America: evidence for a cultural dimension. Ecol. Soc. 19 (2), 43.

Rezende, C.L., Scarano, F.R., Assad, E.D., Joly, C., et al., 2018. From hotspot to hopespot: an opportunity for the Brazilian Atlantic Forest. Perspect. Ecol. Conserv. 16 (4),208–214.

Ribeiro, M.C., Metzger, J.P., Martensen, A.C., Ponzoni, F.J., Hirota, M.M., 2009. The Brazilian Atlantic Forest: how much is left, and how is the remaining forest distributed? Implications for conservation. Biol. Conserv. 142, 1141–1153.

 

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