Albert Aguiar, Guilheme Antonio de Freitas, Karlla Barbosa, Marco Aurélio Galvão e Matheus Bernardo
Albert Aguiar e Karlla Barbosa são coordenadores de projetos na SAVE Brasil, Guilherme Antonio de Freitas é gestor do programa de Monitoramento e Conservação da Fauna Terrestre da AES Tietê, Marco Aurélio Galvão é assistente de projetos na SAVE Brasil e Matheus Bernardo é técnico de campo do Projeto Mutum-de-penacho na SAVE Brasil.

O que as aves ameaçadas nos contam sobre o Noroeste Paulista

Albert Aguiar, Guilheme Antonio de Freitas, Karlla Barbosa, Marco Aurélio Galvão e Matheus Bernardo*
domingo, 11 outubro 2020 11:42
Mutum-de-penacho, uma espécie importante para a restauração de florestas. Foto: Marco Silva

Onde você está enquanto lê esta matéria? Bem, pouco importa, é pouco provável que ao olhar para fora ou abrir sua janela, entre os sons que invadem seus ouvidos, ou entre diferentes complexidades da paisagem, você não identifique ao menos um passarinho. As aves estão por quase toda a parte, várias delas são vistas e ouvidas com relativa facilidade, outras, contudo, são observadas apenas pelos mais atentos.

O mutum-de-penacho (Crax fasciolata) é uma destas aves que não vemos todos os dias em vida livre. Parente da galinha, esta espécie tem hábitos discretos e pouco percebidos pela sua voz, profunda e melancólica. Machos e fêmeas podem ser diferenciados pela sua aparência, isto é, possuem dimorfismo sexual. Fêmeas são pretas, listradas de branco e abdômen em tons de marrom, já os machos são pretos e têm o abdômen branco. Seus bicos possuem um amarelo intenso.

São aves florestais, mas que caminham por praias de água doce e pelas estradas às margens de matas ciliares e remanescentes florestais nas primeiras horas da manhã. No interior do Brasil, são presença relativamente comum próxima às sedes de fazendas, onde até dividem o alimento com galinhas domésticas quando são bem-vindas, mas se mantém sempre desconfiadas da presença humana.

Estes mutuns são naturalmente encontrados desde porções da Amazônia até os limites inferiores do Cerrado, adentrando a Mata Atlântica do interior, onde ocorre uma mata de transição com os cerrados brasileiros indo até o chaco paraguaio e o norte da argentina. Distribuído por uma área tão grande e sendo presença comum em determinadas áreas, parece pouco imaginável que estas espécies necessitam de alguma atenção do ponto de vista de sua conservação. Mas elas precisam! Atualmente considerada globalmente Vulnerável (VU) à extinção, segundo a BirdLife International e União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), o mutum-de-penacho apresenta declínios de suas populações devido à perda e degradação de seu habitat e à caça. No estado de São Paulo, sua situação é ainda mais grave, pois são classificadas como Criticamente Ameaçadas de extinção.

Remanescentes de floresta no interior paulista são poucos e degradados. Foto: Matheus Bernardo

A caça e a extensiva destruição da Mata Atlântica no interior do estado de São Paulo praticamente eliminaram esta espécie localmente. Embora o domínio natural da Mata Atlântica seja uma das áreas mais biodiversas no planeta, após um longo processo de desmatamento e fragmentação que se iniciou em meados do século XVI e persiste até os dias atuais, hoje restam pouco mais de 12% de sua cobertura original no Brasil. Sendo que em São Paulo restam apenas cerca de 13%. Além disso, é importante lembrar que a maioria dos remanescentes florestais são pequenos e apresentam habitat de baixa qualidade quando comparados aos grandes blocos florestais. Nesse cenário, espécies mais sensíveis e com registros históricos como a jacutinga (Aburria jacutinga) estão extintas na região, enquanto outras, como o mutum-de-penacho tiveram suas populações extremamente reduzidas.

Historicamente, pouca atenção foi dada às áreas florestais do interior e de savana no estado de São Paulo. Com alta fragmentação, poucos são os remanescentes florestais nesta região. Entretanto, programas já em execução como o Mãos na Mata, um dos maiores programas de reflorestamento de árvores nativas do Brasil, realizado pela AES Tietê, visam impedir ou mitigar estes efeitos por meio de reflorestamento e da proteção de remanescentes de vegetação nativa. Desde o início do programa de reflorestamento, a AES Tietê já plantou 3.408 hectares, sendo 606 por meio do programa Mãos na Mata. E estima que até o final da concessão esse número chegará a 6.500 hectares. A necessidade de recomposição legal da vegetação por proprietários rurais de acordo com o Código Florestal aliada aos programas de reflorestamento da AES Tietê são uma oportunidade para a melhoria ambiental da região. Nesse processo todos ganham, proprietários das áreas por meio da conservação do solo e água, a população das cidades vizinhas e, claro, a biodiversidade.

Neste contexto, aves com capacidade de contribuir na restauração florestal funcionam como parceiras, como é o caso das espécies da família Cracidae que no Brasil reúne os mutuns, jacus, jacutingas e aracuãs. Essa família de aves tem uma dieta bastante diversificada que inclui frutos, folhas, pequenos animais e sementes de frutos grandes que a maioria das espécies não consegue consumir. Esta característica lhes confere a importante função ecológica de dispersão de sementes através de suas fezes, e de controle da densidade de algumas espécies que acabam predando, ou seja, são animais importantes para a restauração florestal.

Área de reflorestamento do programa Mãos na Mata da AES Tietê. Foto: AES Tietê

Mas voltando a falar das áreas degradadas do interior de São Paulo, é na região noroeste do estado que ainda é possível encontrar algumas dessas espécies de cracídeos, como o mutum-de-penacho e o Ortalis remota. Essa última é uma espécie ainda mais rara e pouco conhecida pela ciência, não é à toa que seu nome popular ainda não é um consenso, mas é mais comumente chamada de aracuã-guarda-faca. Essa ave passou a ser considerada uma espécie pela ciência somente em 2017, sendo conhecida até então como uma subespécie do aracuã-pintado (Ortalis gutatta).

Apesar de já ter sido mencionada por pesquisadores no passado, ela ficou por muito tempo fora da atenção de pesquisadores. Isso mudou quando o crescimento e a popularização da observação de aves no Brasil e a consolidação da ciência cidadã, através de sites como o Wikiaves e eBird, trouxeram de volta a atenção para a Ortalis remota. Em 2011, a observadora de aves Dina Bessa tirou uma foto da ave em Guapiaçu (SP) e postou no Wikiaves, chamando a atenção dos ornitólogos. Após pesquisas, foi constatado que a espécie encontrada no noroeste de São Paulo não seria apenas uma subespécie do aracuã-pintado, mas uma ave rara, exclusiva e restrita da região noroeste de São Paulo – o Ortalis remota.

Já em 2018, com financiamento da Fundação Grupo Boticário, a SAVE Brasil realizou um censo da espécie na região, que percorreu 28 municípios. No entanto, os 113 indivíduos encontrados foram em apenas 10 desses municípios. Considerando também os dados disponíveis em plataformas de ciência-cidadã, como o eBird e o Wikiaves, a ave é encontrada em uma área muito pequena do estado e conhecida em apenas 18 municípios. Dessa forma, o Ortalis remota é considerado o mais raro dos aracuãs e, graças às pesquisas de campo realizadas em 2018, foram obtidas novas informações sobre a espécie. Porém, ainda há muito a ser estudado. O que nós já sabemos é que para reverter a situação crítica dessa espécie é necessário proteger e recuperar as matas ciliares dos locais onde habitam.

O raro e ameaçado Ortalis remota. Foto: Marco Silva

Tendo em vista o cenário enfrentado pelo Ortalis remota e o mutum-de-penacho e a atuação da AES Tietê na região, em 2019, a SAVE Brasil iniciou o Projeto Mutum-de-Penacho no noroeste do estado de São Paulo, com base no município de Ouroeste. Os principais objetivos desse projeto, realizado em parceria com a AES Tietê, são a conservação da avifauna da região, o engajamento da comunidade local e a pesquisa.

Em 2020, como parte das atividades do projeto, 25 áreas, entre remanescentes florestais e reflorestamentos às margens do reservatório de Água Vermelha, estão sendo amostradas para um diagnóstico da avifauna. Como um grupo indicador, as aves fornecem meios seguros de se avaliar a qualidade ambiental de determinada região, e conforme essas primeiras visitas a campo na região, apesar da região ser composta por uma vegetação bastante fragmentada, ainda é possível encontrar nos fragmentos de mata mais de 150 espécies. A diversidade de espécies encontrada é um incentivo para restauração da mata na região. Outra boa notícia é que durante as duas campanhas de campo do projeto, realizadas entre julho e setembro de 2020, já foram encontrados nove mutuns-de-penacho na região, inclusive filhotes.

Em paralelo às campanhas de monitoramento da avifauna, os próximos passos agora são fortalecer a observação de aves como forma de engajamento da comunidade local e produzir material educativo para a sensibilização sobre a conservação da biodiversidade. Além disso, os estudos desenvolvidos pelo projeto, incluindo o monitoramento da avifauna e um diagnóstico ambiental que será realizado em 2021, irão nos ajudar a propor novas estratégias para a conservação do mutum-de-penacho e o Ortalis remota, seus habitats e toda a fauna e flora associadas, na região noroeste do estado de São Paulo, garantindo assim um futuro para essas duas espécies.

*Sobre os autores:

Albert Aguiar é biólogo, mestre em biologia animal e especialista em gestão ambiental. Atua como coordenador de projetos na SAVE Brasil.

Guilherme Antonio de Freitas é zootecnista pela Unesp e mestre em aquicultura pelo Caunesp. Atua como gestor do programa de Monitoramento e Conservação da Fauna Terrestre da AES Tietê.

Karlla VC Barbosa é bióloga, mestre em conservação ambiental e sustentabilidade no IPÊ e doutora em Zoologia pela Unesp. Atua como coordenadora de projetos na SAVE Brasil.

Marco Aurélio Silva Galvão é estudante de biologia. Atua como assistente de projetos na SAVE Brasil e realizou o censo de Ortalis remota no noroeste do estado de São Paulo.

Matheus Bernardo é biólogo. Atua como técnico de campo do Projeto Mutum-de-penacho na SAVE Brasil e está baseado no município de Ouroeste-SP.

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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1 comentário em “O que as aves ameaçadas nos contam sobre o Noroeste Paulista”

  1. Muito bom. Pena que a AES Tietê, como de costume, não cita que os reflorestamentos e os trabalhos de monitoramento de fauna são exigências do Ibama no âmbito do licenciamento ambiental da UHE de Água Vermelha

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