Valério Pillar e Gerhard Overbeck
Valério Pillar (PhD) e Gerhard Overbeck (Doutor em Ciências Naturais) são professores do Instituto de Biociências da UFRGS e pesquisadores da Rede Campos Sulinos

O Pampa está ameaçado

Valério Pillar e Gerhard Overbeck
quinta-feira, 17 dezembro 2020 8:57
A imagem clássica do Pampa, aqui próximo a Quaraí (RS). Foto: Fabio Olmos.

Nos últimos 34 anos mais de dois milhões de hectares de campos nativos do bioma Pampa foram convertidos em lavouras, pastagens plantadas e silvicultura, segundo dados do projeto Mapbiomas. A perda anual tem sido 125 mil hectares por ano nos últimos seis anos, sem sinais de decréscimo. Isso corresponde a 175 mil campos de futebol por ano, o que deveria gerar comoção pública e ações rigorosas de fiscalização. Nesse ritmo, em 2050 restarão menos de 12,9% do bioma coberto por campos nativos, porém, em alguns municípios já restam agora menos de 6%. 

Por que precisamos manter a vegetação nativa? Os campos do Pampa apresentam flora e fauna únicas, uma biodiversidade riquíssima e não menos importante do que a de outros biomas brasileiros. Com perda da vegetação nativa, perdemos benefícios da natureza para a nossa qualidade de vida no campo e na cidade. A qualidade da água e dos alimentos depende diretamente da conservação dos ecossistemas naturais. Sem a vegetação nativa, a polinização de muitas culturas agrícolas fica comprometida. A conversão dos campos aumenta as emissões de gases efeito estufa, agravando mais ainda as mudanças climáticas que já causam impactos sérios para a humanidade, inclusive, para a agricultura. E, não menos importante:  o que seria a cultura gaúcha sem os campos do Pampa?

Não há o que comemorar no dia do bioma Pampa. Mas é um momento para refletir sobre o caminho a seguir para garantir um futuro com qualidade para as próximas gerações. A pesquisa científica evidencia as consequências dramáticas que as mudanças do clima e do uso da terra terão para a humanidade. A ciência também demonstra os benefícios de uma economia mais sustentável. Por exemplo, a produção de carne de qualidade sobre os campos nativos, prática tão simbólica para o bioma Pampa, é não apenas compatível com a conservação da biodiversidade, mas também pode contribuir para o sequestro de carbono no ecossistema. Este tipo de sinergia será a base para economias bem sucedidas no futuro.

 

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