Fabio Origuela de Lira
Arqueólogo e Antropólogo, com mestrado em História das Paisagens pela UFV, especialista em peixes da família Rivulidae, Membro do Grupo de Assessoramento Técnico do PAN Rivulídeos - ciclo 2

Floresta do Camboatá, onde as nuvens dão vida a um peixe

Fabio Origuela de Lira
terça-feira, 11 agosto 2020 13:40
Leptopanchax opalescens. Foto: Wilson Costa.

A área pleiteada atualmente para implantação do Autódromo Internacional do Rio de Janeiro abriga um dos últimos remanescentes de floresta de terras baixas do município do Rio de Janeiro, a Floresta do Camboatá. A área fez parte de um antigo engenho de açúcar (o Engenho Sapopemba), e desde 1904 encontra-se sob a gestão do Exército Brasileiro, tendo abrigado depósito de armamento e munição e, posteriormente, o Centro de Instrução de Operação Especial do Exército (CIOP).

A Floresta do Camboatá foi mantida preservada ao longo dos anos em uma região que sofreu intenso processo de urbanização, representando uma importante ilha de Mata Atlântica com mais de 100 hectares, em área densamente povoada no bairro de Deodoro.

Além de toda sua importância, nos últimos anos, a Floresta do Camboatá assumiu mais um protagonismo na sua história de preservação. Para um curioso grupo de espécies, que compõem uma família de peixes que tem suas origens remontando a mais de 200 milhões de anos, a floresta precisa permanecer de pé. Uma das quatro mais diversificadas famílias de peixes de água doce do Brasil, a família Rivulidae, ocorre em todos os biomas brasileiros, com mais de 320 espécies descritas e algumas outras em processo de descrição. Habitam ambientes aquáticos rasos, muitas vezes temporários, isolados de rios e lagos. Peixes de pequeno porte, a maioria das espécies tem menos de 10 cm de comprimento e são caracterizadas pela diversidade dos padrões de coloração e pelo seu desenvolvimento em que podemos dividir entre espécies anuais e não anuais. As não anuais vivem em pequenos riachos e brejos perenes, ocorrem o ano inteiro e podem sobreviver até mesmo horas fora d’água. Já os ditos peixes anuais ou PEIXES DAS NUVENS, estão presentes em ambientes sazonais, formados durante o período das chuvas, mas que permanecem secos ao longo da maior parte do ano. Os ovos postos durante o período de cheia são resistentes a seca, perdurando por vezes mais de um ano, até eclodirem no período de chuvas seguintes, que no Rio de Janeiro geralmente ocorre entre a primavera e o verão. A partir do seu nascimento, o peixe possui um rápido desenvolvimento, podendo alcançar a maturidade sexual em menos de um mês. As condições do habitat, com pouca oxigenação e período curto de existência, exigem das espécies um extremo desenvolvimento.

“O atual estado de preservação dos ambientes aquáticos cariocas e fluminenses está em algo entre o deplorável e inexistente.”

Qual a relação dos PEIXES DAS NUVENS com a Floresta do Camboatá? Para isso é preciso voltar e compreender como uma metrópole em desenvolvimento se espraiou entre planícies e vales do Rio de Janeiro.

O atual estado de preservação dos ambientes aquáticos cariocas e fluminenses está em algo entre o deplorável e inexistente. Me espanto em saber que ainda existem e persistem, sobretudo os brejos sazonais. Para o estado do Rio de Janeiro existem 13 espécies, das quais, até 2012, apenas uma era registrada para a capital fluminense. Nesta data a história mudou, graças a uma descoberta descompromissada no Gericinó e na Floresta do Camboatá. Mas ainda não é o momento de introduzirmos o Camboatá na história, precisamos ainda recuar no tempo para que você, meu caro leitor, entenda a necessidade que uma floresta de pé tem para a existência de um PEIXE DAS NUVENS.

O avanço da urbanização carioca, sem levar em conta a necessidade de preservação das áreas úmidas ao longo do século XX, com aterramentos e drenagens, tornou as décadas iniciais do século XXI melancólicas, desprovidas da diversidade que tínhamos menos de um século atrás. Os avanços governamentais nocivos (em todas as suas esferas), sem planejamento e sem o conhecimento técnico necessário, reduziu drasticamente as áreas de ocorrência de espécies de PEIXES DAS NUVENS tão especializadas, que podiam ser encontradas, inclusive, nos arredores do Aeroporto do Galeão até a década de 1980.

As primeiras menções às espécies de PEIXES DAS NUVENS para o Rio de Janeiro ocorrem ao longo das décadas de 1930 e 40. Das descobertas realizadas, a que mais nos interessa foi realizada em 1937 por um funcionário do Ministério da Agricultura, o médico veterinário Ascânio de Faria e o aquarista alemão Hans Müller. Ambos descreveram duas espécies encontradas em brejos sazonais. Uma delas recebeu o nome de Cynopoecilus sandrii e a outra Cynopoecilus fluminensis (em homenagem ao estado do Rio de Janeiro). Por questões de nomenclatura zoológica que não caberiam aqui, vamos pular as brigas taxonômicas e nos adiantar dizendo que, o novo nome da primeira ficou Leptopanchax (Leptolebias) splendens e o da segunda e de nosso interesse, Leptopanchax (Leptolebias) opalescens.

Atrás dos peixes de nuvens. Foto: Fabio Origuela de Lira.

Após este período de florescimento de descobertas na primeira metade do século XX, vemos os PEIXES DAS NUVENS sofrendo um freio em sua existência. Com o intuito de erradicar a febre amarela, no combate ao mosquito transmissor, os brejos sazonais sofrem aterramentos ou envenenamentos por pesticidas. Executadas sem os devidos cuidados e estudos, essas ações auxiliaram na rápida extinção destes peixes localmente. Aliado a isto, o crescimento desordenado, causado pela falta de planejamento urbano, impuseram aos que sobraram condições drásticas de sobrevivência.

Após as descrições, estas espécies de PEIXES DAS NUVENS não são mais citadas pela ciência e nem em registros de coletas para o comércio de aquarismo até o final da década de 1970, quando a protagonista de nossa coluna, L. opalescens, é reencontrada. Localizada na região de Parque Estoril, Nova Iguaçu, por pesquisadores da UFRRJ, seu reencontro foi breve e a partir de 1983 não há mais menções a ela na localidade. Atualmente, o brejo em que ocorria se encontra aterrado e sua existência no local jaz sob a edificação de uma igreja neopentecostal.

Para o ano de 1985 temos mais um efêmero suspiro, quando foi encontrado um único exemplar num brejo temporário na cidade de Seropédica. Infelizmente, além de não mais ser encontrada na região, a expansão desordenada de um bairro periférico jogou por terra, literalmente, quaisquer esperanças do encontro da espécie.

A partir deste período entramos num perturbador silêncio de existência, sem quaisquer novas informações que pudessem nos confortar sobre a espécie. Alguns chegaram a concluir que poderia estar definitivamente extinta. E estava até 2012. Estava até que a curiosidade e persistência de um personagem de nossa história, Paulo Roberto de Jesus, na experiência de seus 72 anos, retirou do túmulo do esquecimento a nossa protagonista L. opalescens. Sozinho e de forma sorrateira, explorou a base militar do Gericinó até que encontrou o PEIXE DAS NUVENS. Eufórico e feliz por sua descoberta, se colocou a guiar pesquisadores e incrédulos militares que não conseguiram explicar como um senhor entrara numa base militar, mas não só entrara, como trouxe a vida naquele ano de 2012 uma espécie fadada as páginas da extinção. Muitos alarmaram desde então que no Camboatá também haveria o peixe. Muitos acreditaram em nosso personagem. Mas não seria difícil de imaginar que de fato ocorreria naquele local preservado.

Projeto do novo autódromo, construído em cima da Floresta do Camboatá. Foto: Divulgação/ Consórcio Rio Motorsports.

No meio da floresta, queriam um autódromo

Então veio a fatídica ideia de construir um autódromo onde as nuvens dão vida a um peixe. Para aqueles que estão ávidos pela construção do autódromo, pressões sobre um Estudo de Impacto Ambiental mal feito, no que diz respeito à ictiologia, acusava unicamente a presença de uma espécie de peixe exótica, o conhecido Barrigudinho ou Guppy (Poecilia reticulata). Mas nenhum combate se dá apenas nas trincheiras. Pressões de pesquisadores nos bastidores causaram a realização da complementação dos estudos ictiológicos e ai eles apareceram. Não só tivemos a comprovação da presença da espécie já citada, como de outras três: Phalloceros harpagos, Callichthys callichthys e Leptopanchax (Leptolebias) opalescens, o nosso protagonista PEIXES DAS NUVENS. Que tipo de levantamento tivemos antes e qual foi a ênfase dada posteriormente? Tivemos 5 alternativas para realização do autódromo e a alternativa 2 foi descartada pela presença dos PEIXES DAS NUVENS. Porque agora a alternativa 5, em que temos o nosso protagonista, é a melhor opção? Qual o custo da extinção? Nos resta lutar. Lutar para que as nuvens continuem trazendo vida, seja para floresta de pé, seja para um pequeno peixe que nasce trazendo as histórias das nuvens.

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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20 comentários em “Floresta do Camboatá, onde as nuvens dão vida a um peixe”

  1. Puxa vida um arqueólogo criticando um diagnóstico de peixes de uma área que nunca visitou, esse cara deve ser especialista mesmo! Vejamos o caráter preservacionista do rapaz, olha e não é que têm diversas consultorias para empreendimentos DEGRADADORES no currículo. Ah entendi, é só a velha tática da visibilidade para ser chamado como especialista no projeto, mas dessa vez não vai colar amigão!

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    • A hipocrisia de quem se esconde atrás da invisibilidade da Internet. Enquanto a ignorância for a tônica, resta apenas isso aí. Já que procurou no currículo (aconselho ver o lattes) tem até descrição de espécies, sabe como é, ao invés de me esconder, vou a luta. Se sou especialista? Procura saber melhor, pesquisa…. e Amigão não, seleciono as amizades, ainda que não tenha problema de discutir ciência, ictiologia, arqueologia, etnologia e outras logias da ciência com quem queira aprender e ensinar. Beijinho no ombro.

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    • Procura melhor o currículo lattes, tem mais coisas lá…arqueologia, etnologia e, pasmem, ictiologia. Só não coloquei as descrições de novas espécies que estão no prelo pq, pra mim, só vale o que está escrito. Sobre ser considerado especialista, nem fui eu que criei, foi o CEPTA/ICMBIO, depois dá uma olhada nisso. E fica tranquilo, se vc refizer o trabalho vai achar outros pontos com a espécie. Conversaste com teu professor lá? Escuta o cara….é melhor do que ficar com raiva e querer que passe um estudo de qualquer forma. E sobre amigos, meus amigos são outros. Mais uma vez 💋

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    • Mas deixando meu sarcasmo de lado. Ao invés de querer invalidar uma coluna, use seus esforços para conhecer sobre a família Rivulidae e saber da importância de preservar a última região de ocorrência da espécie que disserto acima. Liga pra mim não, só estou aqui de passagem, presta atenção no peixe e na sua história de resistência. Fica bem…

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    • Só mais uma coisa, se tiver tão interessado em mim, olha o lattes melhor, tem até descrição de espécie. Até o final do ano coloco pelo menos mais uma. Abraços uerjianos (somos de lá, não? Rsrs)

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  2. Uma moradora dos arredores da Floresta de Camboata foi a primeira a me lar sobre os peixes rivolideos e a pouco tempo um jovem que prestou serviço militar na Floresta.

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    • Boa noite Marina, obrigado pelos comentários. O que mais assusta é que, se antes o peixe era o impeditivo de construção do autódromo numa das alternativas, pq na Floresta do Camboatá pode? A resistência as condições adversas deste peixe deveria ser um exemplo para nós, humanos, na luta pela preservação do Camboatá.

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    • O erro aconteceu ao acabarem com o antigo autódromo! Ai sairam atras de outro espaço! As antigas gestões prometeram um novo autodromo e nada fizeram! Uma çena ao setor! Deviam ter levado o parque olimpico para Santa Cruz ou Campo grande mas isso não vai de encontro ao "interesses" da cidade!

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      • Concordo em número e grau. O problema começou um pouco antes das olimpíadas quando o prefeito decidiu cortar o autódromo ao meio para realização do Pan. O AUTÓDROMO Nelson Piquet era fantástico, deveria ser tombado, um dos símbolos do Rio. Sou veterinário, tenho graduação em educação e gestão ambiental e também sou apaixonado por automobilismo e motociclismo, mas o meio ambiente em primeiro lugar. Salvem a floresta do Camboatá. Na quinta feira dia 13 haverá votação na ALERJ para tornar o local Parque Estadual, uma UPP OU APA. Venceremos!

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  3. A história do peixe das nuvens é a história de degradação da cidade do Rio de janeiro. Que possamos interferir nesse rumo, melhorar as condições da cidade, das espécies e da população. A floresta do Camboatá fica, o autódromo vai para outro lugar

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  4. Amigos, sou biologo e lhes informo que Leptopanchax opalescens foi recapturado em Seropédica em 2020.
    O artigo dessa recaptura já passou por revisão por pares e está em processo final de correção. Vocês terão novidades em breve.
    Eu não concordo com a construção do autodromo, mas o argumento que essa é a ultima população conhecida da espécie para construir o autodromo já não vai ser mais valido.

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    • Seria interessante comparar este material com a L. opalescens e o material da L. nanus. Vinte anos atrás, numa discussão a este respeito, um dos pesquisadores desta família, professor da UFRJ afirmou que o exemplar de Seropédica seria provavelmente uma nova espécie, mas que devido a ter um único exemplar seria frágil realizar a descrição. Desta forma Gustavo, não deixe de comparar este material com material tipo na UFRJ e na UFRRJ. Abraços e bom trabalho.

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      • Fábio Origuela. Sim de fato é importante essa comparação mais preciso. Ainda mais pelo contexto de endemismo e pelo autodromo.

        Você está correto, de fato existe essa duvida para Seropédica.

        Wilson, 1988 escreve assim: "…sendo uma vez encontrado um exemplar macho de uma espécie similar a Cynolebias nanus Cruz & Peixoto, 1984, pelo Sr. Marco Túlio C. Lacerda, no Horto Florestal Santa Cruz, na localidade de Seropédica, Município de Itaguaí". https://www.scielo.br/pdf/rbzool/v5n4/v5n4a04.pdf

        Horto Florestal de Santa Cruz atualmente se chama FLONA MARIO XAVIER, e atualmente faz parte do municio de Seropédica.

        Podemos conversar mais a respeito e compartilhar informações pelo bem da conservação desse peixes.
        Entre em contato quando puder: [email protected]

        Att

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  5. Um dos argumentos mais descabidos, usado pela empresa que "venceu" a licitação para a construção do autódromo, característico de quem só visa o dinheiro e não está nem aí para o bioma existente no Camboatá, é que Deodoro está equidistante dos 3 aeroportos existentes na cidade: o Internacional, o Santos Dumont e o de Jacarepaguá. Se for para manter o bioma de grande significado científico, os turistas e participantes de um grande prêmio, terão que andar mais um pouco. Existem outras 3 ou 4 opções em áreas degradadas. Na minha opinião, como se trata de um acordo judicial que precisa ser cumprido, um juiz (a), deveria dar um prazo ( 90 dias) para que a prefeitura realizasse estudos nas áreas que estão sendo indicadas como alternativas, como: cidade da criança, terreno da AMBEV entre outros e dar um fim nessa novela.

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