Isabella Baroni
Bióloga formada pela UFSCar e estudante de Jornalismo, atua na área da conservação da biodiversidade desde 2013. Já trabalhou como educadora e coordenadora ambiental em ONGs de Capão Bonito e São Miguel Arcanjo - SP

Eu fazendo ciência?! Um olhar sobre a ciência cidadã

Isabella Baroni
quinta-feira, 30 julho 2020 13:07
Observador de bordo trabalhando. Foto: Yedda Oliveira

Quando se fala em ciência, você logo imagina um pesquisador de jaleco branco dentro de um laboratório? Essa é uma visão estereotipada que temos a respeito deste tema tão importante e que anda em evidência atualmente. Há muito tempo a ciência é gerada e fortalecida por conta da participação de “pessoas comuns” que observam e agregam conhecimento aos estudos. Uma das ciências que envolvem a participação de pessoas que não são pesquisadores de carreira é a ciência cidadã, do inglês, ‘citizen science’.

O termo “ciência cidadã” começou a ser usado a partir do século XX, muito embora a prática da ciência já fosse recorrente e as pessoas se dedicassem a ela em seu tempo livre. Há registros do século XVII de pessoas comuns retratando a época da florada de cerejeiras no Japão e, no Brasil, pode-se colocar como um marco o recebimento de serpentes pelo Instituto Butantã em 1911, prática iniciada por Vital Brazil. A partir destes e de outros registros posteriores pode-se evidenciar a importância de pessoas que não são envolvidas diretamente com o ambiente científico e acadêmico contribuindo para a construção da ciência.

Se o seu trabalho ou pesquisa envolve mobilizar uma comunidade de pessoas para que sejam registrados e monitorados avistamentos de animais ou localização de determinadas plantas, ou qualquer tipo de observação da natureza em que se deseje ter dados em larga escala, saiba que esse é um enfoque da ciência cidadã. Mas a ciência cidadã só irá acontecer realmente se sua pesquisa contar com o auxílio de pessoas da comunidade, e caso haja um estímulo para um pensamento crítico, desenvolvendo a mentalidade científica e encorajando o engajamento democrático destas pessoas.

Estes cidadãos que irão auxiliar no levantamento de dados são pessoas comuns, que vivem na região e que têm uma percepção peculiar a respeito da observação do local. Imagine, por exemplo, apenas UM cientista profissional levantando dados de ocorrência da ave bem-te-vi no Estado de São Paulo todo. Quanto tempo e investimento seriam necessários? E se este mesmo levantamento fosse feito por centenas de pessoas em diferentes municípios e regiões do Estado? Com certeza o tempo e o investimento seriam muito menores e os resultados possivelmente mais robustos.

Bairro Guapiruvu. Foto: Fabio Grigoleto.

No caso específico de estudos de aves, podemos citar plataformas e aplicativos que foram desenvolvidos para que qualquer pessoa, seja ela cientista ou observador e amante de aves, possa inserir dados e fotografias das aves registradas como, por exemplo, o Wikiaves e eBird. Estas ferramentas se transformaram em um verdadeiro banco de dados de parâmetros de avistamento, horário, local, época do ano, entre outros.

Estudos vêm sendo desenvolvidos por meio da ciência cidadã e colaborando com a conservação de espécies e habitats, em diversas regiões do país.

Na Mata Atlântica, mais especificamente no continuum florestal de Paranapiacaba, um grande maciço de floresta no sudoeste do Estado de São Paulo, um projeto de ciência cidadã está sendo desenvolvido com a comunidade do bairro Guapiruvu, município de Sete Barras, Vale do Ribeira, que faz parte da zona de amortecimento do Parque Estadual Intervales.

Quem lidera o projeto é o Fábio Grigoleto, professor da UFSCar campus Lagoa do Sino (Buri – SP). A iniciativa “Educação inclusiva e equânime para o desenvolvimento sustentável: ciência cidadã na Mata Atlântica” teve início em 2018 enquanto Fábio concluía seu doutorado, também realizado na região. Uma razão o motivou: no final de 2017 foi encontrado um exemplar vivo da “Jiboia do Ribeira” (Corallus cropanii), espécie de cobra raríssima, endêmica, com um único registro de indivíduo vivo apenas em 1953 (houve registros de mais 5 indivíduos mortos enviados para o Instituto Butantã).

Este encontro gerou uma comoção da comunidade científica, mas também um conflito entre cientistas e moradores do bairro, inclusive por conta da localização, que tem um histórico de conflitos ambientais e fundiários muito presente.

Bairro Guapiruvu. Foto: Fabio Grigoleto.

Para tentar minimizar estes conflitos, Fábio e sua equipe propuseram, junto à comunidade do bairro, um trabalho de alfabetização científica e cidadania com os jovens locais. O grupo começou com 20 jovens entre 8 e 19 anos e hoje já conta com mais de 30 participantes. Estes jovens começaram a aprender sobre o que é ciência, qual a importância de se fazer ciência e, principalmente, começaram a desenvolver o olhar sensibilizado para a ecologia e suas interações, e a voz ativa para exercer a cidadania. O projeto ainda está em andamento e está motivando cada vez mais pesquisadores a transmitirem os conhecimentos adquiridos na região e, principalmente, despertando o interesse de mais jovens para a ciência e a cidadania. Outro agente super importante e que ajudou na viabilização deste projeto é o grupo “Amigos da Mata”, coletivo que nasceu no bairro Guapiruvu e que atua na região há mais de duas décadas, levando educação ambiental e projetos sociais para o local.

Um exemplo em outro bioma é o projeto “Observatório Marinho”, desenvolvido pelo Instituto Parahyba de Sustentabilidade – IPAS. O projeto teve início na Universidade Federal da Paraíba, pelo Laboratório de Ecologia Aplicada e Conservação (LEAC) e a partir de 2019 passou a ser executado pelo IPAS.

O projeto, que busca promover a conservação da biodiversidade no litoral paraibano, sempre teve como foco realizar o monitoramento participativo, envolvendo a comunidade de pesca artesanal na coleta de dados de espécies marinhas, principalmente do avistamento de tartarugas.

Conversa com pescadores. Foto: Yedda Oliveira.

Os pescadores passaram por oficinas de manejo para que pudessem libertar as tartarugas que acidentalmente ficassem presas nas redes, além de aprenderem como proceder no caso de encalhe destes animais na praia. Em contrapartida, estes “observadores de bordo”, como passaram a ser chamados, se tornaram responsáveis por trazer dados de registros feitos em alto mar, como por exemplo o local de avistamento, o número de tartarugas, entre outros.

A ciência cidadã tem o poder de envolver a comunidade e despertar nela um olhar crítico para a importância da conservação de espécies para o funcionamento adequado do ecossistema.

Acredito que você, lendo estes relatos, consiga agora visualizar uma forma de também colaborar com a conservação de forma efetiva sem grandes esforços, apenas despertando o olhar para a natureza que existe ao seu redor e se sentindo responsável por ela.

Quer conhecer mais sobre estes projetos? Acesse:

ONG IPAS: www.instagram.com/ong.ipas/
Observatório Marinho: www.instagram.com/observatoriomarinho/
LEAC UFPB: https://www.instagram.com/leac.ufpb
Amigos da Mata Guapiruvu: https://www.facebook.com/amigosdamataguapiruvu/

 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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2 comentários em “Eu fazendo ciência?! Um olhar sobre a ciência cidadã”

  1. O Encontro da Jiboia do Ribeira pelos moradores do Bairro Guapiruvu só aconteceu porque Houve um trabalho de educação ambiental previamente, ensinando os moradores a identificar a especie Corallus cropanii, contando que ela é ameaçada de extinção, e que as pessoas precisavam parar de matar essa espécie. e o projeto @jiboiadoribeira Realizou atividades de educação ambiental e sói assim as pessoas não mataram o setimo exemplar conhecido dessa especie, e que os pesquisadores soltaram de volta na natureza e monitoraram com a ajuda da comunidade do Guapiruvú

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  2. Muito interessante essa abordagem, precisamos de mais projetos que divulguem o conhecimento científico e que o conectem com o conhecimento empírico das comunidades tradicionais.

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