Thomas Lewinsohn
Doutor em Ciências e professor titular de Ecologia na Unicamp. Seu trabalho investiga aspectos teóricos e aplicados da biodiversidade. Recentemente, foi pesquisador do Instituto de Estudos Avançados de Berlim, Alemanha. É membro da Coalizão Ciência e Sociedade.

Difamação, negacionismo e a volta do Dirceu Borboleta

Thomas Lewinsohn
quarta-feira, 8 julho 2020 15:10
Dirceu Borboleta com sua rede de caçar insetos, representado por Emiliano Queiroz no “Bem Amado”. Fonte CEPOC/TV Globo.

Na novela “O Bem Amado”, de 1973, o inesquecível prefeito Odorico Paraguaçu tinha um assessor que penava com a gagueira e com os constantes conflitos éticos face às bolsonarices de seu chefe. Sua principal marca, no entanto, era a paixão por colecionar borboletas, o que deu nome ao personagem. Colecionar borboletas, no entendimento popular, tem tanta relação com a ciência quanto empinar pipas ou colecionar latinhas de cerveja.

Lembrei de Dirceu Borboleta quando, semana passada, correu pelas redes sociais um pôster virtual de Thiago Rangel, professor da Universidade Federal de Goiás. Os beija-flores que rodeiam seu rosto nesse pôster ridicularizam sua especialidade de pesquisa e atestam o absurdo  dele ser “o responsável pelo fechamento do comércio após 03 meses de omissão do Governo” (de Goiás).

Não vale a pena discutir a tática de quem produziu e distribuiu esse pôster. Ela segue a fórmula bem conhecida de difamação, distorção e anonimato covarde que é irradiada a partir dos bunkers de estupidez encastelados no Planalto.

Também não me cabe fazer aqui a louvação ou a defesa profissional de Thiago Rangel. Basta dizer que ele obteve seu Doutorado em Ecologia pela Universidade de Connecticut, nos EUA, e que rapidamente se tornou um dos mais destacados pesquisadores brasileiros em ecologia, reconhecido amplamente no Brasil e no exterior. Mais detalhes podem ser encontrados em seu currículo Lattes; podem confiar. Estão lá os beija-flores, porém são um item secundário numa extensa lista de publicações e projetos bem variados. As avezinhas foram destacadas no pôster como “especialidade” do pesquisador por total má-fé de seus autores clandestinos.

Vamos ao que interessa: primeiro, de que ciência se trata e por que ela é relevante para a pandemia que nos assola? Depois, como o Dirceu Borboleta entra nisso?

“Não vale a pena discutir a tática de quem produziu e distribuiu esse pôster. Ela segue a fórmula bem conhecida de difamação, distorção e anonimato covarde que é irradiada a partir dos bunkers de estupidez encastelados no Planalto”.

Thiago é especialista em modelos matemáticos e estatísticos usados para analisar vários fenômenos importantes em ecologia; por exemplo, quais as causas das oscilações de tamanho das populações de espécies de peixes. Modelos quantitativos servem para identificar fatores capazes de provocar ou regular esses fenômenos. Os modelos mais eficientes ajudam a entender o que acontece no mundo real e podem melhorar a capacidade de previsão de efeitos e alterações futuros.

Modelos quantitativos são desenvolvidos para espécies de animais, plantas e microrganismos; ou para conjuntos de espécies; ou então para ecossistemas inteiros. Muitas vezes a chave de um problema vem de um modelo desenvolvido para outra espécie totalmente diferente, que pode até ser um beija-flor.

A transposição de modelos e resultados entre espécies é rotineira em biologia e medicina. Vale lembrar das espécies que são chamadas de “modelos” na ciência: por exemplo, ratos, coelhos ou porcos são “modelos experimentais” para ensaios de novos fármacos e procedimentos terapêuticos antes de serem testados em seres humanos.

Cientistas usam e abusam da transposição de modelos, teorias e métodos entre todas as áreas de conhecimento. Um artigo publicado há 20 anos na revista Nature demonstrava que a Internet era resistente a perdas acidentais de algum servidor da rede, mas muito vulnerável a um ataque proposital. Assim que o li, me ocorreu que isto seria um modelo muito útil para analisar a vulnerabilidade de comunidades biológicas sujeitas a alterações ambientais. Desde então, a aplicação da teoria de redes complexas tornou-se de fato uma linha de investigação muito significativa na ecologia atual, com contribuições importantes de vários grupos de pesquisa brasileiros.

Os pesquisadores da Universidade Federal de Goiás vêm empregando modelos que analisam a dinâmica espacial de propagação do coronavírus em grandes cidades, entre cidades e estados. Nenhum modelo é bola de cristal, mas modelos melhores fornecem projeções que servem para tomadores de decisões avaliar a eficiência e as consequências de diferentes planos de ação. É o que o governo federal e alguns governadores vêm sistematicamente ignorando. Porém em Goiás, o governo estadual e os municípios têm considerado essas projeções para buscar ações mais efetivas. Aqui, cabe ressaltar o óbvio: esses cientistas não ditam as políticas de ação, mas delineiam alternativas baseadas nas melhores evidências e análises disponíveis. Quem for inteligente, presta atenção e usa o conhecimento a seu favor.

“A transposição de modelos e resultados entre espécies é rotineira em biologia e medicina.”

E o Dirceu Borboleta? Ele é um ícone para a representação distorcida a que a ciência ecológica vem sendo sujeitada, desde que ela ganhou destaque crescente no cenário das grandes questões ambientais. A primeira linha de ataque dos negacionistas de ciência é desqualificar cientistas inconvenientes. A ecologia está mais sujeita a isto, porque ecólogos não se enquadram no estereótipo do cientista de jaleco ao microscópio, rodeado de frascos em que borbulham líquidos coloridos ou por painéis com luzes piscantes. Além da mera desqualificação de outros cientistas, ecólogos são escrachados como naturebas, abraçadores de árvores, ativistas de uma ingênua e retrógrada volta à natureza. Em suma, nem são considerados cientistas.

No Brasil, estamos assistindo ao negacionismo da ciência em todos seus matizes. No debate da reforma do Código Florestal, o relator do projeto de lei, junto com a Ministra da Agricultura e outros detratores da ciência ecológica, sustentavam insistentemente que cientistas de verdade (bem poucos, aliás) afirmavam a urgência de liberalizar a legislação ambiental para evitar uma dramática crise de abastecimento alimentar e o iminente colapso da agroprodução de exportação. Isso faz 10 anos; hoje, curiosamente, alguns desses detratores tornaram-se defensores eloquentes da produção ambientalmente sustentável. Mas isso é outra história, e o Dirceu Borboleta continua disponível para quem não quer, e nem tem como, defrontar argumentos científicos baseados em evidências e modelos claros.

 

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5 comentários em “Difamação, negacionismo e a volta do Dirceu Borboleta”

  1. Excelente, Thomas! Lúcido, objetivo e direto na análise, que escancara o terrível momento histórico que vivemos. Momento inimaginável para alguém da minha idade e experiência de vida, que, tendo presenciado e vivido o fim da ditadura militar, a transição democrática, as “diretas já”, a gestão Sarney, a gestão Collor, o primeiro impeachment, as gestões FHC, as Lulo-petistas, o segundo impeachment, precisa suportar agora a acensão do fascismo no nosso país, que requererá outra luta dura para ser superado. Que suas sábias reflexões sirvam de alerta aos muitos distraídos!

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  2. Nossa querida amiga Alika me recomendou o seu texto. Muito bom Thomas! Tempos difíceis esses que vivemos, não? Suas palavras tão precisas e sábias, contudo, vão ajudar a passar mais um dia por tudo isso. Obrigada!

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