Cláudia Martins, Wezddy Del Toro Orozco e Yara Barros
Cláudia Martins (Univasf) é engenheira agrônoma e pesquisadora do Instituto Pró-Carnívoros e do Programa Amigos da Onça. Wezddy Del Toro Orozco é bióloga e pesquisadora do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e University of Georgia. Yara Barros é Coordenadora Executiva do Projeto Onças do Iguaçu

Cuidar das onças sem perder nossa humanidade

Cláudia Martins, Wezddy Del Toro Orozco e Yara Barros
domingo, 26 julho 2020 18:11
Onça pintada na Amazônia. Foto: Wezddy Del Toro Orozco.

Recentemente, o projeto Onças do Iguaçu publicou uma notícia sobre a prisão de caçadores no Parque Nacional do Iguaçu, e esse post teve muita repercussão. Por um lado, é interessante que tantas pessoas estejam dispostas e fazer uma reflexão sobre a caça na região, pois elas potencialmente podem ajudar a combater projetos de lei que liberam a caça de forma não sustentável, cobrando ações do governo e se posicionando contra legislação  lesiva ao meio ambiente e à vida silvestre. Por outro lado ficamos preocupados com a violência de algumas reações, embora acreditemos que são impulsivas e sem qualquer intenção de se concretizarem.

Nos preocupa a banalização da violência, o estímulo à intolerância, seja com bicho, seja com gente, e a perda da empatia.

Quando postamos notícias sobre caça ou abate de onças, muitas pessoas comentam que os caçadores devem ser mortos, caçados ou torturados (com variadas sugestões de métodos de tortura).

Não é nada disso que buscamos ou estimulamos. Nós exigimos que se cumpra a lei.

O objetivo de divulgar esses comportamentos é mostrar que às vezes temos um conhecimento equivocado da figura do “caçador” e, de certa forma, nos aproveitarmos da norma social (a reputação que desejamos ter, sermos aceitos, ou o constrangimento de desagradar alguém a quem respeitamos) para motivar esses caçadores a retrocederem em suas ações e comportamentos.

Acreditamos que, se esse mundo ainda tem jeito, ele passa pelo resgate da empatia. Se colocar no lugar do outro e sentir sua dor, ver as coisas sob sua perspectiva.

Quando deixamos que nossa indignação descambe para a violência, abrimos uma porta para a barbárie, pois tendemos a ignorar as leis e a querer “justiça” a qualquer custo, e damos uma paulada certeira na empatia e na nossa humanidade. Ou seja, queremos apagar um incêndio, mas colocamos nele mais lenha. Não funciona.

Um caminho é canalizar a indignação para gerar mudanças benéficas, não mais sofrimento, e a empatia pode nos ajudar no processo de conectar pessoas para somar esforços nessa tarefa.

Sensibilidade para avaliar caso a caso

Crânios de onça e jacaré. Foto: Wezddy Del Toro Orozco.

Na região do Parque Nacional do Iguaçu a caça não é de subsistência, é “tradição”. Sim, tradição é uma palavra bacaninha que pode ser utilizada para legitimar uma série de práticas questionáveis, não? Joga um “manto de legalidade” sobre muitos crimes.

Muitos caçadores da região não têm problema financeiro algum, apenas usam a caça como esporte, e acham legal servir uma paca para os amigos. Passar o final de semana caçando no Parque Nacional é um entretenimento.

Em 2019, a equipe de Proteção do Parque Nacional do Iguaçu, em conjunto com a Polícia Ambiental, encontrou, dentro do parque, 24 estruturas de caça, sendo 4 acampamentos. Na ocasião, 2 pessoas foram presas. Em 2020 esse número aumentou: de janeiro a junho foram já foram encontradas 85 estruturas de caça, sendo 11 acampamentos. Nove pessoas foram presas.

Considerando o cenário e particularidades locais, o projeto Onças do Iguaçu se posiciona abertamente contra a caça e procura mudar a percepção das pessoas e conseguir uma tão necessária mudança de hábitos.

Armadilha tipo arataca. Foto: Cláudia B. Campos.

Já na Amazônia, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, e na Caatinga, o programa Amigos da Onça trabalham em uma realidade diferente, com populações humanas que tendem a estar dentro da faixa de renda mais baixa, são dependentes dos recursos naturais (flora e fauna), têm reduzida assistência técnica e fraca presença da administração pública. Nessas regiões, a maior parte da caça é de subsistência, e as populações locais, muitas vezes sem acesso a outros recursos, dependem dela como fonte de proteína para alimentação.

A maior parte das pessoas que criam animais domésticos são pequenos produtores, e os animais criados, mais do que provedores de carne para acompanhar o arroz e feijão de cada dia, são poupança para alguma emergência familiar. Então, a perda de um animal representa um desfalque considerável no patrimônio de uma família. Estas perdas podem acontecer por picada de cobra, ataque de porco ou cachorro doméstico, roubo, problemas relacionados ao parto e ataque de onça também. Com um manejo das criações sendo feito de forma extensiva, o controle dos rebanhos é frágil. Com a vulnerabilidade socioeconômica dos criadores, as estruturas de pernoite também não garantem a segurança dos animais.

Infelizmente, muitos criadores ainda colocam na conta da onça suas perdas, e é comum o abate de onças (pardas e pintadas) acontecer por retaliação à predação. Na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, no Amazonas, aproximadamente 70 onças-pintadas são mortas por pessoas todos os anos, segundo uma estimativa realizada por Emiliano Ramalho em 2012. Já no Boqueirão da Onça, em plena Caatinga baiana, dados preliminares obtidos a partir de entrevistas informais com residentes sugerem que pelo menos 25 onças-pardas foram abatidas entre 2005 e 2010, por retaliação à predação de gado (bovinos) ou criação (caprinos e ovinos), ou por caça furtiva. Só em 2017 as carcaças de quatro onças-pardas e uma onça-pintada foram encontradas na região, depois de uma informação de um residente.

Na região do Iguaçu, foi feita, com base nas entrevistas, uma estimativa conservadora do número de onças-pintadas abatidas. Nos últimos 40 anos (até 2017) teriam sido mortas na região 74 onças-pintadas e duas onças pardas. Desde 2017 tivemos a confirmação de duas onças-pardas abatidas e nenhuma onça-pintada (o que não significa que não tenham ocorrido abates).

Carcaça de onça-pintada abatida na Caatinga. Foto: Cláudia B. Campos.

Nas comunidades rurais da Amazônia e da Caatinga as pessoas estão mais expostas no dia a dia às interações com animais silvestres. incluindo às onças, e seu abate pode ter motivações adicionais ao fator econômico, como por exemplo a necessidade de alimento, o medo, a norma social, a percepção das pessoas, entre outras.

Na Caatinga, a carne de animais silvestres também é fonte vital de proteína, uma vez que peixe e outras fontes são limitadas, principalmente nas épocas de estiagem, quando a produção agrícola é quase inviável e os animais domésticos, “criações”, têm mais privações de pasto e água. Estudos preliminares feitos na região do Parque Nacional do Catimbau mostraram que a criação e implementação de políticas públicas, como as de transferência de renda, aposentadoria rural e bolsa-família, deixaram as famílias menos dependentes dos recursos naturais, em teoria dispensando a atividade da caça para suprir a necessidade de proteína animal.

Estudos conduzidos nos estados do Maranhão, Piauí, Rio Grande do Norte e Paraíba indicaram que não existe uma preocupação dos caçadores com o status de conservação das espécies; não necessariamente a caça é para suprir uma necessidade imediata de carne, mas para venda, ou oferta em reconhecimento de um favor ou serviço prestado, ou resulta de uma preferência cultural pelo sabor da carne de caça; a maior parte da caça vem de áreas próximas dos agregados populacionais ou usando aberturas feitas na caatinga, porém, a facilidade de conseguir armas mais sofisticadas e de adquirir motorizada tem tornado os animais mais susceptíveis à caça; até onça-pintada e onça-parda aparecem na lista de animais indicados como abatidos para consumo alimentar.

Animais e armas apreendidos no Parque Nacional do Iguaçu. Foto: Arquivo PNI.
“Quem trabalha com conservação precisa acreditar que uma mudança de comportamento pode existir.”

O programa Amigos da Onça trabalha há oito anos no Boqueirão da Onça, em um cenário de um dos mais baixos Índices de Desenvolvimento Humano do Nordeste do Brasil. É convicção da equipe que legal e ético devem andar de mãos dadas, e a punição ou ameaça por advertência cumprem seu papel vital, mas é inegável a importância de motivar mudanças de comportamento, ainda mais em regiões extensas onde fiscalizar e monitorar exigiria recursos humanos e financeiros muito elevados.

Os projetos de conservação de onças e coexistência seres humanos-vida silvestre buscam, através de questionários, entender as motivações para a caça. Esse conhecimento deve pesar-nos com a responsabilidade de promover mudanças que favoreçam ambos os lados do conflito, e não nos imbuir de uma força julgadora que pode solucionar um problema imediato, mas de forma superficial e não duradoura. A ideia é construir soluções junto com as comunidades.

Afinal, lutar contra a caça na Amazônia e na Caatinga, locais onde ela representa uma importante fonte de subsistência, sem oferecer alternativas, pode significar condenar populações humanas à fome. Essa luta não pode nem deve ser uma estratégia unidirecional de comando e controle. É fundamental incentivar e promover um diálogo efetivo entre os moradores das comunidades e outros grupos de interesse, buscando uma troca de conhecimentos e experiências com o intuito de avançar na construção de um plano de manejo participativo adequado para a caça o qual contemple práticas sustentáveis.

Pegadas de onça embaixo da casa. Foto: Wezddy Del Toro Orozco.

Isso ajuda inclusive a envolver as pessoas dessas regiões com a conservação das onças.

Empatia e sensibilidade são armas poderosas para a conservação. Conciliar a necessidade da conservação das onças – e da fauna como um todo – com as necessidades de populações carentes, e sem perder a empatia, é um desafio para os projetos.

Quem trabalha com conservação precisa acreditar que uma mudança de comportamento pode existir, e esta somente pode ser alcançada através de diálogo efetivo e de uma construção coletiva com comunidades locais.

Precisamos acreditar que nosso trabalho pode “tocar o coração para ensinar a mente”, assim cada vez mais pessoas podem ser sensibilizadas e se tornarem defensoras “de tudo o que precisa ser salvo”.

Em tempos de pandemia, onde empregos e meios de vida vêm sendo perdidos, fica cada vez mais difícil coibir a caça. É importante buscar e garantir formas alternativas de renda antes de pedir que as pessoas parem de caçar.

Difícil? Sim, muito.

Por isso sempre dizemos que precisamos escolher cuidadosamente nossas batalhas, para que nesse processo não sejam perdidas nem onças, nem pessoas, nem nossa humanidade ou empatia.

 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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6 comentários em “Cuidar das onças sem perder nossa humanidade”

  1. Apesar do lindo trabalho dos autores, esse mimimi sociocoisista “politicamente correto” a favor de caçadores “coitadinhos” é absolutamente injustificável. É a mesma ideologia que tenta varrer pra baixo do tapete o esvaziamento da fauna das florestas pela “caça de subsistência” absurdamente impune e descontrolada. Tem parar de matar fauna SIM.

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  2. Quem faz isso com os animais selvagens não são dignos de confiança nenhuma.Se eu não tivesse família,viraria uma JUSTICEIRA ,igual aquele filme O JUSTICEIRO,pra quem assiatiu sabe como é…eu viraria uma justiceira e mataria esses caçadores 😡;pois a justiça ambiental infelizmente não funcione.

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  3. "Afinal, lutar contra a caça na Amazônia e na Caatinga, locais onde ela representa uma importante fonte de subsistência, sem oferecer alternativas, pode significar condenar populações humanas à fome. ". Eu já andei bastante pela Amazônia em ditas "comunidades tradicionais" em trabalho e nunca vi uma única família que não tenha criação de porcos, galinhas, bois, patos ou até búfalos, ou tenha acesso a tal carne por terceiros por meio de escambo. Isso sem falar na pesca com redes, muitas vezes feitas em bocas de rios ou com malhas proibidas. Aliás, uma única vez vi, nos confins do Tapajós (pra lá de Jutaí) um caso de caça abrangido pela lei (saciar a sua fome ou de sua família), em uma abordagem de barco, onde havia uma anta despedaçada dentro dum cesto fétido para alimentar uma família que levava um doente (em um barco acabado) para algum lugar onde pudesse ter o mínimo de atendimento médico. Qualquer trabalho sério (com metodologia científica, não achismos ou entrevistas com quem caça, do tipo "tem anta por aqui?" ou "algum bicho já não existe mais?") já provou que há defaunação e extinções locais ao redor de pessoas que caçam pela "tradição", sob o manto da necessidade, que foi o único excludente estabelecido pela lei nesse sentido.

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