Cleyton Martins da Silva e Graciela Arbilla
Coordenadores do Laboratório de Química Atmosférica e Poluição do Instituto de Química da UFRJ. Cleyton Martins é professor da UVA e Graciela Arbilla professora titular da UFRJ e Pesquisadora do CNPq.

COVID-19: os desafios de uma nova época

Cleyton Martins da Silva e Graciela Arbilla
quinta-feira, 21 maio 2020 11:43
O mundo está doente, e não é culpa apenas do COVID 19. Imagem: Pixabay.

Em 2017, Daniel R. Lucey e colaboradores cunharam o termo “pan-epidemia do Antropoceno” para referir-se às grandes epidemias relacionadas às forças antrópicas que impactam o Sistema Terra. Mas, será que realmente as pandemias estão vinculadas às características do Antropoceno, a “Época dos Humanos”? A interferência humana no Planeta pode de alguma forma facilitar a disseminação de doenças? Para responder essas perguntas, é preciso voltar na história e examinar como chegamos até aqui.

A primeira e, talvez, mais dramática evidência dessa interferência humana no Planeta aconteceu no século 16, tendo, porém, o seu início há milhares de anos. 

Há aproximadamente 120 mil anos, o Homo sapiens iniciou sua dispersão desde África, inicialmente à Europa e Ásia e, há 12 mil anos, à América através do Mar de Bering. A segunda onda de imigração aconteceu há aproximadamente 10 mil anos e, a partir de então, a humanidade e todas as espécies vivas evoluíram independentemente de um e outro lado do oceano Atlântico. Com a chegada dos europeus ao continente americano, duas civilizações se encontraram, em termos desiguais, num evento considerado por alguns estudiosos como a Primeira Globalização. Esse evento resultou em muito mais que o fluxo de pessoas entre Europa e América e, mais tarde entre América e África. Os europeus trouxeram animais, vegetais e, também, vírus de diversas doenças (gripe, varíola, malária, febre amarela, sarampo, tifus). O chamado “Intercâmbio Colombianoresultou na globalização e homogeneização de espécies, doenças, em mudanças na agricultura, a criação de animais e, também, em mudanças econômicas, culturais e sociais. E, nesse processo, os habitantes da América que se encontravam numa situação desigual, especialmente pelas diferenças tecnológicas, foram dizimados principalmente pelas doenças e a falta de alimentos. Se estima que 70 a 90% da população nativa (10% da população do mundo) morreu, entre 1493 e 1650, como consequência desse evento. 

“A rápida disseminação da COVID-19 evidencia como a urbanização e a globalização têm mudado a forma de como as pessoas vivem e como interagem com outras espécies.”

O segundo grande marco das mudanças no Planeta foi a Revolução Industrial, a partir da qual as concentrações de poluentes devidos ao uso de combustíveis fósseis começaram a aumentar. Em particular, as concentrações de dióxido de carbono experimentaram aumentos sem precedentes: enquanto a partir do desenvolvimento da agricultura e até o início da Revolução Industrial, as taxas de aumento foram de aproximadamente 0,003 ppm por ano, o acréscimo entre 1750 e os dias atuais foi de aproximadamente 0,6 ppm por ano. A partir de 1950 se inicia uma mudança ainda maior com a chamada “Grande Aceleração”, período a partir do qual se observa um crescimento exponencial de parâmetros socioeconômicos (como população urbana, uso da energia e da água, desenvolvimento dos transportes e das comunicações) quanto de parâmetros físico-químicos e biológicos que mostram a degradação ambiental. Surge assim o conceito de Antropoceno, ou “Época dos Humanos”, como um tempo no qual o homem se converte numa força geológica capaz de mudar o equilíbrio do Sistema Terra.

Nesse contexto e através dos séculos, as epidemias e pandemias foram se repetindo e sempre encontraram elementos em comum associados às características da “Época dos Humanos”. A rápida disseminação da COVID-19 evidencia como a urbanização e a globalização têm mudado a forma de como as pessoas vivem e como interagem com outras espécies. No século 21, os avanços nas comunicações e transporte, a alta densidade populacional, a disponibilidade de residências muito pequenas para muitas famílias, os transportes, centros comerciais e locais de trabalho com grandes aglomerações, os grandes eventos culturais, esportivos e políticos, os espaços públicos cheios, a degradação ambiental e o contato com animais selvagens contribuem para a disseminação rápida de doenças. As consequências são ainda mais graves para os países com menos recursos, com grandes desigualdades sociais, falta de saneamento básico, com recursos insuficientes na área de saúde e educação, e pessoas vivendo em condições de extremo grau de pobreza. 

Existem evidências de que altos níveis de poluição atmosférica, em áreas urbanas com intensa atividade industrial e queima de combustíveis fósseis pelos veículos, podem ter sido fatores agravantes que proporcionaram o aumento do número de casos para os quais foram necessários a hospitalização, cuidados intensivos, internação em unidades de terapia intensiva e uso de respiradores pulmonares.

A pandemia colocou também em evidência a falha de muitos governos em tomar medidas rápidas para conter a disseminação do vírus. Imagem: Gerd Altmann/Pixabay.

A pandemia colocou também em evidência a falha de muitos governos em tomar medidas rápidas para conter a disseminação do vírus. A incapacidade de seguir as recomendações dos cientistas e especialistas em saúde pública, em aproveitar as experiências de outros países que já tinham enfrentado situações críticas de epidemias, demonstrou, também, como a humanidade falhou ao apenas enxergar objetivos e consequências a curto prazo e não se preparar para o futuro. Um futuro que era previsível à luz das epidemias passadas e do conhecimento dos infectologistas e cientistas acumulado através das pandemias anteriores, do Ebola e outras doenças tropicais negligenciadas, como Zika, Chikungunya, dengue, febre amarela e malária.

A pandemia mostrou que a maior parte dos países não estava preparada para lidar com a disseminação do vírus, nem do ponto de vista de suas estruturas sanitárias, nem do ponto de vista da capacidade para gerenciar a crise com a rapidez que a situação requer. 

Surpreendentemente, nem os países mais desenvolvidos conseguiram implementar uma estratégia suficientemente eficiente que permitisse evitar a entrada e disseminação do vírus, o colapso dos sistemas de saúde e a entrada e saída de pessoas contaminadas do país. Em um mundo globalizado e altamente conectado, os países não conseguiram unir esforços para controlar a COVID-19 e, alguns deles, nem conseguiram seguir estratégias coerentes e unificadas dentro do seu próprio território, como é o caso do Brasil. 

O Antropoceno revelou uma humanidade incapaz de lidar com as forças que ela mesma ajudou a gerar e/ou intensificar. O desenvolvimento da pandemia não foi uma obra do acaso nem tampouco um acontecimento inesperado, mas o resultado da incapacidade de gerenciar a transmissão de patógenos agravadas por condições de pobreza, falta de saneamento e controle, e degradação ambiental. 

Voltando às nossas perguntas iniciais: as pandemias estão vinculadas às características do Antropoceno? A interferência humana no Planeta pode de alguma forma facilitar a disseminação das doenças? Tudo indica que sim, que a urbanização e globalização, o desenvolvimento dos transportes, o intercâmbio de pessoas, espécies vivas e materiais, contribuem com a disseminação dos vírus. As condições de pobreza, as deficiências do sistema de saúde, a degradação ambiental, as desigualdades sociais e a falta de planejamento contribuem para agravar as consequências das epidemias e pandemias.

“As condições de pobreza, as deficiências do sistema de saúde, a degradação ambiental, as desigualdades sociais e a falta de planejamento contribuem para agravar as consequências das epidemias e pandemias.”

Essas consequências vão muito além da mortalidade ou dos possíveis efeitos posteriores da doença, e têm implicâncias no sistema de saúde como um todo, na economia, na educação, nas relações sociais e no meio ambiente. 

Há alguma coisa que pode ser feita? Como será o mundo pós-pandemia? Será a continuação do modo de vida atual, o colapso ou a opção de um novo modo de vida e uma nova relação com o Planeta?  A resposta depende das lições que podem ser extraídas desta crise e das escolhas que podem ser realizadas com base nessas lições. 

As lições da pandemia são, ao mesmo tempo, dolorosas e importantes: a primeira é que em um mundo globalizado, as ações e decisões de algumas poucas pessoas, que detém o poder político e econômico nos países, irão afetar a saúde, economia e futuro de toda a humanidade, visto que não existem barreiras para uma epidemia num mundo interconectado e globalizado. A segunda, é que para evitar ou enfrentar crises no futuro, devemos estar preparados. 

Ainda mais, a história nos ensina que as pandemias não são eventos aleatórios, tais como as guerras, são as consequências das interações humanas e da relação do homem com o meio ambiente. De alguma forma, as pandemias podem ser evitadas ou atenuadas com nossas escolhas.

Uma importante escolha que deve ser realizada é se cada país irá resolver seus problemas isoladamente ou em forma solidária e global. A pandemia mostra que, tanto a disseminação e controle do vírus quanto a crise econômica são problemas globais, e problemas globais requerem soluções globais. Assim, a alternativa ao colapso passa pelo entendimento de que é necessário um acordo global para gerenciar o futuro da Terra em forma coletiva. 

Deveremos fazer a escolha entre pensar apenas no nosso próprio bem-estar ou no bem-estar de todas as espécies e, também, devemos fazer a escolha entre investir em educação e ciência ou continuar a acreditar nas promessas, muitas vezes infundadas, das pessoas que estão no poder.

“Deveremos fazer a escolha entre pensar apenas no nosso próprio bem-estar ou no bem-estar de todas as espécies.”

Para estar preparado para o futuro será necessária uma mudança de valores. Será necessário mudar a forma de vida da sociedade e concentrar os esforços coletivos para achar uma forma que permita gerenciar os próximos desafios que certamente virão, e fundamentar esse gerenciamento no conhecimento científico, na educação e no investimento em saúde pública. 

Finalmente, será necessário dispor de líderes dispostos a assumir os desafios, a aceitar que vivemos num mundo em constante mudança onde as decisões devem ser tomadas rapidamente e com fundamento na ciências naturais e humanas, líderes dispostos a percorrer o caminho junto a todos os cidadãos e serem exemplos a seguir. 

Qual é o futuro da humanidade? Existe um futuro de reconciliação entre a humanidade e o Planeta no cenário de Antropoceno? A COVID-19 nos dá a grande oportunidade de rever nossas atitudes.  Provavelmente, a maior lição da COVID-19 é mostrar a humanidade que, apesar de ela ter se convertido na maior força geológica atual, o Sistema Terra como um todo não lhe pertence, e as consequências das ações humanas podem ser catastróficas e imprevisíveis para todo o Planeta. 

Assim, a esperança do mundo pós-COVID é superar este momento transformando a globalização em uma “globalização solidária”. Não há mais espaço para cada país resolver a crise sozinho. Ainda pior: não há espaço para a humanidade resolver as crises que virão se esquecer que divide este Planeta com as outras espécies e que todos estamos interconectados. Não é possível salvar a humanidade sem salvar o Planeta.   

Dessa forma, o Antropoceno, a “Época dos Humanos”, pode deixar de ser uma ameaça para todo o Planeta e para a própria humanidade e se converter em uma oportunidade de crescimento coletivo. 

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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