Juliana Bosi de Almeida e Raquel Carvalho
Juliana Bosi de Almeida é bióloga, lidera o Programa Aves Limícolas desde que o criou em 2015, é Coordenadora Executiva do PAN Aves Limícolas. Raquel Carvalho é bióloga e integra a equipe da SAVE Brasil desde 2018 como Coordenadora de Projetos no Programa Aves Limícolas.

Caminhos para conservação de aves limícolas no Brasil

Juliana Bosi de Almeida e Raquel Carvalho*
quinta-feira, 8 outubro 2020 10:07
Bando de maçarico-branco (Calidris alba). Foto: João Paulo Damasceno

Aves limícolas foram assim batizadas por se alimentarem de pequenos invertebrados que vivem no “limus” (lodo em latim). São, portanto, dependentes de ambientes úmidos e buscam alimento nas zonas entre-marés e margens de corpos aquáticos, embora possam ocupar uma diversidade de habitats. Grande parte dessas aves pernaltas, que estão distribuídas em 13 famílias da ordem Charadriiformes, são migratórias. É dentro desse grupo que se encontram maçaricos, batuíras e quero-queros, piru-pirus, pernilongos e narcejas. Das 47 espécies que ocorrem no Brasil, 13 são residentes, 4 são migrantes do cone-sul e 30 são migrantes do hemisfério Norte.

As migrações ocorrem no outono e primavera de cada ano, quando milhares de indivíduos cruzam os hemisférios norte e sul. Várias vêm descansar em sítios de invernadas no Brasil, frequentando a região costeira, o Pantanal e outras áreas úmidas. Algumas destas espécies, como o maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus) que pesa entre 100 g e 300 g (o equivalente a uma xícara de leite!), estão dentre as campeãs em distância voada anualmente – 30.000 km a 32.000 km. O Moonbird (ave da Lua), pequeno maçarico-de-papo-vermelho que viveu mais de 20 anos, recebeu esse apelido por voar 1,5 vezes a distância entre a Terra e a Lua durante sua vida. Como sabemos que ele viveu mais de 20 anos? Ele possuía uma bandeirola com o código B95, que funciona como uma carteira de identidade, e assim foi encontrado em várias praias ao longo das Américas entre 1995 e 2014.

Para fazer essas viagens entre os extremos norte e sul de suas áreas de vida, as aves migram por “caminhos” imaginários chamados “rotas migratórias”. O território brasileiro é cruzado por duas importantes rotas migratórias: a Rota Central e a Rota Atlântica. Dependendo da espécie, das condições físicas de um indivíduo, e das barreiras geográficas a vencer, as aves podem fazer voos diretos entre os sítios reprodutivos e a área de repouso, conhecidos como sítios de invernada. Os pontos de descanso mais importantes para o maçarico-de-papo-vermelho no Brasil encontram-se no Maranhão (APA Reentrâncias Maranhenses) e no Rio Grande do Sul (Parque Nacional da Lagoa do Peixe). A distância voada entre pontos de paradas varia com a espécie e a condição física dos indivíduos. Alguns maçaricos-de-papo-vermelho voam direto da Lagoa do Peixe a Delaware Bay nos EUA – aprox. 8.000 km – por seis dias e noites sem parar para descansar, comer ou beber água.

Considerando-se o tempo e a distância de voo sem descanso ou alimentação, é fácil deduzir que nos pontos de parada as aves limícolas precisam comer (muito!) e descansar. Esses recursos – alimento e segurança para o descanso – são essenciais para que as aves consigam atingir o nível de condição corporal necessária à migração. Portanto, alterações nos ciclos de inundação, obstrução das praias e lagoas, instalação de empreendimentos e atividades que interfiram na alimentação, deslocamento e repouso das aves têm impacto negativos na sobrevivência das mesmas. O conhecimento sobre as ameaças presentes nos sítios de invernada e pontos de parada é essencial para um planejamento eficaz e eficiente de conservação que assegure o preparo e a saúde das aves que irão migrar!

Estudos realizados em vários países indicam um declínio populacional acentuado da maioria das espécies de aves limícolas migratórias nos últimos anos. O relatório Canadense State of Canada’s Birds de 2019 indica que as espécies de aves limícolas sofreram um declínio populacional médio de 40% desde a década de 1970. Quando se considera apenas as limícolas que migram grandes distâncias, ou seja, as que reproduzem no Canadá e migram para o Brasil, o declínio é de 52%.

Tendência populacionais de vários grupos de aves do Canadá. Linhas coloridas abaixo da linha pontilhada (0%) indicam declínio populacional. A tendência populacional média das aves limícolas está ilustrada em laranja (-40% Shorebirds). Fonte: The State of Candada’s Birds 2019.

No Brasil, apesar da escassez de informações, várias espécies encontram-se em declínio – cinco encontram-se na Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção: o maçarico-de-papo-vermelho (Calidris canutus rufa), o maçarico-rasteirinho (Calidris pusilla), o maçarico-acanelado (Calidris subruficollis), o maçarico-de-costas-brancas (Limnodromus griseus) e a batuíra-bicuda (Charadrius wilsonia).

O Programa Aves Limícolas da SAVE Brasil vem trabalhando desde seu início, em 2015, para assegurar a conservação a longo prazo das aves limícolas e seus habitats no Brasil. Além das duas áreas focais onde desenvolve projetos de longo prazo, uma no Rio Grande do Norte e outra no Rio Grande do Sul, o programa também atua, de maneira participativa, no desenvolvimento de estratégias e ações de conservação, articulando com organizações locais, nacionais e internacionais, órgãos governamentais, empresas, líderes comunitários, pesquisadores e sociedade civil.

No Rio Grande do Norte, a área escolhida foi a região da Bacia Potiguar, também conhecida como Costa Branca. Quando se iniciou o trabalho, havia sugestões de que a região era importante para aves limícolas migratórias, mas não havia estudos de médio ou longo prazo que comprovassem essa informação. Ao longo desses quase cinco anos, foram identificadas mais de 20 espécies de aves limícolas na região, sendo que quatro são ameaçadas de extinção (maçarico-de-papo-vermelho, maçarico-rasteirinho, maçarico-de-costas-brancas, batuíra-bicuda). Adicionalmente, comprovou-se que >1% da população biogeográfica do maçarico-de-papo-vermelho, utiliza a região todos os anos como sítio de descanso e alimentação durante a migração para o hemisfério Norte. Mais recentemente, foram iniciadas ações de engajamento da comunidade local e setores produtivos com o intuito de sensibilizá-los sobre as aves limícolas, e construir de forma participativa, acordos para o uso sustentável dos recursos locais e a conservação dessas aves.

No Rio Grande do Sul, o Programa Aves Limícolas atua na região do Parque Nacional da Lagoa do Peixe (municípios de Mostardas e Tavares). Ao contrário da Bacia Potiguar, o Parque Nacional da Lagoa do Peixe é notoriamente conhecido como uma área úmida estratégica para a conservação de aves limícolas migratórias há décadas – ele abriga aproximadamente 10% da população biogeográfica do maçarico-de-papo-vermelho e do maçarico-acanelado. Com o intuito de potencializar as ações locais de conservação, a SAVE Brasil trabalha com o engajamento comunitário, desenvolvendo atividades lúdicas durante os famosos Festivais de Aves Migratórias, promovido pelas Prefeituras locais e pelo ICMBio, e capacitando professores das escolas locais para o ensino das características e necessidades das aves limícolas. Adicionalmente, oferecem apoio técnico para a gestão local, oferecendo workshops de capacitação, produzindo artigos e documentos técnicos sobre conservação e manejo de áreas para aves limícolas. Em breve serão disponibilizadas informações novas sobre os serviços ecossistêmicos locais, rotas de migração do maçarico-acanelado e recomendações sobre o manejo necessário para conservar o habitat dessa espécie.

Atividades lúdicas conduzidas pela equipe da SAVE Brasil nos Festivais de Aves Migratórias de Mostardas e Tavares, Rio Grande do Sul. Fotos: Arquivo SAVE Brasil

Há, ainda, ações de ciência cidadã. Em janeiro de 2019, o programa liderou o 1º Censo Simultâneo de Aves Limícolas do Cone Sul. Em um único dia, 29 voluntários contaram mais de 15.000 aves limícolas ao longo da costa do Rio Grande do Sul e sul de Santa Catarina (791km). Essa iniciativa resultará na publicação de um Atlas de Aves Limícolas dessa região.

Para quem quer contribuir através da ciência cidadã, há também o Monitoramento Internacional de Aves Limícolas (ISS Brasil), protocolo desenvolvido pela Manomet Inc. e coordenado no Brasil pela SAVE Brasil. Esse protocolo é utilizado ao longo de todo o hemisfério, o que possibilita a comparação dos dados ao longo de toda a rota de migração e permite um melhor entendimento das variações populacionais. Os dados coletados são armazenados em um banco de dados aberto (eBird) e podem ser facilmente acessados por pesquisadores, gestores e sociedade em geral.

Mesmo com todas as ações locais, a conservação efetiva de aves limícolas depende de ações em todas as áreas utilizadas por uma população, ultrapassando fronteiras políticas. As seguintes iniciativas existem para incentivar pessoas, especialistas, organizações e governos a trabalharem juntos pela conservação das aves limícolas:

  • Plano de Ação Nacional para a Conservação das Aves Limícolas Migratórias (PAN Aves Limícolas) – uma estratégia nacional construída de forma participativa com o intuito de priorizar ações estratégicas com impacto regional e/ou nacional;
  • Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres (CMS) – um tratado das Nações Unidas que estabelece um marco regulatório internacional para os países signatários, como o Brasil, coordenarem ações de conservação de espécies por eles compartilhadas, como através da Força Tarefa para as Rotas Migratórias das Américas da CMS (AFTF), e do Memorando de Entendimento sobre a Conservação de Espécies de Aves Migratórias dos Campos Sulinos e de seus Habitats (MdE Pastizales);
  • Rede Hemisférica de Reservas para Aves Limícolas (WHSRN) – uma rede de sítios (áreas protegidas ou não) que atendem critérios populacionais e se comprometem a incorporar a conservação de aves limícolas e seus ambientes dentro da gestão e manejo da área;
  • Iniciativa Pró-Aves Limícolas na Rota Atlântica (AFSI) – uma estratégia internacional, construída de forma participativa, que prioriza e coordena ações de pesquisa, conservação e gere esforços de colaboração internacional voltadas às aves limícolas que utilizam a Rota Atlântica de migração nas Américas;
  • Iniciativa para Conservação de Aves Limícolas na Rota Central (MSCI) – uma estratégia nos moldes da AFSI que está em construção e é voltada para as aves limícolas que migram pela Rota Central das Américas.
Maçarico-de-papo-vermelho com bandeirola verde claro, código E65. Foto: Diego Luna

As ações e projetos do Programa Aves Limícolas da SAVE estão alinhadas e contribuem para a implementação de todas essas iniciativas, por exemplo beneficiando as cinco espécies ameaçadas no Brasil, além de pelo menos outras 20 espécies foco do PAN Aves Limícolas; identificando que a Bacia Potiguar satisfaz o critério biológico para ser nomeada como um sítio WHSRN e desenvolvendo atividades que culminem com a incorporação da área à Rede; e disseminando o censo voluntário através do uso do ISS (protocolo recomendado pelo PAN Aves Limícolas), que contribui para o entendimento das alterações populacionais em nível hemisférico e publicações como o The State of Canada’s Birds. Dessa forma, agimos localmente e contribuindo para mudanças globais: act locally – think globally.

As atividades do Programa Aves Limícolas só foram possíveis graças ao apoio da BirdLife International, Bobolink Foundation, Instituto Neoenergia, Manomet Inc., National Fish and Wildlife Foundation, Neotropical Migratory Bird Conservation Act, USFWS/USAID e do Escritório Executivo da Rede Hemisférica de Reservas para Aves Limícolas (WHSRN).

Para saber mais sobre as aves limícolas, sua conservação ou nosso projetos, escreva para [email protected]

*Sobre as autoras:

Juliana Bosi de Almeida é bióloga e Ph.D. em Ecologia, Evolução e Biologia da Conservação. Com mais de 15 anos de experiência em aves limícolas, lidera o Programa Aves Limícolas desde que o criou em 2015. É Coordenadora Executiva do PAN Aves Limícolas e faz parte do Conselho Hemisférico da WHSRN e dos Comitês Internacionais da AFSI e MSCI.

Raquel Carvalho é bióloga e Doutora em Oceanografia pela USP, integra a equipe da SAVE Brasil desde 2018 como Coordenadora de Projetos no Programa Aves Limícolas. Possui experiência na conservação de áreas úmidas, tendo sido ponto focal técnico da Convenção de Ramsar e desenvolvido projetos de conservação e monitoramento da área costeira brasileira no âmbito federal.

As opiniões e informações publicadas na área de colunas de ((o))eco são de responsabilidade de seus autores, e não do site. O espaço dos colunistas de ((o))eco busca garantir um debate diverso sobre conservação ambiental.

 

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